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Breve Histórico de Buddha

Breve Histórico de Buddha


Tam Huyen Van (Claudio Miklos)
Ano Buddhista de 2548

De forma semelhante aos mais importantes nomes religiosos da antiguidade, existem poucos dados históricos (a dizer, arqueológicos) acerca da trajetória de Siddharta Gautama – seu nascimento, vida, iluminação e morte. Contudo, a tradição oral buddhista soube preservar vários elementos fundamentais para a compreensão histórica do movimento Buddhista em sua origem e primeiros séculos, e são estes elementos que serão utilizados neste pequeno resumo. A maior parte deste ensaio se baseia na tradição Theravada, em associação com alguns dados transmitidos na tradição Thien Lam Te.

Gautama Buddha, nascido Siddharta Gautama (significando “Bem-Desejado”, “Bem-Querido”), veio ao mundo na Lua Cheia do mês de Vaishakha (Maio) no ano cristão de 623 a.C., no Parque Lumbini na região de Kapilavastu, nas fronteiras com o Nepal.

Siddharta era de ascendência nobre, pertencente ao clã Sakhya. Seu pai era um monarca deste clã, chamado Suddhodana. Sua mãe Maha Maya morreu sete dias após seu nascimento. Maha Prajapati Gautami, a irmã mais jovem de Maya (e igualmente casada com Suddhodana) tornou-se sua madrasta.

Aos dezesseis anos Siddharta se casa com Yashodhara, sua prima de mesma idade. Os dois tiveram um filho, chamado Rahula. Aos 29 anos Siddharta abandona sua vida mundana e torna-se um renunciante Yogui. Estudou sucessivamente sob a orientação dos ascetas Alara Kalama (doutrina Arupa Jhana, “Reino Sem Forma”) e Uddara Ramaputra (doutrina Neva Sanna Nasannayatana, “Reino além da Percepção e da Não-Percepção”). Considerando estas abordagens ainda insuficientes para atingir aquilo que considerava ser a paz interior, Buddha parte em peregrinação através do distrito de Magadha e chega em determinado momento em Uruvela, uma cidade-mercado da região de Senani. Lá ele encontra um local aprazível para praticar as técnicas yoguis.

Sabendo deste fato, cinco ascetas Brâmanes (Kondanna, Bhaddiya, Vappa, Mahanama e Assaji) juntam-se a Siddharta. A partir deste momento, por seis anos ele procurou a paz exercendo o mais estrito ascetismo, praticando todas as formas das mais severas austeridades.

Contudo, tais austeridades não provaram sua utilidade. Sua luta ascética apenas lhe conferiu um corpo atormentado por inúmeras repressões e esquelético. Neste momento, plenamente convencido pela sua própria experiência de que a auto-flagelação não leva ao Bem Supremo, abandonou o ascetismo e adotou uma senda independente: o Majjhima Patipada (Caminho do Meio).

Aos 35 anos Siddharta atingiu o estado búddhico. Após esta experiência, dedicou sua vida a orientar os seres para a correta prática da Consciência. Segundo o comentário Buddhavamsa, Buddha viveu os primeiros vinte anos de Esclarecimento da seguinte forma:

1o. Ano – Viveu no Parque dos Cervos em Isipatana, Benares.
2,3,4o. Anos – Viveu no Bosque dos Bambus em Rahagaha.
5o. Ano – Viveu em Mahavana próximo a Vesali. Nesta época, sabendo da iminente morte de seu pai Suddhodhana, foi a seu leito de morte e ensinou-lhe o Dharma. A tradição diz que o seu pai atingiu o estado de Arahant e morreu iluminado. Nesta época Buddha fundou a Ordem das monjas em seu Sangha.
6o. Ano – Viveu no monte Mankula.
7o. Ano – Em estado elevado, subiu ao Céu Tavatimsa e pregou aos Devas. Relatou o que tinha dito ao Venerável Ananda, quando retornava ao mundo.
8o. Ano – Viveu na floresta Bhesakala, no distrito de Bhagga.
9o. Ano – Viveu em Kosambi.
10o. Ano – Devido a uma lamentável disputa entre dois grupos de Bhikkhus em seu Sangha, Buddha retirou-se para a floresta Parileyyaka.
11o. Ano – Viveu em Ekanala, uma vila Brâmane.
12o. Ano – Viveu em Veranja.
13o. Ano – Viveu no rochedo Calika.
14o. Ano – Viveu no monastério Jetavana, em Savatthi. Neste período Rahula, seu filho, recebeu a Ordenação Superior aos 20 anos de idade.
15o. Ano –Viveu em Kapilavastu, sua cidade natal.
16o. Ano – Viveu na cidade de Alavaka.
17o. Ano – Viveu em Rajagaha.
18o. Ano – Viveu no rochedo Calika
19o e 20o. Anos – Viveu em Rajagaha.


Buddha ensinou por cerca de 45 anos, morrendo na idade de 80. Segundo a tradição, os últimos momentos de Buddha se deram da seguinte forma:

Buddha foi colocado em um assento entre duas árvores Sala, no Bosque Upavattana Sala. O Sangha o rodeava em perfeito silêncio.
Buddha atingiu o primeiro Êxtase ou Absorção – Jhana. Saindo deste, ele atingiu respectivamente o segundo, terceiro e quarto Êxtases. Este é o nível dos Rupa Jhanas.
Emergindo do Quarto Rupa Jhana, atingiu o Reino do Infinito Espaço – Akasanancayatana.
Após emergir deste Arupa Jhana, atingiu o Reino da Infinita Consciência – Viññanancayatana.
Após emergir deste Arupa Jhana, atingiu o Reino do Vazio – Akincaññayatana.
Após emergir deste Arupa Jhana, atingiu o Reino Além da Percepção de da Não Percepção – N’eva Sañña N’Asaññayatana.
Após emergir deste Arupa Jhana, atingiu o estado de Cessação das Percepções e Sensações – Saññavedayita-Nirodha. Neste momento o Buddha alcança o Maha Parinirvana.

Em seguida, Buddha emerge sucessivamente dos Quatro Arupa Jhanas em ordem inversa ao que já havia experimentado, depois emerge sucessivamente dos Quatro Rupa Jhanas em ordem igualmente inversa. Finalmente, ele mais uma vez experimenta o segundo, terceiro e quarto Rupa Jhanas em ordem crescente. Ao sair do Quarto Rupa Jhana, o corpo de Buddha cessa de viver.

O Sangha de Buddha

O Primeiro Concílio

Após sua morte, o Sangha de Buddha manteve-se em vigília e, com exceção dos mais sábios, houve manifestações de profunda dor e lamentações por parte de seus seguidores. Para agravar tal cena, a tradição conta que uma semana após o MahaParinirvana, um monge chamado Subhaddha disse a assembléia, "Não vos lamenteis, ò Monges! Não choreis! Estamos agora livres daquele Grande Asceta. Ele nos irritava ao dizer, ´Isto é adequado, aquilo é inadequado.´ Agora estamos livres para fazer o que desejarmos, e não teremos que fazer o que não desejamos".

Ao ouvir tais palavras o Venerável Kasyapa decidiu organizar um concílio cujo objetivo seria estabelecer e sustentar os ensinamentos de Buddha. O Rei Ajatasattu ordenou que se fizesse os arranjos necessários, e o concílio ocorreu em Rajagrha (Rajagaha), na entrada da caverna Sattapanni. Quinhentos Arahants foram escolhidos para a assembléia.

Este primeiro concílio ocorreu três meses após o Parinirvana de Buddha, no oitavo ano do reinado do Rei Ajatasattu. Ele durou sete meses. Segundo a tradição, nele foram assentados os fundamentos do Vinaya e do Dharma:

O Vinaya é composto de cinco livros, a saber:

I. Parajika Pali - Ofensas Maiores
II. Pacittiya Pali - Ofensas Menores
III. Mahavagga Pali - Grande Seção
IV. Culavagga Pali - Pequena Seção
V. Parivara Pali - Epítome do Vinaya

O Dharma se compõe de cinco Nikayas, a saber:

I. Digha Nikaya - Coleção de Longos Discursos
II. Majjhima Nikaya - Coleção de Médios Discursos
III. Samyutta Nikaya - Coleção de Ditos Semelhantes
IV. Anguttara Nikaya - Coleção de Discursos arranjados de acordo com o número
V. Khuddaka Nikaya - Coleção Menor

O quinto Nikaya é subdividido em quinze livros:

1. Khuddaka Patha - Textos Curtos
2. Dhammapada - Caminho do Dharma
3. Udana - de Contentamento
4. Iti Vuttaka - Discursos "Assim foi dito"
5. Sutta Nipata - Discursos Escolhidos
6. Vimana Vatthu - Estórias das Mansões Celestes
7. Peta Vatthu - Estórias dos Pretas
8. Theragatha - Salmos dos Irmãos
9. Therigatha - Salmos das Irmãs
10. Jataka - Contos dos Renascimentos
11. Niddesa - Exposições
12. Patisambhida - Conhecimento Analítico
13. Apadana - Vidas dos Arahants
14. Buddhavamsa - A História de Buddha
15. Cariya Pitaka - Modos de Conduta

O Abhidharma (Abhidhamma), de acordo com a tradição, foi organizado pelos Arahants neste concílio, consistindo de sete livros:

I. Dhamma Sangani - Classificação dos Dharmas
II. Vibhanga - O Livro das Divisões
III. Kathavattu - Ponto de Controvérsia
IV. Puggala Paññatti - Descrição dos Indivíduos
V. Dhatukatha - Discussão com referencia aos elementos
VI. Yamaka - O Livro dos Pares
VII. Patthana - O Livro das Relações

Todos estes 31 livros são denominados coletivamente Tipitaka (Três Cestos). O Vinaya Pitaka (Cesto da Disciplina) versa sobre os aspectos disciplinares e reguladores do Sasana. O Sutta Pitaka (Cesto dos Discursos) consiste nos importantes discursos feitos por Buddha em diferentes ocasiões, assim como discursos feitos por grandes Veneráveis como Sariputta, Moggalana, Ananda, etc.

O Abhidhamma Pitaka (Cesto da Doutrina Suprema) consiste nos fundamentos psicológicos e filosóficos dos ensinos de Buddha.

O Tipitaka foi posto em forma escrita pela primeira vez em Aluvihara no Sri Lanka em torno do ano de 80 d.C., no reino do rei Vatthagamani Abhaya. É de se notar que este compêndio não é reconhecido integralmente por todas as escolas buddhistas. Grande parte das escolas Mahayana possui diversos Sutras -- que não se encontram na estrutura do Tipitaka -- como textos fundamentais. Outras escolas se baseiam em alguns sutras, mas não em todo o escopo. Apenas a escola Theravada tem o Tipitaka completo como base em sua doutrina, e a escola zen Lam Te, ainda que Mahayana, foi intensamente influenciada por ele. Contudo, a antiguidade e importância dos sutras reunidos neste grande compêndio são inegáveis.

O Segundo Concílio

Deu-se em Vaishali (Vesali) no décimo ano do reinado de Kalashoka, cem anos após o Parinirvana de Buddha, com a finalidade de condenar dez práticas ditas heréticas preconizadas por um numeroso grupo de monges. Este segundo conselho durou oito meses, e contou com setecentos Arahants.

O Terceiro Concílio

Este ocorreu 236 anos após o Parinirvana de Buddha, em Pataliputra no décimo oitavo ano do reinado do grande imperador buddhista Ashoka. Desta vez o motivo teria sido o fato de que, tendo crescido extremamente em numero e influencia, o Sasana buddhista estava começando a apresentar várias abordagens distintas, consideradas em muitos casos fora de contexto. O ponto de controvérsia é que, segundo tudo o que parece apontar, houve grupos de praticantes leigos extremamente ativos e organizados na época, e que optavam por tomar o manto monástico ainda que mantivessem uma vida mundana. Isso foi considerado uma ação injusta, e, portanto, passível de supressão.



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