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Tibet: Entre Liberdades e Revoluções

Tam Huyen Van

Tibet - Entre Liberdades e Revoluções.

Tam Huyen Van - 01 de Maio, 2008

Não é nada fácil conhecer bem – e interpretar de forma atenta e cuidadosa – a complexa realidade histórica e cultural de um povo. Claro que isso é justificável, afinal nenhum aspecto da história humana é simples e fácil de ser conhecido – somos pouco experimentados em perceber a multifacetada sutileza dos atos, palavras e pensamentos de uma coletividade inteira. E isso se torna tão difícil porque simplesmente não existe uma realidade coletiva única, não existe uma entidade individual a qual possamos chamar de "povo" como chamaríamos alguém específico em uma multidão ou um ente querido com o qual convivemos todos os dias. Quando procuramos falar de uma cultura humana em especial, precisamos lidar com as realidades individuais das pessoas, simples pessoas, que compõem esta cultura, esta nação ou grupo de seres humanos. E quando tentamos entender as necessidades de um povo, precisamos saber entender as necessidades de qualquer ser humano, em qualquer tempo e em qualquer lugar, pois a humanidade não é feita de povos – ela é feita de homens e mulheres que, apenas sob os caprichos ainda misteriosos do tempo e do espaço, agregam-se em regiões distintas mas que no entanto desejam e anseiam por algo estritamente igual: todos buscam, de forma sábia ou não, a medida de felicidade que lhes cabe.

Assim devemos aprender a refletir sobre o Tibet, e sobre as pessoas que lá vivem: precisamos refletir sobre sua humanidade. Apesar de todas as estórias fantásticas e místicas atribuídas àquele país, a despeito da bela e maravilhosa manifestação de arte e cultura características da tradição religiosa Tibetana, há uma coisa ainda mais fundamental e real a ser conhecida desta nação distante. E esta coisa, para ser realmente conhecida, deve ser analisada por meios pouco usuais aos egos e intelectos – distante de vícios de linguagem, de posições políticas e até mesmo dos dramas sociais.

Este país, encravado no coração do continente asiático, em um ponto do planeta encharcado de história e extremamente diversificado em povos e culturas, mergulhado em muitas convulsões sociais, religiosas, políticas e espirituais ao longo de sua milenar história, têm sido um interessante marco de simbolismo e referência (ainda que de uma maneira caracteristicamente circunspecta e quase casual) sobre a questão da liberdade, sobre o conceito de libertação, e sobre a natureza da terrível crise de compreensão e discernimento que domina grande parte da humanidade. O continente africano, com sua longa e triste história de tragédias anunciadas e desprezo mundial, vem a ser outro centro aglutinador destas reflexões. E quando eu aqui me referir aos aspectos humanistas que o exercício da paz necessita para poder ser aplicado saudavelmente, fiquem certos de que estarei pensando não apenas no Tibet, mas também naquele continente de povos esquecidos, famintos e abandonados.

Mas o fato é que o mundo inteiro possui seu quinhão de povos e culturas esmagados pela opressão do poder desenfreado e insano contido nas descrições de modernidade e pós-modernidade, pela falácia dos modelos políticos e econômicos de todas as tendências, pelo domínio do conceito racionalista fundamentado em ódios e diferenças; o fato é que nós mesmos, sem perceber, também estamos sofrendo (e promovendo) nossa cota de opressão e ignorância – e este fato é o maior exemplo da arrasadora carência de consciência que a humanidade sofre: esta é a tragédia maior.

Neste momento, vemos o grave conflito de identidade e relação entre o povo tibetano e o governo chinês atingir um estágio difícil, perigoso, com a aproximação dos Jogos Olímpicos. Observo há meses o avançar das manifestações de protesto, o movimento de apoio de pessoas no mundo, e as estranhas nuances na maneira como a humanidade interpreta suas próprias crises e tragédias.

Tudo isso me faz ponderar e contemplar sobre aquilo que justifica nossas atitudes de compreensão do contexto da liberdade e o modo como nos mobilizamos para buscar esta tão essencial condição: a de viver sem repressões e medo as nossas possibilidades de corpo, mente e espírito. A questão Tibetana expõe inúmeras pequenas causas, vários significados sutis. Particularmente acho impróprio que tentemos analisar toda a situação do povo tibetano à luz de impressões sociais ou políticas específicas – como já disse, sabemos muito pouco sobre as realidades imediatas daquelas pessoas, e acho muito sintomático observar que sempre temos uma visão histórica baseada em definições e conceitos limitados às razões analíticas, mas quase nunca em reflexões e contemplações fundamentados em sensibilidade perceptiva.

Isso também é esperado e compreensível, pois a própria ciência da História (sua metodologia, abordagem e fundamentação) falha terrivelmente ao tentar apresentar o contexto humano comum, cotidiano, coloquial dos grandes momentos da humanidade; na verdade, a História não é capaz de fazer isso e não se propõe a faze-lo: ela é uma ciência ironicamente incapaz de revelar detalhes das ações humanas, ainda que tenha sido criada para registrar e preservar as conseqüências destas ações – conseqüências, eis tudo o que uma mente histórica e analítica é capaz de captar das ações humanas.

Mas eu prefiro observar a luta cultural tibetana sob o prisma das revelações sutis que as ações humanas (pequenas ou grandes) podem me oferecer; este é um exercício contemplativo ao qual me dedico sempre, e faz parte de meu caminho buddhista. Porque, como sempre, minha abordagem se baseia nos aspectos humanistas de qualquer situação mundial, e não em seus aspectos histórico-religiosos, ou histórico-políticos ou ainda histórico-sociais. Quando procuramos universalizar os acontecimentos; quando sabemos desviar nossos olhos dos aspectos fechados e diferenciadores de uma questão e nos posicionamos sob a ótica na amplitude da natureza humana e de sua potencialidade, aprendemos uma lição fundamental, que pode nos garantir a paz, justiça e bem-estar: a lição da compreensão integrada das ações humanas.

No caso do Tibet, eu tenho optado por me basear nas palavras e ações de S.S. o XIV Dalai Lama ao analisar os aspectos delicados de uma complexa tragédia étnica. Não faço isso absolutamente por considerar o Dalai Lama uma figura mística, ou um homem perfeito, e muito menos uma personagem entronizada em uma posição religiosa que exija adoração e obediência – eu não "creio" no Dalai Lama. Não, a minha questão não se baseia em crenças; na verdade eu confio na dimensão humana de um monge esclarecido e muito simples que, por méritos e grande pertinência, se tornou o líder da tradição buddhista tibetana. Acho mais pertinente ver o drama de uma nação a partir de um homem, um ser único, cuja realidade é mais palpável do que a confusa e caleidoscópica idéia de "povo".

Para quem pratica o buddhismo sob os auspícios das escolas tibetanas, eu me arrisco a sugerir que procurem observar o atual Dalai Lama com extrema atenção contemplativa, e não com reverência religiosa; ele é alguém que sabe de suas limitações, um praticante sublime dos conceitos auto-reguladores e conscienciais buddhistas. Ouso dizer isso de uma pessoa a qual encontrei poucas vezes pessoalmente, e com a qual jamais tive o privilégio de conviver intimamente. Mas eu o faço porque, apesar de tudo, todas as vezes que pude observa-lo de perto, ouvir as nuances de sua voz e argumentos, e acompanhar seus gestos e expressões, fui capaz de perceber sua humanidade, sua simples humanidade, e sua honesta aceitação da vida.

O Dalai Lama é um ótimo símbolo do que realmente subjaz na questão tibetana: a problemática tibetana não é política ou social, mas sim de linguagem e intenções. É surpreendente observar como um simples homem idoso possa mobilizar a reação política e econômica de uma das maiores potências mundiais, seja este homem um líder religioso importante ou não. Afinal, mesmo em sua condição hierárquica religiosa, o Dalai Lama ainda é apenas uma figura simbólica, talvez menos legitimada politicamente do que um nobre, um grande executivo, rei ou ex-presidente de qualquer país. E no entanto este homem, por onde passa, provoca mobilização e protestos (e muita ameaça econômica) do governo Chinês. Os governantes chineses não desejam realmente destituir o Dalai Lama de sua posição como líder de uma antiga teocracia buddhista; eles desejam destitui-lo de sua força humana e silencia-lo em sua eloqüente simplicidade. Somente assim a extrema capacidade deste líder em defender argumentos justos, corretos e coerentes seria destruída, e o mundo enfim iria se esquecer completamente do lento extermínio cultural que está sendo realizado no Tibet.

Mas a tragédia maior é que mesmo no seio dos buddhistas, mesmo entre os supostos apoiadores do esforço tibetano em sobreviver como cultura há aqueles que não conseguem entender as palavras e argumentos deste homem. Apesar de sua clara posição a favor do diálogo, composição política e social e respeito à autonomia cultural do Tibet, existem aqueles que interpretam tal posicionamento com suspeita, considerando-o covarde, submisso, fraco. Não conseguem observar a grande sabedoria implícita nesta postura, não reconhecem a linguagem do Dharma transparecendo no esforço do Dalai Lama.

O Dalai Lama posiciona-se com firmeza e coerência a favor da composição e da colaboração entre Tibet e China. Penso que Tenzin Gyatso compreende muito bem que as pessoas (as pessoas, e não abstrações como governos, instituições religiosas ou regimes), sejam chinesas ou tibetanas, podem conversar e realmente conviver. Ele sabe que a longa trajetória de seu país está indelevelmente associada à China, e ele não rejeita isso; o que ele não pode admitir é que tal vínculo venha a justificar o extermínio de uma cultura, a anulação de uma etnia em favor de uma outra, e o roubo de uma autonomia plenamente justificável e possível. É um dilema desesperador, que os povos indígenas da América, Oceania e África conhecem muito bem.

Neste ponto, chamo a atenção para a primeira questão fundamental na reflexão tibetana: o esforço por reivindicar o direito de ser independente é o esforço de reclamar o direito de tão-somente ser, e gerir sua própria vida em plena posse de sua dignidade e potencialidade. O que vemos neste primeiro momento é que a reivindicação do Dalai Lama tem como base uma declaração em prol da vida, e não apenas a favor de uma nação em detrimento de outra; eis o fundamento da proposição de autonomia tibetana.

A segunda questão que surge a partir do exemplo do Dalai Lama é o valor da linguagem atenta e consciente no diálogo entre as partes: o que impede uma compreensão maior entre os povos não é a falta de leis, democracia (como um conceito teórico de gestão social) ou diplomacia ritual, mas a completa falta de capacidade dos indivíduos em perceber as limitações e pré-conceitos de suas idéias do outro, do alheio, daquilo que habita além das fronteiras de suas convicções e crenças. O grande mal político-social humano é a xenofobia, o medo do outro, o ódio gratuito, sem nenhuma base e antecipado daquilo que não entendemos ou compartilhamos. O Tibet sofre com tal preconceito histórico diante da China. E o Dalai Lama luta, a meu ver, para romper a barreira milenar de tal preconceito, com uma paciência e humildade realmente surpreendente. Pois ao se colocar desta forma a favor de uma nova relação entre China e Tibet, Tenzin Gyatso é insultado, vilipendiado e desprezado; ao se mostrar tão sábio e coerente, ele é julgado como estúpido e condescendente. E isso é um crime à causa da paz.

A terceira questão na problemática tibetana, então, se faz difícil e perigosa: o que significa uma revolução? Qual é a mais saudável forma de conquista da libertação? Muitos que, pretensamente, se posicionam a favor do "Tibet Livre" demonstram entender mal estes conceitos. Muitos entendem mal quando o Dalai Lama reafirma seu repúdio aos atos de protesto radicais ou veementes, e reafirma sua disposição em sempre dar aos chineses o respeito que eles merecem. Pois a visão buddhista é sempre inclusiva; e o drama tibetano reflete também o drama dos chineses. O Tibet livre não implica necessariamente no Tibet separado e oposto à China, mas sim e exatamente um Tibet feito de tibetanos livres e irmanado à China. A distinção pode pareder sutil, mas é fundamental e faz toda a diferença. A liberdade da revolução buddhista (se assim podemos chamar) é a liberdade das mentes e corações. E tal revolução me parece ser definitivamente aquela a qual o Dalai Lama se propõe realizar em seu país.

Mas talvez todas as minhas impressões estejam equivocadas, e minha falta de atenção aos reais elementos no esforço tibetano em conquistar sua libertação tenha me conduzido a uma defesa tola de um homem. Poucos anos atrás, em São Paulo, quando de sua visita ao Brasil, eu estive em um encontro entre praticantes buddhistas e o Dalai Lama no Hotel onde estava instalado. Lembro-me de achar engraçada a dicotomia estranha ao ver aquele monge se aproximando da pequena multidão de chinelos envolto em um manto simples, em meio à decoração suntuosa do hotel de luxo em que estava. Como sempre, ele agia com simplicidade e desprendimento. Um hotel de luxo ou uma pequena sala de estar, tanto fazia: as coisas são relativas e impermanentes.

Naquele encontro, em determinado momento, Tenzin Gyatso disse em tom triste: "a cultura tibetana é uma cultura em extinção". Ele se considerava o líder de um povo seriamente ameaçado, e transpassava essa convicção em sua afirmação suave e algo melancólica. Aquela declaração me afetou intensamente, não com emoções vagas, mas com a percepção do peso histórico que aquele homem carregava, e as graves implicações do que dizia. Talvez ele tenha dito isso apenas como tour-de-force, um exagero demagógico. Talvez, como acreditam seus detratores, o Dalai Lama seja um grande sofista, um títere de interesses imperialistas (orientais ou ocidentais). Mas não penso que aquele velho monge seja tão pouco sábio e tão tolo, como pensam alguns. Não considero que ele seja uma figura fraca, destituída de valor. Ao contrário, creio que, ao final de sua longa vida de exílio, S.S. o XIV Dalai Lama Tenzin Gyatso pode ser considerado o símbolo maior de uma cultura poderosa, rica em ensinamentos e profundamente valiosa para a humanidade. Ele também representa, em suas palavras e ações, o maior bem que uma prática de consciência pode oferecer: a capacidade e a coragem de buscar o diálogo honesto e realmente aberto, a paz real para todos (e não apenas para alguns), o pleno exercício da coerência entre linguagem e intenções, apesar de toda a hipocrisia da política do poder.

O tempo dirá se tudo o que afirmo é pertinente e justo, ou apenas ingênuas interpretações de um escritor pretensioso para uma situação que exige uma expertise muito maior do que eu possuo. No momento, prefiro manter-me atento ao fato de que, para todo homem ou mulher amadurecido em discernimento e entendimento, são as palavras de paz, equilíbrio e compreensão que sempre prevalecem nas vozes realmente sábias e dignas de respeito. E é assim que ouço a voz do Dalai Lama.

A compaixão se realiza através dos méritos de uma ação integrativa, sempre. Que os povos – mais do que isso, que as pessoas chinesas e tibetanas possam caminhar juntas, livres e libertas pela revolução da consciência (a única realmente possível). Que todos os homens e mulheres do mundo possam um dia assim também caminhar.

E enquanto esperamos este dia de concordância, pratiquemos a paz.

 

[Os ensaios divulgados através deste sistema são fruto de meus estudos e prática no Buddhismo por 29 anos, exclusivamente como praticante leigo da tradição Zen (Ch’an). Não devem ser considerados de forma alguma a palavra final sobre o Dharma ou sobre o Buddhismo, e não representam necessariamente posições oficiais de mestres buddhistas ou escolas específicas. Minhas palavras devem ser objeto de profunda reflexão e ponderação por parte dos que se interessarem pelas minhas propostas de argumentação, e somente após a conclusão de que as mesmas são válidas, saudáveis e úteis, elas devem ser respeitadas como parte de um ensinamento maior.]



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