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Tam Huyen Van
Equilíbrio
Tam Huyen Van – 19 de Abril, 2008
A perplexidade que sinto diante do reconhecimento de minhas próprias ignorâncias, embora fomente em mim uma dúvida natural acerca da possibilidade de supera-las completamente (e quem – exceto aqueles mais auto-indulgentes e embotados em si mesmos – seria capaz de evitar esta dúvida, quando eventualmente se vê diante da assustadora face de sua própria ignorância?), é ao mesmo tempo o mais poderoso incentivo e o mais urgente alerta para que eu aprimore meu senso de limites – e principalmente minha humildade diante da vida. A perspectiva contemplativa se propõe justamente a isso, e nada (absolutamente nada) mais: amadurecer em todo praticante sua capacidade de reconhecer-se, descobrir em si as vagas insanidades de sua própria idéia de mundo, e a partir deste ponto o processo de consciência meditativa irá nos deixar abertos ao difícil e árduo caminho de amadurecimento perceptivo.
Mas o fato é que mesmo a humildade, se exercida em excesso e em grau máximo de credulidade, torna-se uma tosca representação de nossa falta de autoconfiança. Não é sábio buscar apoio em sensações ou em virtudes per se, sem que o profundo reconhecimento de nossas potencialidades seja manifestado em igual intensidade nas nossas ações. Pois o caminho da auto-aprendizagem é um caminho de descobertas, superações e curas (oh sim, a cura não é de apenas uma dor; há mais de uma ferida latejante necessitando de cuidado em nossas almas inconstantes) nas nossas mentes e corações. Contudo, apesar de toda compreensão e talento que um indivíduo possa desenvolver ao longo de sua vida, ainda é forte na natureza humana a sedução dos vícios e dos sensos, das delusórias fantasias dos sentidos e das sensações. Somos presas de nossa forte natureza egoísta. E para melhor ou para pior, passamos grande parte de nossas vidas mergulhados em um imenso embate entre consciência e embotamento, entre a visão clara e direta e as tênues distorções das fantasias do Eu.
Então, surge para mim a questão: o quê é o equilíbrio? Aonde, nos resquícios sutis de nossas mentes, habitam os meios e medidas mais corretas para nos fazer esclarecidos, balanceados, confiantes e em paz?
Afinal (penso nisso freqüentemente, e a resposta definitiva ainda não reverberou em meu coração), será realmente o equilíbrio aquilo pelo qual mais anseiam os indivíduos, em seus mais intensos momentos de intimidade, de descobertas definitivas, ou talvez a harmonia simplesmente seja um capricho de nossas percepções, fruto de um eterno desejo de viver sem medo em meio a um universo completamente incontrolável pelo nosso ego? Talvez o equilíbrio, esta medida pequena, mas tão plena de significados, entre o impermanente e o absoluto existencial seja uma meta simplesmente insondável pela mente, talvez destituída de tangibilidade, um reles conceito vago...
Sabemos reconhecer o equilíbrio como fruto do amadurecimento de nossas necessidades humanas? E qual seria a fronteira através da qual o equilíbrio se livra dos simples anseios humanos e se torna pleno, completo, definitivo? É comum observar que pessoas confiantes e determinadas não são, necessariamente, equilibradas. É comum observar que os aspectos mais intensos e valorizados da sociedade humana têm a ver com os meios e medidas pelos quais um indivíduo atinge o sucesso, o poder, a adulação e o doce gozo dos sentidos; nossos paradigmas sociais, políticos e religiosos são competitivos, e nada ainda se apresentou para a grande massa da humanidade que pudesse oferecer uma forma de viver concretamente e em pleno exercício de nós mesmos, fora das ambicionadas vitórias do ego. Muitos já falaram belamente sobre as virtudes de uma vida simples e despojada, muitos já idealizaram religiões, grupos, partidos, movimentos cujas metas e propostas são tão lindamente virtuosas, cujos enfoques sociais e políticos são aparentemente tão dignos e bem intencionados. Mas a amarga verdade é que ainda não surgiu aquela palavra, aquele gesto, aquela meta-linguagem que seja capaz de fazer todos os homens concordarem. Não, ainda estamos perdidos em Babel, e a caótica explosão de opiniões, crenças e conceitos se faz ainda mais insuportavelmente diversificada e conflitante...
Portanto, torna-se importante refletir corretamente sobre a natureza do equilíbrio. Pois ainda estamos longe de vislumbrar uma nova maneira de instituir um modelo de vida diverso daquela crença em conquistas, aquela busca ignorante (porque destituída de real significado) pelo prazer das coisas banais, deste cotidiano embate de desejos diferentes, de expectativas diferentes, de insanidades disfarçadas. Para muitas pessoas, a busca pela paz e equilíbrio ainda representa a busca de homens e mulheres moderados demais, passivos, sem a excitante capacidade de se impor acima dos outros seres humanos – nós respeitamos apenas os que se impõem, e achamos que força e determinação se encontram na ambição motivada, na concentração em metas de conquista.
Seria possível haver equilíbrio e realização ao mesmo tempo, um tipo de vida fora desta triste reafirmação constante de uma vida dedicada à competitividade e predomínio? Será possível conciliar harmonia e coragem? Seria possível uma sociedade onde literalmente todos possam atingir saudavelmente o melhor estado de suas mentes e corações? Será que realmente a realização do bem maior da paz e consciência é incompatível com as realidades mundanas, e com nossas adoradas ambições e necessidades pessoais? O caminho de amadurecimento consciencial humano ainda exige tempo, e uma grande dose de prática. A evolução do Homem ainda não ocorreu plenamente ao nível de sua percepção, no modo como ele apreende e interpreta tudo à sua volta. Dizer isso é surpreendente, eu sei, diante do fato histórico de que tantos grandes pensadores, tantas teorias e argumentações sofisticadas e extremamente elaboradas, surgiram ao longo de milênios de civilização. Mas nenhuma destas teorias, nenhum destes indivíduos brilhantes, representam um real aprimoramento consciencial da humanidade como um todo: na verdade, justamente estes hiatos de sofisticação expõem dolorosamente a angústia do Homem diante da questão de sua autoconsciência, seu pasmo diante da crise extrema entre sua inteligência e sua percepção, sua incapacidade de apresentar uma única abordagem, suficientemente abrangente e flexível para abarcar o que há de melhor na potencialidade humana. O fato – ainda evitado e negado por quase toda a humanidade – é que não há solução coletiva, não existe realmente uma palavra universal (no máximo, percebo uma sabedoria sem origem ou fonte, inata e livre de revelações especiais); pois cada indivíduo, cada ser, exige em si e por si mesmo uma solução que transcenda as fórmulas, os segredos, os mistérios herméticos que arrogantemente pretendam dar a mesma resposta ideal para todos.
A questão mais premente, a meu ver, diz respeito ao modo como apreendemos as nuances de integração de nossas necessidades – individuais ou coletivas – como animais humanos e os meios adequados para aprimorarmos a dicotomia entre os desejos individuais e as vontades coletivas; pois os indivíduos pouco sabem do que vai nos anseios alheios (mesmo que idealmente afirmem seu compromisso em prol da sociedade), e se fundamentam apenas em suas próprias idéias de vida, pretendendo assim impor (com maior ou menor egoísmo) aos outros suas vontades, suas idéias.
Observando a massa de pessoas à minha volta, atento a tudo o que vai no mundo em termos de acontecimentos gerais e históricos, percebo que todos em maior ou menor grau transitam pela vida sob as bases de um comportamento banal, passional, inconsciente (e quase ingênuo); somos presas de nossa superficialidade, e realmente não percebemos isso – no máximo desconfiamos de nossa própria mediocridade, mas não sabemos até onde ela vai em nossos corações e mentes. A humanidade transita pela margem estreita do egoísmo, inconsciente de suas opções internas, presa em um encadeamento de ações feitas para perpetuar conceitos parciais, forjados em hábitos, idiossincrasias e costumes ignorantes.
Ora, sei muito bem que tudo isso já foi dito antes – tudo isso continua sendo dito ainda agora – por muitos homens e mulheres admiráveis; este alerta está sendo exposto e revelado há tempos. Mas as palavras, por mais claras e pertinentes que sejam, não irão acabar com tal vício perceptivo. Contudo, elas permitem que ao menos possamos reforçar a mobilização de alguns a favor de sua própria maturidade, em favor da descoberta de uma solução viável para transcender seu desarvoramento, seus condicionamentos e suas neuroses.
Entretanto, mesmo as palavras precisam ser ditas ou registradas com equilíbrio, pois sem isso elas irão cair no mesmo vício de hábitos superficiais e modos inconstantes que têm direcionados as ações da humanidade por tanto tempo. As palavras jamais irão substituir a força das ações; e é na ação que se fundamenta tudo o que somos: todos nós somos aquilo que nossas ações realizam, e nada mais (e o quê mais seria necessário?).
Equilíbrio, para ser exercido, exige sensibilidade e calma; exige força de ações coerentes e economia de palavras banais. Mas antes disso, creio que o elemento mais fundamental para realizarmos este dom de paz e serenidade ainda está por ser plenamente compreendido: a disposição pelo entendimento, pela concordância, pela concreta realização da integração de nossas necessidades, a partir da força de ações coerentes. E para compreender isso, nós ainda precisamos trilhar (não sem esforço e transformações difíceis) um longo caminho estreito, entre a loucura egoísta de nossas vidas inconscientes e a sanidade advinda da contemplação do mundo sob a luz de nossa capacidade em viver em constante aprimoramento, em infindável superação.
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