Recomeços
:: novas considerações sobre a prática do Começar Novamente ::
Tam Huyen Van – Outubro, 2007 – Ano Buddhista 2551
A vida implica em riscos. Ou sendo mais exato, o viver implica em riscos. Há uma sutil distinção entre a Vida, o complexo fenômeno de existências várias interagindo e sobrevivendo em diversos ambientes e condições, e o ato de viver, o esforço por manter-se integrado junto a outras existências todos os dias, a cada minuto, navegando os mares revoltos do momento presente. Pois, não se iluda, o futuro é apenas uma sombra projetada do Agora, e o passado é como uma folha seca ao chão: desfaz-se em forma de cinzas, deixando apenas a memória de sua forma. Existe apenas o presente, e mesmo isso não pode ser comparado a nada que possamos idealizar como sendo a maravilha de viver – e de morrer constantemente.
Dizer isso, eu sei, causa estranheza, desdém ou discordância em muitas mentes e corações pois para o prejuízo da sabedoria e das verdades essenciais os conceitos pluralistas, renovadores e inclusivos (os conceitos voltados para o exercício da compreensão direta da vida como ela é) tornaram-se lugar-comum nas vozes e escritos de muitos profetas da Nova Era – ou até mesmo dos articuladores da Nova Ordem Mundial. Mas é justamente essa condição tão específica, essa experiência de existir fluidicamente em um constante envolvimento com a crueza do Tempo – sem antes nem depois – que nos permite realizar a vida em sua plenitude. O que afirmo não deve ser interpretado sob uma perspectiva romântica ou mística; a percepção do fato de que nada pode existir além do presente é uma verdade clara, direta e completamente vivenciável.
Há momentos em que tudo à nossa volta, tudo que fazemos, acreditamos e construímos, parece desfazer-se em medo e frustração. Momentos em que nos vemos diante dos fins, das perdas, dos aterrorizantes fracassos. Tais momentos são muitas vezes demais para algumas pessoas, e nestas horas pensamos que nada mais importa. Mas tudo isso é ilusório, em alto grau; na verdade, nós sucumbimos às perdas porque não sabemos reconhecer os ganhos na vida; e somos incapazes de reconhecer os ganhos porque estamos constantemente considerando que nossas mais acalentadas vitórias e realizações estão em algum lugar no futuro ou passado, ou em coisas e pessoas às quais projetamos todo o nosso apego e idealização. Não conseguimos ver os ganhos para além dos limites de nossa racionalização – e para muitíssimas pessoas, essa cegueira é ainda mais plena pois elas são incapazes de perceber que suas próprias racionalizações carecem de substância diante da suprema infinitude de possibilidades na existência... sim, realmente vivemos uma realidade muito pequena.
Somos criaturas estranhas: sabemos racionalizar belamente um sem-número de conceitos religiosos, filosóficos ou sociais de bem-estar, equilíbrio social e respeito humano, mas intimamente vivemos uma vida completamente presa às construções de metas e objetivos criados em função de nossos anseios e desejos pessoais, sem perceber que a visão ampla de harmonia mundial jamais será viável sem uma profundíssima transformação de nossas consciências individuais nos aspectos mais comuns e banais. Na intimidade de nossos lares, nos resquícios de nossas mentes, projetamos uma vida que freqüentemente se perde em egoístas e insalubres idéias de interação, ansiosos planos de sucesso, e ingênuas ou complexas posturas de relação interpessoal – tudo isso idealizado como ganhos pessoais, atingidos em momentos de tempo futuro, sem nenhuma relação consciencial com o que somos e vivemos AGORA.
Mas a vida não se encaixa nestas expectativas; ela insiste em não realizar exatamente o que queremos, ou mesmo quando atingimos nossas metas, a vida surpreendentemente nos apresenta aquela desagradável sensação de frustração (é como se faltasse ainda alguma coisa), e que nos faz desejar mais do que já temos. E então, repentinamente, surgem os momentos desconcertantes de perda e dissolução. E ali ficamos, desamparados, maldizendo o mundo à nossa volta.
Aonde está o porto seguro das realizações imutáveis? Quem, dentre os bilhões de seres humanos habitando esta velha Terra, está imune aos desejos frustrantes e aos erros de interpretação sobre o quê realmente é valioso e digno de viver?
Seriam as pessoas bem sucedidas, famosas, poderosas ou belas? Uma pessoa bem sucedida, de boa aparência e elegante, com autoridade profissional e uma bela esposa ou marido, seria um ser humano sem problemas ou frustrações – alguém realizado e sem mais a desejar? Ao mesmo tempo, uma pessoa mística ou romântica, plenamente engajada em boas ações e lutas sociais ou ecológicas, seria alguém que superou a dinâmica das frustrações humanas? Para que lado pende a balança da realização e da plenitude de vida?
Existe uma falácia, um engano, no modo como a humanidade busca a felicidade. E este engano monumental, milenar e endêmico na consciência coletiva dos seres humanos é representado pelo modo como imaginamos ser a felicidade. Pois a grande questão é essa: nós todos imaginamos, idealizamos a felicidade, não a percebemos. E perceber a felicidade, viver a sabedoria implícita na capacidade de superar nossas frustrações, fracassos e medos através de uma postura mental fluida, aberta e honestamente perceptiva das realidades variadas que surgem todo o tempo, sem cessar, é a chave da Vida.
Viver é saber recomeçar. Não aquele recomeço artificial, ou sequer sonhador, que nos faz pensar "Sim! Vou recomeçar a busca de meus sonhos!". Não, este tipo de recomeço na verdade é um sintoma recorrente de nossa ignorância perceptiva, que nos faz insistir em resgatar incessantemente a realização daquilo que egoisticamente desejamos ser ou fazer – mas que na verdade é apenas uma lista de realizações artificiais, às vezes pobres de sentido, ou vaidosas ao extremo. O recomeço mais pleno e importante é aquele que nos permite reconhecer que a vida é infinita em possibilidades, e que nossas ações são o fundamento de tudo o que precisamos para atingir aquela pequena parcela de paz e contentamento que todas as criaturas procuram, mas que poucas conseguem experimentar...
O movimento da Vida é expansivo. Não se trata de uma expansão para fora, como em uma guerra de conquista por territórios, cargos ou fama, ou uma expansão de poder e prestigio que nos faria mais sedutores ou idolatrados por pessoas, e solidamente fundamentados em ganhos materiais ou emocionais. O fluxo de expansão vital direciona-se para a descoberta de si mesmo, para o nosso amadurecimento humano integral, intenso, pacífico.
Eis o que faz a raça humana mais potencialmente rica em complexidade existencial: somos seres que podemos superar o simples exercício de sobrevivência e consumo que fundamenta o instinto de todas as criaturas. Podemos atingir novos paradigmas de vida, podemos realizar uma profunda transformação individual. Contudo, aqui estamos no mundo, ainda sofrendo com as crueldades, egoísmos e superficialidades. Em meio aos aspectos relativos do Viver, os indivíduos humanos ainda estão cegos à absurda banalidade de sua idéia de mundo. As pessoas têm muita dificuldade em compreender, articular e expressar seus desejos e idéias, e isso é fartamente comprovado quando tentamos representar nossas opiniões e conceitos: em geral temos grande dificuldade em concordar, em debater e contemporizar; quase sempre descambamos para a discussão, o confronto e a disputa.
Mas as pessoas comuns não querem saber destas tortuosas considerações reflexivas; elas desejam sentir-se vitoriosas, desejam usufruir dos prazeres do corpo, das riquezas, do poder. De uma forma ou de outra, queremos ser bem sucedidos em forjar nossa fama e realização social, e nada mais importa – seja o executivo em Wall Street ou o idealista social ou político, todos queremos fazer valer nossa própria visão de mundo. Mas a vida não se encaixa nesta perspectiva: ela insiste em ser maior e mais dinâmica do que isso. Então, o quê nos falta? Onde está o Caminho?
Olhe à sua volta, neste momento. Tudo o que você vê e percebe em torno de si não faz parte de sua idealização de vida, são coisas, pessoas e sensações que se reconstroem a cada momento. O viver é feito destas reconstruções, pois sem isso o mundo existencial simplesmente não poderia acontecer. O tempo forja a realidade última da existência. E no entanto, desprezamos completamente a percepção do tempo frente às nossas experiências de vida. Não sabemos treinar a nossa mente para contemplar o tempo e os recomeços. Nós apenas aprendemos a guardar na memória os resquícios de um tempo perdido, aquelas imagens, sentimentos e sensações congelados que fizeram parte de uma fase em nossas vidas, mas que jamais conseguimos manter conosco (não poderíamos, pois nada disso é realmente concreto).
Os recomeços são como pequenas fagulhas saídas de um fogo constante, ou como minúsculas gotas de água espirradas de um rio em constante movimento. Em si, os recomeços parecem desprezíveis, fatos da vida que não captamos com nossas mentes estressadas e distraídas. Por força do condicionamento milenar da mente racional humana, nós somos viciados em perceber o conjunto de coisas que assaltam nossos sentidos como um único e abrangente acontecimento, e quando olhamos em volta a ilusão que temos é que o tempo quase não passa, e tudo parece igual todo o tempo. Esta é a maneira como nos enganamos ao imaginar nossa felicidade: pensamos que ela será construída quando, um dia, finalmente atingirmos o limiar de nossas metas, ou quando aquele ou aquela que desejamos finalmente corroborar todas as nossas expectativas.
E, no entanto, o tempo passa. A delusão de que as coisas estão estáticas e plenamente envolvidas em um lento despertar nos seduz de tal forma que, quando as mudanças acontecem (e elas estão acontecendo mesmo agora, podem acreditar) e nós finalmente temos o insight de percebe-las, ficamos pasmos e desesperados sem entender porque as coisas não se mantém como queremos. Esse processo, ao contrário do que se pode imaginar, não é tão evidente assim. Na maior parte do tempo ficamos esquecidos de tudo isso acontecendo, preocupados como estamos em realizar nossos sonhos e desejos, nossas paixões e fantasias. Tudo isso parece por demais negativo e desagradável, mas a ironia deste processo é que o reconhecimento do processo mutacional e reconstrutor da vida não é absolutamente negativo ou pessimista – nosso vício de percepção baseado no usufruto de desejos e na imposição de nossas próprias opiniões e anseios, este sim é o real aspecto negativo da vida. E no entanto, é justamente nele que depositamos nossas mais dedicadas energias e confiança, e é justamente nestes sentimentos pouco sábios que imaginamos as mais decantadas virtudes do Homem – coragem, resistência, ambição, orgulho e força.
Desconstruir-se de tudo isso não é fácil. Mas é vital. O maior progresso individual humano é aquele que substitui a energia obstaculadora do egoísmo e superficialidade pela perspectiva fluida e despojada de viver sem artifícios, consciente de si mesmo, e simplesmente aberto aos recomeços inevitáveis – e suas conseqüências. Preocupar-se com o futuro (mesmo sabendo que este futuro é apenas uma sombra do Agora projetada em nossas mentes relativas), preparar-se para os imprevistos ou planejar nossas vidas não são elementos destituídos de valor intrínseco; mas este e outros fatores não podem jamais nos desviar do exercício de libertar nossas mentes de si mesmas, fazendo-as mais fluidas e adaptáveis aos processos impermanentes da existência.
Ao final de tudo, cada um de nós precisa saber que a meta primordial de nossas vidas é aprender, construir-se, adquirir sabedoria e discernimento – e assim viver prazerosamente através da calma consciência das coisas como elas são, e não como queremos que elas sejam. Esses são os fatores cruciais que pavimentam a experiência da felicidade. E graças ao esforço por saber recomeçar, saberemos atingir o coração da compreensão plena da Vida. Essa é a base de minha prática pessoal, e a medicina que eu freqüentemente uso para superar os aspectos mais insalubres de mim mesmo.
Encarar a vida com coragem e desprendimento é tarefa de uma vida inteira. Mas é igualmente a suprema tarefa de um ser vivo, uma profilaxia existente no Agora e plenamente acessível a cada segundo. Diante da finitude, diante da implacável força existencial que a tudo abarca, desconstrói e faz morrer, devemos saber perceber os recomeços e suas possibilidades. E assim, compreender o mistério do renascimento, da reconstrução, e do pleno despertar – a todo instante, em cada momento de nossas vidas, podemos começar novamente. Fique atento a esta lição.