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Tam Huyen Van
O Ser e o Óbvio
Tam Huyen Van – Vesak de 2007 (Lua Cheia de Maio, 30)
A condição básica para a felicidade é a liberdade(*). Esta é uma declaração fundamental, altamente valiosa. E como todos aqueles que possuem uma perspectiva mais sensível podem observar, é também uma declaração bastante óbvia. Para algumas pessoas de natureza intelectual, analítica, talvez até seja uma declaração simplista demais. Afinal, não é muito difícil considerar a possibilidade teórica de que, estando completamente livre daquilo do qual não concorda, um indivíduo seja capaz de viver sob a égide de suas próprias decisões e seguirá seus caminhos sem restrições sociais, materiais, políticas ou religiosas alheias aos seus interesses, podendo assim viver em plena satisfação pessoal. E isso, essa possibilidade de se viver livre das imposições concretas e institucionais com as quais não concordamos, vem a ser o mais acalentado anseio de muitos homens e mulheres ao longo de muitos milênios de história humana.
Mas a questão mais restritiva a tal linha de argumentação é que toda esta visão analítica de liberdade está baseada no usufruto do Eu (esse "eu" algo inventado, algo forjado por crises e aprendizagens, que apenas e pobremente nos representa todos os dias, e não consegue nos definir completamente – e aqui temos a origem de tantas frustrações pessoais), quando o indivíduo imagina-se livre para fazer o que desejar, longe das regras e doutrinas castradoras às quais ele mesmo não se identifica e que fundamentam as instituições humanas alienígenas aos seus planos e expectativas – uma forma de satisfação egóica mais do que uma felicidade real. É claro que esta visão – por sinal a única lógica que pode ser percebida subjazendo as mais importantes doutrinas políticas e sociais da história humana – jamais pôde lograr acontecer sem que, para isso, grandes conflitos fossem criados e muitas injustiças conseqüentes realizadas.
Na verdade, esta lógica não tem a ver com liberdade; tem a ver com o conceito muito mais restrito, parcial e manipulável de libertação – por libertação, aqui, eu quero dizer o ato de superação externa de diferentes elementos que o indivíduo interpreta como castradores de sua liberdade social, política, institucional. Evidentemente, temos no mundo muitas situações de opressão e crueldade, e a busca pela libertação nestas condições assume um outro contexto, muito mais trágico, justificável e premente. Entretanto, mesmo nestes casos o evento real de liberdade ainda não faz parte do processo, embora para muitos pareça assim; a liberdade definitiva sempre será aquela associada à superação de nossas amarras mentais e psicológicas em relação ao sofrimento e à insatisfação do ego, e isso somente pode ser experimentado no âmbito específico do Ser, e não através das libertações políticas, religiosas e sociais, por mais injustas que sejam. Ou seja, o processo é sempre do interior para o exterior, e jamais o inverso.
A libertação externa, aquela que visa nos dar motivos para execrar valores alheios, diz respeito ao anseio egoísta de se livrar das coisas que não nos agrada, e com certeza não é para valorizar este tipo de falácia que a frase inicial deste ensaio foi apresentada. Como podemos ver, o óbvio nem sempre é imediatamente claro. Eis porque muitas facetas da sabedoria humana tem sido distorcidas e mal interpretadas por vários indivíduos, e eis igualmente porque muitas pessoas no mundo sentem tanta dificuldade em superar suas próprias ignorâncias, seus próprios preconceitos, suas arrogâncias – as suas próprias prisões opressivas. Ao final de tudo, o óbvio sempre é interpretado literalmente, o que vem a ser o nosso maior erro. As descobertas simples e diretas que apresentam-se todo o tempo em nosso cotidiano abrigam verdades universais as quais são, elas mesmas, profundamente ricas em sabedoria. Mas para usufruir desta riqueza precisamos entender a sutil (contudo jamais literal) obviedade de sua natureza intrínseca, e esse é o grande desafio.
A real liberdade, aquela que conduz à felicidade, fundamenta-se na consciência. Fundamenta-se no modo como iremos compreender, interpretar e elaborar os conhecimentos, experiências, conceitos e idéias que se nos apresentam ao longo da existência. A liberdade não representa propriamente uma simples ação libertária externa, mas sim uma ação de desprendimento, descondicionamento, desvínculo com nossas viciantes percepções (e conclusões) em relação à vida, ao mundo. Neste momento chegamos a uma certeza extremamente desagradável para a maioria: a liberdade última, plena e transformadora de mentes e corações, não será consolidada através de ações reivindicatórias ou revolucionárias, por mais românticas e idealistas que sejam. Ela será alcançada quando soubermos equilibrar corretamente o nosso ser em relação às verdades óbvias da existência. Simples assim.
Uma característica muito comum nos homens e mulheres de grande sabedoria é que estes sempre são capazes de detectar, anunciar e reafirmar o óbvio. Mas ao contrário do senso comum, as pessoas de sabedoria e compreensão percebem que a obviedade de uma declaração ou conceito não implica em sua simplicidade banal, ou sequer em seu fácil entendimento e absorção por todos os que a conhecem; na verdade, o grande mistério da sabedoria está em desvelar o aspecto não imediatista do óbvio. Mais ainda, o mais interessante aspecto na experiência de realização ou esclarecimento é o fato de se perceber verdades (ou a compreensão correta) através da plena vivência do conhecimento direto, sem excessos. Frequentemente observo embates extenuantes entre intelectuais sobre pontos obscuros de textos ou sobre a pertinência de termos e conceitos, na pretensão de conhecer as verdades através de um complexo, rebuscado e tremendamente tortuoso teatro de intelectualidade e erudição. Nem todo debate intelectual é assim, evidentemente existem debates eruditos extremamente úteis e férteis em descobertas fundamentais, mas muitos outros são simples exercícios de pedantismo racional.
Esse tipo de esforço exagerado muitas vezes assume ares de comicidade, quando muitos pensadores e teóricos dedicam décadas para criar edifícios analíticos complexos para logo depois vê-los desmontados por argumentos de seus rivais – e em certos casos por argumentos deles mesmos, conflitantes entre si – em um caleidoscópio de análises discordantes e elaborados estudos teóricos. Eu vejo isso ocorrer em todos os nichos, sejam filosóficos, científicos, religiosos, políticos; vejo tal processo se fundamentar através das mais brilhantes propostas analíticas da humanidade, desde epistemológicas, hermenêuticas até ontológicas. Todos estes esforços se resumem em uma única tentativa: a de se interpretar, conforme nossas próprias definições, termos e conceitos que nos são convenientes – ou refutarmos, conforme nossas antipatias, as interpretações alheias. Tudo isso representa uma grande falta de sabedoria e sensibilidade, pois para que tal processo arrogante de intelectualidade ocorra, devemos nos subordinar ao vício da diferenciação.
O fenômeno da visão diferenciadora, segundo a prática buddhista, representa mais um aspecto da ignorância perceptiva. Caracteristicamente, uma mente diferenciadora é incapaz de reconhecer o óbvio sutil, ao mesmo tempo que interpreta as verdades simples da vida sob uma ótica literal e desconfiada: a mente diferenciadora jamais acredita que uma verdade possa ser inferida por meio da simples percepção do mundo; deve haver em toda verdade algo mais complexo, mais romântico, mais prático, mais rebuscado; deve haver algum conhecimento acessível apenas aos iniciados, aos profissionais, aos eruditos, àqueles que são capazes de reter em suas mentes as definições, as referências, os mais corretos conceitos científicos, religiosos, filosóficos. Esta postura simboliza o mais profundo exemplo da difícil convivência entre a razão ignorante e a sabedoria universal (sabedoria essa que vai além do humano) que permeia tudo o que existe. Pois a postura diferenciadora fundamenta e falsamente justifica as atitudes egoístas, cruéis e banais, ou simplesmente ilusórias, que têm dominado a sociedade humana por milênios.
Na proposta contemplativa, a real postura que nos permite compor de forma coerente e organizada com as realidades particulares das coisas vem a ser aquela representada pelo exercício da discriminação. Ao contrário da visão diferenciadora, a postura discriminadora jamais pode ocorrer sob o jugo da parcialidade, ou da rejeição. A discriminação representa o saudável exercício de respeito e compreensão das distinções entre as coisas, pessoas e idéias, sem no entanto pretender criar barreiras entre elas: as coisas são passíveis de distinção e discrimináveis em suas naturezas existenciais, mas ao mesmo tempo somos todos integrados, e estamos inter-relacionados de forma plena e unificadora. Uma nuvem é uma nuvem, eu sou eu; mas, apesar disso, eu sou também uma nuvem, e esta compartilha comigo as mais intrínsecas características da existência. Eis porque posso respeitar a nuvem em si mesma ao mesmo tempo que posso considerá-la parte de mim – pois sei que, como a nuvem, eu também pertenço à inextrincável teia da existência, e sob esta verdade reconheço a nuvem tanto como reconheço a mim mesmo: somos um. Isso não é uma poesia, não é uma declaração mística; é um fato vivenciável. Assim posso realizar a verdade da integração dos seres. Somos todos inter-relacionados, apesar de individualmente passíveis de discriminação.
Qual a melhor relação entre a sabedoria e o conhecimento? Aquela que permite a visão das igualdades, que promove a concepção concordante entre as idéias e os conceitos, ao mesmo tempo que possui a maturidade para discriminar as coisas como elas são, sem conflitos, sem aversões. As mais maravilhosas verdades jamais apresentadas ao Homem ao longo dos séculos sempre foram aquelas proferidas e anunciadas de forma simples, direta e clara. Sem enfrentamentos, sem disputas, a visão unificadora permite-nos compreender o mundo de uma forma tão plena que torna-se desnecessário qualquer tipo de reafirmação intelectual.
Assim, a liberdade de viver sem conflitos internos, a liberdade de viver sem ódios, delusões e ignorâncias, é a fonte da felicidade. Uma afirmação simples, mas que depende de discernimento e atenção para os aspectos delicados da verdade que a subjaz. Muitas pessoas não conseguem evitar um certo desprezo pelo óbvio, pelas afirmações e frases consideradas banais, lugares-comuns em um mundo moderno entulhado de informações por todos os lados, e já descrente da possibilidade de se ir além da interpretação superficial de todas as coisas. Apesar de todas as desconfianças, é realmente através do esforço por entender a linguagem óbvia do mundo que iremos atingir a mais completa compreensão das grandes sabedorias – estas jamais expostas meramente pelas compreensão rígida de fórmulas verbais.
Não há como escapar do fato de que as verdades universais habitam unicamente as palavras, atos e gestos diretos e naturais – aquelas ações sábias o suficiente para prescindir de todo conflito, e toda ignorante diferenciação. Elas sustentam justamente as mais fundamentais descobertas do Ser, e são direcionadas para que o indivíduo cresça em si mesmo e por si mesmo, integrando-se saudavelmente à grande fonte de sabedoria abrigada no seio da vida.
(*) Esta declaração se baseia nos ensinamentos feitos pelo mestre Thich Nhat Hanh, pertencente à tradição Zen Buddhista do Vietnam.
[Os ensaios divulgados através deste sistema são fruto de meus estudos e prática no Buddhismo por 29 anos, exclusivamente como praticante leigo da tradição Zen (Ch’an). Não devem ser considerados de forma alguma a palavra final sobre o Dharma ou sobre o Buddhismo, e não representam necessariamente posições oficiais de mestres buddhistas ou escolas específicas. Minhas palavras devem ser objeto de profunda reflexão e ponderação por parte dos que se interessarem pelas minhas propostas de argumentação, e somente após a conclusão de que as mesmas são válidas, saudáveis e úteis, elas devem ser respeitadas como parte de um ensinamento maior.]
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