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Sobre a Morte e o Morrer

Tam Huyen Van

Sobre a Morte e o Morrer

Tam Huyen Van - 07 de Abril, 2006

Definitivamente, é muito difícil saber de antemão quais são os méritos na vida que poderiam nos assegurar não apenas a longevidade física, mas também a excelência de alma. Claro que muitas abordagens religiosas ou filosóficas nos apresentam uma grande gama de virtudes morais e sociais que, se forem exercidas diligentemente, pretensamente nos irão garantir as benesses de uma vida longa e profícua. Contudo – e mais uma vez – a história humana demonstra que a simples obediência a virtudes, por mais nobres que elas sejam (e elas o são, com certeza), ou a direta ação humana sobre os mais dignos ideais não nos irá conferir automática e mecanicamente ganhos espirituais. A verdade delicada por trás de toda ordem moral é que, infelizmente (ou felizmente, em minha opinião), não é possível barganhar com a Vida (ou com Deus, ou deuses, ou seja lá qual for o nome que você confere aos elementos fundamentais da existência no universo), e todas as vezes que tentamos fazer isso, – e nós o fazemos todo o tempo - o resultado é que as virtudes deixam de ser uma verdade universal para se tornarem as nossas próprias idéias de virtude, aquelas que justificarão todos os anseios e ignorâncias de nossos corações.

Inevitavelmente, as virtudes universais independem de dogmas. Essa linha de argumentação, às vezes, agrada muito aquelas pessoas que imaginam poder justificar seus mais complexos desejos e vícios com a afirmação de que tudo é permitido, e nada em si nos leva ao melhor da vida, exceto vivê-la ao máximo e sem culpas. Seria muito conveniente para o nosso egoísmo se assim fosse, se a anarquia conceitual se provasse mais acertada do que todos os discursos morais jamais proferidos. Mas não é assim. Na verdade, existe um Caminho – o caminho da Ética Consciencial, além da anarquia, além do moralismo – através do qual podemos apreender melhor o sentido da vida, e vivê-lo com méritos corretos e adequados. Mas, não, realmente este não é um caminho moral ou dogmático, não pode ser obedecido cegamente e não tem a ver com crenças. Mas, igualmente, este caminho não nos garante longevidade ou prazer, e não nos promete nada. Ele apenas abre uma porta de possibilidades, e nos oferece a chance de crescer, crescer muito, como seres humanos.

Esta aparente desesperança de ganhos é o que faz tão poucas pessoas simpáticas ao exercício de semelhante linha de ensinamento. Para os nossos egos, é preferível as promessas de imortalidade ou vitória diante do mal, ou então a possibilidade de viver a vida com prazer extremo e muita paixão, ou até mesmo a perspectiva do martírio e do sacrifício, desde que nos assegurem que iremos alcançar alguma coisa, e obter algum prêmio nesta barganha com Deus.

Mas, como já disse, não há como barganhar com o mistério da Vida, realmente. Podemos até iludir-nos com métodos e meios de negociar com o divino, mas ao fim e ao cabo nenhuma forma de ganho pessoal será nosso – apesar de a maioria sequer admitir isso, ao final de tudo. E essa visão, sendo tão pobremente compreendida, deixa-nos muito tristes, imaginando que afinal as grandes verdades da existência apontam para um niilismo completo, um vazio de continuidade deste fenômeno chamado "Eu". Nada mais errado do que pensar desta maneira, mas ainda assim a sutileza de compreensão necessária para perceber as reais conseqüências de trilharmos o caminho da ética consciencial continua a escapar à maior parte das pessoas, por motivos diversos. Eis porque, no âmbito das várias formas de cultura humana, homens e mulheres sucumbem a extremos muito opostos: existem aqueles que acreditam no imediatismo, sem culpas ou castigos – mas pleno de erros e ignorâncias -, onde as virtudes são distorcidas para se adaptar aos nossos prazeres e expectativas, e existem aqueles que crêem – através de culpas ou castigos – em uma vida obediente, onde a simples aceitação dos conceitos aos quais foram doutrinados será suficiente para lhes garantir uma passagem para o seu paraíso – seja este qual for. Em ambos os casos, muito se destruiu e foi perdido na longa história humana devido a tais concepções.

Em nome do egoísmo, seja pela via do usufruto desenfreado, seja pela via dos dogmas religiosos, muitos equívocos são cometidos. E em meio a tal processo ainda temos as várias formas de divisão e subdivisão destas posturas, e tudo isso por força do fato de que a maioria de nós ainda não é capaz de lidar confortavelmente com a perspectiva de que nada há para ser negociado, e que em um determinado momento teremos de enfrentar nossa finitude, sem nenhuma vantagem ou preferência pessoal diante dos mistérios do universo. Iremos chegar a um fim, mas o mistério insondável ao qual este fim está subordinado não pode ser desvelado – "o Tao do qual podemos falar não é o Tao verdadeiro" (Tao Te Ching, Cap. I).

E assim chegamos à momentosa questão da Morte. Na verdade, é justamente esta questão que aglutina toda a luta pela obtenção de méritos em nossas vidas. A morte é como uma sombra que nos atormenta a todo o momento, mas que preferimos não comentar. Além de não sabermos enfrentar a idéia da morte em todas as suas facetas nas nossas vidas, criamos a concepção de que ela é um sinal de nossa falta de controle sobre a existência, e que portanto devemos buscar meios de supera-la, derrota-la, tornando-nos imortais de alguma forma. Imaginamo-nos imortais porque idealizamos uma vida após a morte, ou uma continuidade pessoal para além dela. Imaginamo-nos imortais procurando prolongar nossa personalidade ao máximo, nos tornando famosos e assim criar a ilusão de que somos importantes, que todos nos olham com admiração e inveja, e assim nosso orgulho e vaidade nos coloca no topo da realização existencial, deixando um legado qualquer que irá perpetuar nosso nome. Há tantas formas de criarmos uma visão de continuidade, mas quando ficamos diante da morte em si – quando aquela sentença chocante nos é revelada, a constatação de que irremediavelmente iremos morrer – é como se nossa mente caísse em um precipício, um abismo de incertezas. Rapidamente, talvez em milésimos de segundos, refazemos nossas vidas, em uma desesperada tentativa de resgatar o bom que ela nos ofereceu, e redimir o ruim que nela vivenciamos. Mas, da mesma forma que não existe um meio de barganha com Deus para se viver, também não há como negociar como iremos morrer.

Iremos morrer, seremos engolidos pelo inefável, e diante da aparente pequenez de nossa condição humana, ficamos perplexos e assustados. Entretanto, a questão mais profunda não é sabermos reconhecer o momento da morte, mas sim aprendermos como morrer. Sendo tão apegados à vida, viciados em viver de forma tão superficial e rotineira, deixamos escapar os momentos de perplexidade e aprendizagem da morte, que afinal acontece todos os dias. Um grave – e algo tragicômico – obstáculo para aprendermos como morrer é que consideramos o assunto péssimo, triste, depressivo. Assim, eu me pergunto: será que estou sendo muito desagradável para vocês ao escrever sobre este tema? Compreendam, por favor, que esta questão é crucial para vivermos com qualidade e em harmonia. Ponderar e refletir sobre o Morrer é um assunto absolutamente essencial à felicidade, ao bem de todos os seres. Não só porque ao final de tudo a morte nos espera, mas ainda mais porque enquanto vivemos, morremos de várias formas, todos os dias (sim, eu sei - eis mais um clichê; por quê será que as mais importantes sabedorias se tornaram meros clichês, desvalorizados e desprezados indiscriminadamente como se o fato de vivermos uma época de hipocrisia institucionalizada fizesse com que estas verdades perdessem sua força implícita, e sejam desmerecidas, apenas porque se tornaram frases triviais nas bocas de vários tipos de tolos e dissimuladores?).

A cada dia, estamos todos lidando com as nossas mortes. Algumas mortes são úteis ao nosso crescimento, mas outras são fruto de nossa incapacidade em agir com mais sabedoria, e portanto são mortes dolorosas, perdas difíceis de lidar. Elas ocorrem devido aos nossos hábitos, aos vícios de percepção a que nos prendemos ao longo da vida. É interessante perceber como muitos jovens – não falo das crianças, estas merecem lidar apenas com a vida em sua plenitude, justamente para que se tornem adultos mais capazes de entender o morrer em sua forma mais saudável – jamais se preocupam com as questões do espírito, exceto em casos limitados às suas religiões ou crenças culturais. Durante a juventude, simplesmente nos esquecemos de refletir sobre os vários aspectos da existência sob o prisma mais profundo e humanista da consciência. Quando jovens, muitas vezes desconhecemos o caráter integral da vida. E quando tal desconhecimento se mantém, chegamos à maturidade completamente destituídos de conteúdo reflexivo propício para enfrentar as nossas mortes cotidianas.

Morte também pode significar Ignorância, e será esta ignorância que irá fomentar em nossas personas o terror daquilo que tememos ser o fim. No fundo, nosso ego sabe que as mortes cotidianas baseadas em nossas ignorâncias, nossos erros e nossa falta de discernimento, são os fatores que invariavelmente irão alimentar aquele medo da morte definitiva, daquele fim. E não sabemos como lidar com isso. Ao mesmo tempo, a própria condição da vida é a sua impermanência, o estado de constante morte-e-renascimento de cada minúsculo aspecto do universo. Portanto, embora talvez seja difícil para todos nós entender as mudanças, ações e transformações constantes em nossas vidas como "mortes", elas assim o são. E será através da correta compreensão da natureza da morte em suas infinitas manifestações que poderemos lidar sabiamente com a inevitabilidade do Samsara, o eterno ciclo de morte e renascimento.

Há poucos dias ocorreu a notícia de que um dos maiores líderes judaicos brasileiros, o Rabino Henri Sobel, foi preso furtando gravatas em uma loja nobre nos Estados Unidos. A notícia entristeceu-me mais do que chocou, pois a ela atribuí um valor ético e não moral. Não imaginei nem por um momento que o rabino devesse ser execrado como um mentiroso ou manipulador; não imaginei que todo o seu trabalho como líder religioso devesse ser desmerecido. Mas considero que o episódio precisa ser refletido sob o prisma da condição humana de consciência e discernimento. Pois, apesar do histórico de problemas psico-emocionais pelo qual o rabino passa, ainda assim precisamos perceber o quanto é fundamental aprender a correta medida entre viver – simplesmente – e viver em consciência. Corremos o risco constante de sermos devorados pelos nossos lobos internos (http://tamhaovan.multiply.com/journal/item/31), e freqüentemente isso ocorre. Não somos melhores – em termos de cometer erros por ignorância ou falta de saúde mental ou física – do que o rabino Sobel, mas reconhecer isso não basta. Precisamos saber que os títulos, a eloqüência, as cátedras e as virtudes mundanas não nos oferecem, automaticamente, os méritos de uma vida sem máculas. É preciso que saibamos reconhecer as nossas mortes pessoais (aqueles momentos em que as fraquezas e os vícios nos dominam, levando-nos a "fazer coisas que não queremos fazer, pensar coisas que não queremos pensar, dizer coisas que não queremos dizer" [*] ), e que lidemos com elas corajosamente, sem deixar que o nosso orgulho ou vaidade as reprimam, fingindo (ou iludindo-nos) que elas apenas não existem.

Também eu sigo enfrentando minhas mortes, através da luta por superar os meus lobos internos – e eles são poderosos, devorando em várias ocasiões meu discernimento e me deixando perdido diante da minha ignorância e insalubridade perceptiva. Neste momento, em todo o mundo, bilhões estão lidando – a esmagadora maioria sem sequer saber disso – com suas ignorâncias, suas mortes pessoais, seus erros e estupidez. Em meio a esta luta, muitas coisas boas são descobertas, mas também muitas, muitas perdas acontecem pois infelizmente ainda são poucos os homens e mulheres capazes de aprender através do caminho de consciência ética.

E existem aqueles outros, homens e mulheres enfermos que neste momento precisam lidar com as suas próprias sentenças definitivas. Pois, é claro, a morte também diz respeito ao corpo. Mas, no fundo, a morte do corpo ocorre também por força de nossas ignorâncias. Muitas pessoas morrem assassinadas, doentes, violentadas, abandonadas, devido aos vários desastres sociais, econômicos ou militares – essa talvez seja a maior tragédia de todas. Outras morrem de enfermidades que sob muitos aspectos ocorrem devido às nossas escolhas. Pessoas morrem do coração, câncer ou stress, devido a uma vida pouco saudável e pobre de posturas equilibras; outras morrem por negligência em se precaver de muitos hábitos insalubres, feitos na pretensão de que nada nos irá acontecer.

A descoberta de que estamos morrendo é para muitos terrível, talvez desesperadora. Mas ainda assim esta descoberta precisa ser entendida como parte de um processo – muitas vezes longo e derivado de nossas tantas experiências na vida – que fundamenta o encadeamento vital de nossas ações com o nosso tempo. Ao descobrir-se finalmente às portas da morte, uma pessoa precisa mais do que nunca saber ver o melhor da vida, e usufruir disso com o coração tranqüilo. O mestre Thich Nhat Hanh (nas palestras de dharma "Superando o Medo da Morte" e "Meditações para os Doentes e Moribundos" - http://tamhuyenvan.ning.com/) procura afirmar que é possível praticar o que ele denomina o "não-medo". E o exercício do não-medo significa aprender a arte de ver o melhor do mundo, mesmo diante da morte. O conceito buddhista por trás deste tipo de ensinamento é muito importante, e ele significa aprender a mudar o nosso foco. Quando vivemos coisas desagradáveis e ameaçadoras, sempre tendemos a pensar sobre o mal ou a injustiça que nos abate; mas a proposta consciencial buddhista neste caso é outra, talvez difícil para alguns, mas gratificante se for praticada: diante da morte e da certeza de que iremos morrer, precisamos enxergar a parte de vida que ainda nos pertence, e descobrir que afinal iremos, sim, continuar. Mas nós não continuaremos como egos fechados em si mesmos, apegados a memórias, paixões e desejos. Nós continuaremos como parte de um todo indiscernível e contínuo de existências diversas, e realizações sutis. Iremos continuar através das sabedorias – e não dos ganhos ou virtudes – que logramos realizar durante as nossas vidas.

Quando você estiver diante de alguma mudança ou transformação em sua vida, quando estiver diante de decisões e ações cotidianas – mesmo que as mais banais e corriqueiras – saiba que estará vivenciando mais uma vez as mortes contínuas de sua existência. A verdade maior não é que estamos morrendo a cada dia, mas que as coisas à nossa volta morrem todo o tempo, a cada minúsculo instante. Nós mesmos não morremos, realmente; são os nossos atos que perecem apesar de nós mesmos. O que permanece, e sustenta a maravilha de viver, é a mente e o coração unidos em uma odisséia feita de atos e escolhas.

A questão final é: você é capaz de reconhecer a qualidade de suas escolhas, e o sentido de seus atos? Se não, saiba que sua vida está passando sem nenhuma realização maior do que aquela atingida pelas mentes pequenas, para as quais o usufruto passional e ignorante das coisas e pessoas é tudo o que importa. Não, não tente barganhar com a Vida. A Existência, justamente por ser um mistério além dos conceitos, além dos nomes, além de deus, deuses ou dos homens, não conhece a corrupção.

A Vida não pode ser comprada. E a Morte definitiva, – este assustador conceito associado ao terrível fim, ao imenso vazio – esta, acredite, apenas ocorrerá com aqueles que nunca souberam enxergar além si mesmos.

 

[*] Conforme as palavras e o ensinamento de Thich Nhat Hanh, mestre da escola buddhista Tiep Hien (escola do Inter-ser, ramo da tradição Zen Vietnamita).



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