|
Tam Huyen Van
O Genocídio Social
Tam Huyen Van, 12 de Fevereiro, 2007
Talvez, apenas talvez, em meio ao turbilhão de emoções indignadas e clamores de justiça que o recente evento trágico ocorrido no Rio de Janeiro provocou em boa parte da opinião pública, buscar a visão mais coerente e humanamente saudável para refletir sobre a natureza da crueldade humana, suas raízes fundamentais e sua abrangência mundial, não seja a melhor postura.
É notória a repulsa que boa parte do público possui pelas posições moderadas, principalmente quando uma sociedade qualquer sofre com o impacto de uma atrocidade, mesmo que tal impacto nos atinja essencialmente na superfície de nossa experiência perceptiva, dominando nossas mentes e corações sob as bases de uma revolta passional, imediata, sem com isso provocar em nós uma visão mais ampla, uma mudança real de consciência.
A repulsa pela atitude e pelas palavras reflexivas se dá fundamentalmente porque, como é usual, entendemos a análise moderada como representativa de uma postura ingênua, algo covarde, condescendente e fraca diante dos fatos duros e desesperadores. Nada de "moderação", nada de "reflexão". Isso nunca promove resultados. O crime atroz, muitos imaginam, deve ser punido com a grita, a revolta, com manifestações coletivas, com milhões de pessoas nas ruas, com cartazes de protesto – e ao final de tudo, com a atuação dura e punitiva sobre aqueles que perpetraram o crime absurdo, nauseante, terrível.
Talvez nem isso. Para muitos de nós, a melhor justiça para semelhante crime seria a tortura, a mais fria vingança, feita em algum porão sujo e escuro. E depois a imolação dos criminosos em praça pública, seu esfolamento vivo ou quem sabe estripação lenta, para o alívio e comemoração de todos, "os monstros estão mortos, e sofreram ainda mais do que os inocentes que mataram!"
É muito difícil argumentar sobre isso usando palavras corretas e claras, capazes de atingir até mesmo os mais agressivos e intolerantes, mas justamente quando o pior da natureza humana se apresenta – simbólica e concretamente – diante de nós a partir do sofrimento e assassinato de uma criança, é onde mais uma vez os homens e mulheres que buscam realizar em si a liberdade de consciência e discernimento devem apresentar argumentos válidos para alertar sobre a profunda moléstia emocional e perceptiva que a humanidade sofre, já por milhares de anos.
Neste momento em que ouço clamores por mobilização e protestos, percebo mais uma vez como todos nós estamos assustados e perdidos. Até mesmo os supostos representantes da justiça, do estado ou da sociedade civil, em momentos assim, me surgem despidos de sua expertise e de suas cátedras, e permanecem ali, frente ao público, balbuciando noções de lei e cidadania, repetindo as mesmas fórmulas vazias – mas muito bonitas em sua lógica racional – que pretendem definir e resolver o desesperador problema social que crassa nas metrópoles e grandes cidades há séculos, e que já se espraia por todo lugar, desde as pequenas aldeias africanas até as vilas holandesas.
A revolta diante de crueldades recentes não é prerrogativa da sociedade brasileira. Na verdade, a morte desta criança nas ruas do Rio de Janeiro não deveria ser vista como a mais cruel da semana; naquele mesmo dia, e em todos os dias de nossas vidas modernas, tragédias assim acontecem entre os homens. Crianças foram despedaçadas em uma explosão no oriente médio; crianças morreram de fome na África e na Ásia, sozinhas e sem amparo, com seus olhos perdidos e sem esperança; crianças sofreram abusos e trágicos assassinatos nos EUA e na Europa; crianças são mortas, e a humanidade continua seu caminho insalubre de fanatismo, egoísmo exacerbado, racionalismo inútil – tudo isso em meio a uma babel de opiniões díspares, e muito pouco interesse das pessoas, instituições e governos em concordar entre si.
Imaginamos que a solução é política, social, ou policial – para muitos, militar. Temerosos e sem rumo, falamos todos que devemos nos mobilizar, que alguma coisa tem que ser feita, que não é possível viver assim – mas na verdade não sabemos o quê fazer (e, profundamente em nossas almas, tememos descobrir algum dia que nada há para ser feito). Alguns fogem para outro lugar, outros se refugiam na futilidade do mundo, mais alguns preferem não saber de nada. Uma parcela de homens e mulheres, entretanto, procura uma forma de melhorar o mundo, em uma tentativa de buscar uma saída válida para toda essa insanidade. Esta parte da humanidade, estes que buscam uma solução possível para uma endemia de ignorância e egoísmo que infecta todo e qualquer ser humano, precisam cada vez mais saber que suas ações não podem cair nas simples manifestações de boa vontade, e que a solução de superação da crise humana continua longe das cadeias, nos tribunais de justiça e dos congressos – ela permanece em nossos atos de mente e coração, nas ações individuais e íntimas de todos nós.
Situações semelhantes à tragédia ocorrida representam mais um aspecto da complexa rede de ignorâncias individuais que culminam na caótica estrutura sócio-política na qual temos vivido por toda a história, apesar das evoluções e melhorias tecnológicas e científicas, a despeito de muitas transformações sociais e grandes momentos espirituais e religiosos. Por mais que pareça insensível, o fato é que a dor de uma perda como essa deve (e pode) ser encarada, coletivamente, apenas sob o prisma amplo das tragédias humanas; discuti-la em sua intimidade não nos cabe, e de fato creio profundamente que discuti-la sua particularidade é completamente inútil e desrespeitoso – apenas a família, aqueles que viveram e amaram o menino em sua real dimensão humana podem lidar com esta triste situação. E isso está além de todos nós, e nos cabe apenas o silêncio.
Falei mais acima da grita por vingança, e do clamor pela morte dos envolvidos. De fato, a crise na qual estamos inseridos é muito mais complexa do que parece. E o outro fato é que as políticas de vingança, ou as práticas e teorias de repressão, punição e encarceramento jamais deveriam ser consideradas como as reais soluções para o fenômeno extremamente destrutivo da criminalidade cruel que assola as sociedades humanas modernas. Embora as mentes conservadoras – sejam de direita ou esquerda – ainda se recusem a admitir isso, a realidade inquestionável é que todas as ideologias fundamentadas na retaliação falharam completamente, e jamais em momento algum da longa história humana de crimes, terrorismos e guerras elas foram capazes de implementar um mínimo de segurança ou paz.
Você talvez imagine que a realidade miserável das favelas, do tráfico e da violência gratuita no Brasil necessite de retaliação. Talvez você imagine que a tortura e morte dos assassinos cruéis seja útil para criar o terror nos homens maus, e reprimir a barbárie. Sua posição é tola, e completamente equivocada. Os rapazes que perpetraram aquele crime hediondo, na verdade, já foram torturados – eles têm sido torturados por toda sua vida – e já estão mortos – eles já estavam mortos quando agiram daquela maneira. Eles fazem parte dos milhões de mortos sociais do mundo, e compõem o mais lamentável quadro de desestruturação humana jamais apresentado. E nós mesmos podemos fazer parte desta tragédia de proporções gigantescas, pois não pensem nem por um segundo que a morte social diz respeito aos pobres e miseráveis; ela tem a ver com as mentes ignorantes, as posturas egoístas, corruptas e ambiciosas, a desastrosa racionalidade das elites. Tem a ver com ricos e pobres indiscriminadamente, pois o foco da ignorância humana não é econômico, religioso, racial ou sequer intelectual. Neste momento, os homens e mulheres de todas raças e credos, mergulhados em seus insalubres vícios de hábito, comportam-se como mortos para a liberdade da mente e coração, e vivem uma vida paradoxalmente vazia de consciência profunda, mas cheia de realizações fúteis, banais, ou simplesmente concretas e imediatistas. E você pode estar entre estas baixas.
Pois é exatamente isso que está acontecendo na organização sócio-política do mundo: estamos vivendo um grande genocídio social, lento e insidioso. Ele ocorre em nossas casas, nas atitudes que tomamos, no modo como forjamos nossas amizades e paixões, criamos nossos filhos e adquirimos conhecimento. É um extermínio da linguagem construtiva, do diálogo calmo e ponderado, da composição plena entre as partes. O genocídio destrói a educação correta e inovadora, e asfixia a arte e a cultura realmente criativas e dinâmicas, menosprezando as posturas equilibradas e as palavras de favorecimento à compreensão mútua. Ao mesmo tempo, o egoísmo exacerbado é valorizado ao extremo, o usufruto consumista valorizado como a quintescência da sofisticação moderna, o conhecimento cartesiano e desumanizado elevado ao nível de grande solução para as instituições sociais, políticas e empresariais.
Apesar deste desanimador quadro atual, as políticas de cidadania, ou de consciência social, não devem ser consideradas ineficazes em si mesmas. Na verdade, elas representam o mais próximo da real solução de cura humana que logramos atingir, na qualidade de seres sociais, até hoje. Mas ainda falta a estas políticas o elemento-chave: a incorporação da visão libertária que o exercício de consciência interna, pessoal, oferece. Ainda insistimos em debater a questão de forma externa, alheia aos nossos próprios erros perceptivos básicos. A humanidade ainda não conseguiu aprimorar a sua visão psico-emocional da consciência, e continua a se basear no erro histórico de imaginar que a terapia fundamental para os problemas sociais do mundo está nas ações políticas, ou jurídicas, ou patrióticas, ou talvez científicas e metodológicas puramente teóricas e racionalistas. Além disso, as iniciativas ideológicas sociais ainda sofrem com a sua fragmentação. Faz-se necessário que os discursos deixem de ser diferenciados, e que a babel das instituições defensoras das questões sociais humanas cesse de uma vez por todas. Uma linguagem única é preciso, e não apenas uma linguagem única, mas uma única ação social coletiva, um único organismo de desenvolvimento consciencial e social humano torna-se necessário. Mas para isso é preciso que as mentes humanas – até mesmo (e principalmente) as mentes mais conscientes – aprendam a enxergar o mundo de uma forma unificadora e integrada.
Ao fim desta difícil situação, resta a dor das perdas insuperáveis. Restam as crianças mortas, aqui ou no outro lado do mundo. E a morte trágica de uma criança, em meio ao genocídio social humano que estamos vivendo, é a morte do futuro. Ao morrer parte do futuro, a própria possibilidade de cura da humanidade sofre um grave revés. Neste momento, a maior ação possível seria que cada pessoa assumisse o sério compromisso de praticar em sua vida o exercício de consciência plena, íntima e pessoal; que cada um aprendesse a ouvir, a refletir mais sobre seus atos antes de cometê-los. Não, eu não estou falando dos seus possíveis atos cruéis ou agressivos. Eu falo justamente de seus atos cotidianos, aqueles que menos valorizamos ou prestamos atenção. São exatamente nestes que habitam as sementes mais prejudiciais para o nosso futuro.
Observe e pratique. Uma palavra de desprezo ou fanatismo, um gesto de arrogância, uma atitude vaidosa e fútil pode representar a base para grandes ódios, preconceitos, erros e perdas. Mas todo ato corajoso que busque a superação de nossas ignorâncias, e que permita o surgimento de uma profunda auto-regulação consciencial em nossas mentes, sempre irá permitir que a liberdade se instale em nossos corações, e em nossa compreensão do mundo. Se isso for feito, creiam-me, as soluções e melhorias acontecerão com uma rapidez surpreendente. Pois, se realmente assumirmos o compromisso da ação consciente, aqui e agora, em nós mesmos, as mudanças fundamentais serão plenamente possíveis neste mesmo momento. Sim, eu sei que uma grande parcela da humanidade sequer é capaz de entender o quê significa esta prática, esta cura e transformação. Mas cabe justamente aos que possuem sensibilidade e sabedoria suficentes para perceber os méritos do Caminho, trilhá-lo sem demora. Um passo em direção ao esclarecimento é também um grande passo para diminuir a inconsciência e o extermínio do bom senso no mundo, apesar dos milhões que ignoram sua própria morte social.
Sei muito bem como é difícil enxergar os desdobramentos dos nossos atos de uma forma isenta e consciente. Torna-se ainda mais difícil admitir – além da mera concordância retórica ou intelectual – que nós também somos responsáveis pelas atrocidades do mundo, mas assim é. Os assassinos, aquelas pessoas de olhos frios e vidrados que nos confrontam com sua assustadora loucura, são apenas os mais doentes dentre todos nós. Eles estão mortos, são corpos vazios de espírito e discernimento, e suas ações são pobres de valor, e virulentamente destituídas de compaixão. Mas eles também fazem parte da humanidade, e a nós estão ligados. Nossa futilidade, nosso egoísmo inconsciente, nossos vícios e preconceitos, contribuíram para que aqueles olhos frios e socialmente mortos surgissem. E se não tomarmos cuidado, seremos sugados pelas mesmas energias insalubres, matando em nós a valiosa capacidade de viver equilibrada e coerentemente.
Pratique em sua vida o exercício da reflexão consciente. Comece agora, neste momento, e jamais deixe de confiar na verdade de que podemos ser muito melhores, mais libertos e saudáveis do que aparentamos ser. Quanto mais pessoas souberem assumir a moderação em suas mentes e corações, mais a cura da doença social humana estará próxima. Basta aprender a ver o mundo com olhos despertos pela consciência plena, e com o coração aberto para a compreensão da vida.
Pratique a paz.
Retorna
|