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Tam Huyen Van
Zazen
Tam Huyen Van, Janeiro 2007
Postura firme, quadris elevados e pernas corretamente cruzadas sobre o zafu, com os joelhos tocando o chão. Corpo centrado no eixo imaginário que vai do ponto mais alto da cabeça, passando por toda a extensão da espinha até o cóccix. A postura de contemplação representa muito mais do que um meio de prática física e mental; ela representa uma linguagem e um complexo de ensinamentos, todos resumidos em uma simples posição de ossos e músculos sobre uma almofada redonda. Implícitos nesta postura imóvel, reverberando no silêncio da contemplação, estão uma responsabilidade e uma profunda decisão.
A quem é dado o direito de decidir como podemos ser e o quê podemos fazer na vida? Na verdade, não são poucos os homens e mulheres que pretendem decidir seus caminhos e dias a partir de suas próprias concepções de mundo e verdades. Isso é um fato, não pode ser contestado: todos nós queremos descobrir um meio de viver em total controle de nós mesmos, e das pessoas e coisas à nossa volta. Controle, eis a palavra mágica para o ego.
Neste mesmo momento, estamos todos acreditando que nossas vidas estão seguindo um curso coerente e concreto – seja para melhor ou pior –, sem nenhuma forma de desvio estranho à razão. Estamos bebendo, comendo, falando ou sorrindo, sem absolutamente nenhuma dose de dúvida sobre a completa racionalidade do processo sob o qual baseamos nossa existência. Mesmo se estivermos tristes e perdidos em dúvidas afetivas, profissionais ou sociais, ainda assim haverá um resquício de certeza em nossas atitudes – aliás, o próprio fato de sucumbirmos com tanta facilidade a tristezas e desesperos já comprova o quanto damos importância ao lado mais ilusório da vida, e quanto valorizamos as certezas baseadas naquilo que achamos ser o mundo (e não o mundo em si).
Esta certeza é o que nos faz vivos. Esta convicção quase automática na coerência de nossa interpretação do mundo vem a ser o eixo fundamental para que nossa mente e percepção se achem no caminho, e no controle, de tudo. Mesmo se estamos sofrendo agora mesmo a dor da perda de alguém, ou a angústia da solidão ou fracasso profissional, ainda assim estas coisas pertencem ao universo comum das circunstâncias, são peças que completam os elementos concretos e palpáveis da vida, coletivamente aceitas como normais.
Quando estamos vivendo o cotidiano do mundo, não é nada fácil superar a tendência humana a interpretar tudo sob o prisma das circunstâncias. Aprender a arte de viver livre de dualidades, ou livre da crença radicalmente concreta e racional dos fatos, não é fácil de modo algum. No outro extremo, podemos cair no completo abandono das crenças e sonhos mistificadores, e que podem nos oferecer uma saída para a mesmice do mundo. Mas este caminho também resulta em erro e decepção, mais cedo ou mais tarde; ele é feito do mesmo material daquela primeira concepção concreta e racional: a ilusão de que possuímos o controle e a coerência das grandes verdades do mundo.
Por trás do ato meditativo está uma responsabilidade extremamente desafiadora, e que poucos logram sustentar: a responsabilidade de assumir uma prática constante e todo-abrangente de auto-observação e auto-regulação. O zazen, o ato de silenciar e contemplar a própria mente em sua louca escapada pelos tortuosos corredores de nossos sentimentos, pensamentos, construções mentais e concepções egoístas, é um ato simbólico de reavaliação de nós mesmos. Um ato que não oferece resultados imediatos, e nem se prende a simples desejos de paz, harmonia ou amor. O ato de sentar e meditar, prende-se exclusivamente ao esforço em colocar a mente estrategicamente pronta para observar-se, reconhecer-se, e curar-se – e aí sim, atingir paz e harmonia.
Não sabemos quem somos. Temos, no máximo, uma vaga idéia do que parecemos ser uns para os outros. Ou do que desejamos ser, em função de nossas vaidades ou racionalismos. Uma das mais fantásticas características dos seres humanos é a capacidade de agir e desenvolver-se no mundo apesar da profunda falta de correta compreensão de si mesmo. Grandes empresários constroem impérios econômicos, líderes poderosos conduzem milhões por suas decisões políticas, homens e mulheres famosos ou anônimos tomam suas atitudes pequenas ou grandes e sustentam a sociedade humana em todos os cantos do planeta, e no entanto ainda se caracterizam por serem criaturas mergulhadas em ansiedades e frustrações, falhas de caráter ou com concepções de vida totalmente presas às suas próprias opiniões, sejam quais forem.
Este paradoxo sócio-comportamental humano é algo completamente comum e milenar. O fenômeno da falta de sabedoria perceptiva não afeta, aparentemente, a condução do mundo humano. Não nos falta inteligência, não nos falta capacidade tecnológica, talento artístico, organização social, cultural e econômica. Ao contrário, justamente nosso ímpeto pela disputa, territorialismo e egoísmo exacerbado é que provocam grandes descobertas e evoluções científicas e sociais – e o quê importa se, no meio deste processo, alguns milhões de almas morram devido aos confrontos, guerras, parcialidades ou políticas obscuras que tal agressividade humana provoca?
Então, afinal, para quê serve toda esta discussão sobre consciência? Por que tantos argumentos em prol de práticas voltadas para um inefável equilíbrio interior, e uma forma completamente diferente de ver e viver nossa existência? Jamais existiu, por acaso, algum governante ou cientista sábio e profundamente desperto de sua ignorância perceptiva? Podemos encontrar alguma empresa onde seus empregados, desde o presidente ao mais humilde faxineiro, sejam pessoas lúcidas e profundamente engajadas no exercício de contemplação consciente das coisas?
A resposta é não; o mundo humano nunca deixou de ser criado e desenvolvido devido à falta de sabedoria e iluminação entre os homens e mulheres. Apesar de nossos vícios, ódios, vaidades, apegos e diferenças, ainda continuamos brilhantemente construindo um mundo complexo, multifacetado, cheio de realizações – e de contradições. O zazen também é assim: algo que parece dispensável para que possamos viver, algo que não parece ter relação direta com as nossas necessidades imediatas. Sem meditar, podemos afirmar que sabemos entender ou praticar a paz, o amor, a harmonia. Sem meditar, podemos dizer que temos discernimento, amplitude de percepção, até mesmo sabedoria.
Mas não é bem assim. O mundo humano – o nosso mundo, a nossa vida íntima – carece de saúde mental. Falta à nossa boa vontade em reconhecer as coisas boas do mundo mais auto-observação e universalidade – e assim, mesmo quando achamos estar conscientes das injustiças no mundo ou prontos para praticas as suas virtudes, sempre tendemos a defender apenas um lado, observar apenas uma maneira de experimentar as coisas, esquecendo que as soluções jamais estão nas parcialidades ou nos grupos. Falta ao brilhantismo intelectual humano a mais básica coerência e integração. Somos criaturas desintegradas, apesar de plenamente capazes de construir um mundo inteiro de realizações concretas. Todos estamos sujeitos a uma mente inconstante, e navegamos o mar da existência enfrentando ondas de prazer e dor, de vitórias e derrotas, de simpatias e antipatias.
A experiência do despertar, de liberação mental, não tem nada a ver com nossas capacidades imediatas e cotidianas. Não tem a ver com a inteligência, o saber, a criatividade humana. O processo de despertar visa dar ao nosso potencial intelectual uma perfeição perceptiva tal, que nos permitirá viver e compartilhar nossas descobertas e realizações indiscriminadamente e sem conflitos, sem absolutamente nenhuma restrição. Esta é a responsabilidade daquele que pratica o Zazen: conduzir sua mente para a outra margem da existência comum, e fazer-se ainda mais saudavelmente humano, afinando sua sabedoria de tal modo que esta será uma experiência fluida e puramente sensível, sem nenhum tipo de racionalização ou conceitualização.
Mas como disse antes, o zazen implica não apenas em responsabilidade de auto-regulação, mas também em uma decisão profunda. Pois a prática do zazen extrapola o sentar-se e silenciar; também praticamos o zazen em nosso cotidiano mais absurdamente comum e banal. Na verdade, é extremamente urgente que o pratiquemos justamente aonde ele menos parece se adequar, ou seja, em nossos atos rotineiros e superficiais. E como se dá esta prática de zazen? Afinal, como podemos sentar e meditar em nossas mesas de trabalho, ou na sala de jantar, ou ainda durante o banho? Atentem bem para esta verdade: o zazen não é uma postura. Antes, a postura expõe o zazen, mas não o realiza. O exercício do zazen ocorre através de uma atitude, de uma intenção. Sentados em zazen, estamos expondo nossa profunda intenção em realizar a mente desperta – estamos exercitando o shikantaza, a confiança plena e direta na experiência de contemplação. Mas é imprescindível que esta confiança seja exercitada nos gestos, palavras, pensamentos e sentimentos constantes em nossas vidas. Sem isso, não haverá zazen – ou melhor, o zazen sempre estará incompleto. Esta é uma verdade que todos os grandes mestres zen souberam expor aos seus discípulos.
Eis, portanto, a grande decisão da prática zen: precisamos assumir o processo meditativo em nossas ações, temos de fazer este compromisso integralmente, todo o tempo. Caminhar atentamente, comer em atenção, errar ou acertar em completo esforço de consciência. Sim, o zazen também serve para os momentos de erro, de egoísmo, de ignorância, que muitas vezes nos dominam e nos fazem agir e pensar coisas muito insalubres para nós mesmos e para os outros; o zazen é a profilaxia para que tais erros sejam curados, com o tempo. Pois, quando agimos sem consciência, ou melhor, sem o exercício de consciência, tendemos a aceitar nossos erros e equívocos como fatos comuns e naturais – quem sabe até justificáveis – em nossas formas de viver e compreender o mundo. E fazendo assim nós incorporamos estes erros em nosso comportamento de uma forma tão envolvente que ele se arraiga em nossa mente, e se torna parte de nosso caráter. Eis a gênese de nossas mais insalubres ignorâncias.
Postura firme, espinha reta, respiração suave e a mente em suave observação; eis o símbolo do zazen. E inerente a este símbolo, habita a mais firme intenção de entender o mundo através de uma percepção aberta, direta e natural – sem culpas nem desculpas, apenas sabendo viver o mundo com o coração centrado e a mente alerta todo o tempo, sem medo de enfrentar os seus próprios limites.
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