|
Tam Huyen Van
Desaprender - como prática para o conhecimento correto -
Tam Huyen Van
Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), certa vez recebeu um professor de universidade, um grande intelectual, que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso analítico sobre suas dúvidas.
Nan-In, enquanto o ouvia, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.
O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:
"Está muito cheio. Não cabe mais chá!"
"Como esta xícara," Nan-in disse, "você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?"
Não é fácil adquirir conhecimentos. Apesar do fato de estarmos vivendo em um período no qual ocorre uma explosão de informações jamais vista na história da humanidade, ainda assim continuamos a observar que o conhecimento é um processo difícil e complexo de organização e elaboração interna de tudo que é adquirido através dos sentidos – falo dos sentidos e não do intelecto porque o conhecimento extrapola em muito o simples acúmulo de palavras ou fórmulas mentais. A revolução de informação em que vivemos criou um fenômeno que eu chamo de "conhecimento caótico". Após séculos onde o exercício do saber quase sempre se restringia a uma única base geral (cultural ou religiosa) de informação, estamos vivendo um período em que todas as informações são potencialmente (ou teoricamente) acessíveis e imediatas a todos em qualquer lugar do mundo, e justamente por serem tão acessíveis tornaram-se um amalgama caótico de dados que contribui em muito para um processo de sério anuviamento da compreensão adequada dos assuntos humanos pela mente.
Durante mais de dois mil anos (na verdade, por um período muito mais longo do que este se considerarmos de forma justa e abrangente todas as culturas mundiais e não apenas a cultura européia) os homens e mulheres conheciam o que sua comunidade imediata – e sua base religiosa fundamental – lhes impunha. A ignorância era uma condição associada à subordinação aos ditames do conhecimento traduzido pelos estudiosos, sacerdotes ou líderes, donos de uma experiência específica e baseada em suas próprias idiossincrasias – portanto, passíveis de forte limitação e engano.
Não penso que atualmente tenhamos superado completamente este processo de indução e manipulação que sempre ocorreu no passado, mas é inegável que foi aberta uma porta de acesso a informações alheias aos desejos e vontades das instituições estabelecidas, o que poderia permitir a um indivíduo sua liberação de certos níveis de imposição de conhecimentos relativos. De certa forma vivemos uma longa catarse após muito tempo de repressão intelectual, onde a explosão de opiniões, teorias e contra-teorias, críticas e elogios, análises e projeções, tornou-se lugar-comum no esforço humano para descobrir-se. O grande problema é que o homem não está realmente se liberando; ele está desta vez mergulhando em um novo tipo de ignorância e manipulação, ditados pela explosão caótica dos conceitos.
Como nós entendemos o conhecimento e seu mais valioso resultado, a sabedoria? Como você imagina ser a sua capacidade de conhecer e saber? Estas são questões muito importantes, a meu ver. Elas determinam o grau de compreensão que podemos ter de nossas próprias potencialidades em relação ao nível de discernimento e atenção de nossa mente. E o primeiro passo para que o processo fenomenológico da consciência plena ocorra vem a ser justamente o Reconhecimento. Reconhecer nossa natureza interpretativa do mundo (e de nossa própria condição nele) é um movimento básico na prática contemplativa, é o primeiro passo. Sem isso, jamais saberemos a quantas anda nossa idéia de vida, nossa ótica perceptiva de tudo o que estamos aprendendo e apreendendo a partir de nossos sentidos.
O acúmulo de conhecimento – uma atitude aceita quase que universalmente na cultura moderna como sendo o meio mais óbvio para atingir os méritos da intelectualidade e da compreensão – sempre nos leva a uma sofisticação progressiva de nosso potencial cognitivo, mas jamais ao exercício de sabedoria. Esta é uma declaração aparentemente radical e pretensamente absoluta, eu sei, mas correta mesmo assim. Ninguém que seja adepto do método acumulativo de conhecimento atinge – ao fim e ao cabo de todo o seu esforço, suas cátedras, seus títulos ou sua grande inteligência aprimorada – a meta fundamental do esclarecimento iluminador dos caminhos do espírito. Uso o termo "espírito" não no sentido religioso ou doutrinário, mas no sentido íntimo de nossa percepção mais pura e sutil (oh sim, ela pode ser atingida!), e portanto desejo associar a experiência de esclarecimento à liberdade mental que eu freqüentemente faço alusão em meus ensaios.
Conheço vários exemplos, em minha vida, de pessoas que sob o acúmulo de conhecimentos tornaram-se estranhamente incapazes de compreender. É interessante observar, sob o prisma da prática contemplativa, o quanto a completa falta de conhecimento e o grande acúmulo deste são, enfim, bases para as mesmas atitudes de anuviamento e falta de compreensão que dominam as ações humanas. São extremos aparentemente opostos em todos os níveis de uma mesma linha de relação, mas no fundo compõem-se das mesmas bases mentais: a completa falta de flexibilidade perceptiva, o que leva a pessoa a um gravíssimo processo de cristalização intelectual, e profunda ignorância de si mesmo.
Mas esta minha linha de argumentação seria uma crítica ao conhecimento profundo ou aos méritos dos estudos e pesquisas? De forma alguma, jamais imagino apresentar o conhecimento em si como fruto de ignorâncias ou um meio errado de buscar o desenvolvimento humano. Minha linha de argumentação direciona-se para o modo como interpretamos e organizamos, em nós mesmos, as informações que se nos apresentam a todo o momento e de uma forma cada vez mais assustadoramente intensa. Eu busco alertar para o fato de que a humanidade, em seu potencial intelectual e cognitivo, ainda não soube alinhar de forma saudável e realmente útil todas as descobertas sensíveis, mentais e filosóficas as quais fomentou ao longo de milênios de história; ainda nos falta um modo realmente consciente e fluido de relação com o conhecimento e seus desdobramentos.
Assim, existe uma proposta prática na tradição zen-buddhista que considero muito interessante e realmente inovadora: o desaprender. Eu já fiz alusão a este processo antes, mas acho importante elaborar melhor o conceito que, para muitas pessoas, pode soar muito polêmico e até mesmo perigoso – afinal, o que significa essa estória de desaprender? Devo jogar por terra todos os meus anos de estudo, devo menosprezar a gigantesca herança intelectual humana?
Na verdade, não. De modo nenhum seria útil abandonar nosso conhecimento. Mas, sim, é imprescindível que saibamos depurar este conhecimento, e "polir" nossa mente daquilo que não apenas torna-se inútil e entulhado nela, mas tudo aquilo que contribui para realmente nos ocultar as sabedorias essenciais. Após anos de acúmulo intelectual, vivo um processo de "desaprender". Percebi que é fundamental para todo praticante contemplativo ou toda pessoa desejosa de seguir harmonicamente o ritmo da vida saber despojar-se de conhecimentos, para justamente poder adquirir sabedorias. A questão não é de renegar informações, ou tornar-se alienado delas; a questão não é ridicularizar estudos ou menosprezar análises. A grande questão na prática zen-buddhista é praticar o reconhecimento e a compreensão sutil da real natureza das informações, exercitar a simplicidade de percepção e fomentar em nós mesmos (e nos outros) a disposição de discernir mais do que apenas entender.
Isso, como podemos ver, não é fácil. Temos um histórico cultural de elogio ao conhecimento intenso, e para muitos de nós a compreensão resulta em um processo tipicamente cumulativo e técnico, organizado única e exclusivamente pela atuação racional e analítica. Toda argumentação que acene para outras opções de compreensão torna-se, no mínimo, tola. Mais do que isso, poucas pessoas aceitam o fato de que podemos praticar a compreensão do conhecimento através da consciência; a maioria apenas concebe o conhecimento como algo a ser absorvido e elaborado pela mente racional, e nunca vivenciado de forma um tanto vaga e indefinida pela mente contemplativa.
Contudo, existem meios extremamente saudáveis de elaboração e organização do conhecimento, os quais propõem uma abordagem perceptiva ampla e fluida a qual nos oferece o melhor possível entre a razão e a sensibilidade sem com isso cristalizar em nossa mente conceitos rígidos, fanatismos, idealismos racionais ou ignorâncias dogmáticas. Para acessar tal processo de conhecimento correto é preciso transformar nosso modo de aprender, de lidar com as novas informações – é preciso criar uma forma de epistemologia ainda mais renovadora do que jamais tem sido considerada. Quanto mais racionalizamos o conhecimento, tanto mais estaremos presos a uma mente cartesiana, limitada e – ao fim – ignorante. Eis porque eu afirmo as semelhanças entre os extremos da profunda falta de conhecimento e o grande excesso deste; entre pessoas simplórias e brutas e pessoas extremamente complexas e intelectualizadas.
O fato é que a ignorância não tem a ver diretamente com o conhecimento (ou falta dele), mas sim com a maneira como somos capazes de sofisticar saudavelmente a nossa compreensão e discernimento das coisas, e assim aprender a arte de conhecer corretamente. Toda pessoa capaz de praticar profundamente o discernimento e a compreensão em sua mente, independentemente de sua condição material, social, cultural, racial ou geográfica, será capaz de adquirir o conhecimento mais pleno, natural e saudável possível.
Por trás de todo meu esforço em apresentar esta proposta contemplativa de correto conhecimento está minha constante surpresa em perceber como é difícil lidar com a intelectualidade e a percepção sob o prisma de uma proposta humana realmente sutil e sofisticada, sem os excessos mentais que caracterizam a falta de sabedoria. Considero que uma atenta e constante prática em desaprender aquilo que se torna desnecessariamente complexo, excessivo, em nossas mentes é uma profilaxia essencial para a saúde mental da humanidade.
Todas as misérias sociais, políticas e religiosas que tem assolado o mundo ao longo de milênios derivam invariavelmente de um modelo de aprendizagem e compreensão que prioriza o acúmulo – seja de forma analítica ou passional – de conhecimento em detrimento de uma prática mais plena do exercício de despojamento cognitivo.
Nós, seres humanos, ainda não conseguimos lidar adequadamente com o nosso potencial interpretativo e analítico. Oscilamos entre racionalismos frios e mecânicos ou metafísicas complexas e passionais, todos rigidamente presos às nossas idealizações – e às linguagens. O grande segredo que subjaz a prática do desaprender vem a ser o fato de que o conhecimento correto transcende a linguagem embora jamais a negue. O praticante do conhecimento adequado faz uso das várias facetas concretas de linguagem em muitos momentos, mas precisa vivenciar uma nova abordagem lingüística de forma a viver o processo de interpretação do conhecimento com fluidez. É o que eu denomino de aprender a linguagem do mundo, uma experiência de compreensão sutil que é a mais rica de todas, uma experiência de expansão e esclarecimento que está muito distante do simples exercício intelectual cumulativo de conhecimentos vários, mesmo que tal exercício seja elaboradíssimo e brilhantemente realizado.
A nossa xícara da mente está cheia demais. Devemos esvaziá-la de seus excessos com paciência e delicadeza, em gestos firmes e suaves como em uma cerimônia de Cha-no-yu, de forma a não desperdiçar a parcela do chá da sabedoria que – este sim – irá saciar nossa sede de conhecimentos corretos.
Conhecimento: chá demais para uma simples xícara.
*****************
Sabedoria: na xícara da mente, chá bem servido.
Tam Huyen Van
Retorna
|