O Ideal Bodhisattva no Budismo
Ven. Dr. W. Rahula
O Ideal Bodhisattva no Budismo Ven. Dr. W. Rahula
(Traduzido para o Portugues por Sérgio Pereira Alves)
Existe uma crença muito difundida, particularmente no Ocidente, que o ideal Theravada, que eles convenientemente identificam como Hinayana, é se tornar um Arhant enquanto o ideal Mahayana é se tornar um Bodhisattva e finalmente alcançar o estado de um Buda. Isto deve ser categoricamente refutado. Esta idéia foi difundida pelos primeiros Orientalistas numa época quando os estudos Budistas estavam começando no Ocidente, e outros que os seguiram aceitaram este conceito sem se preocupar em analisar o problema mais profundamente através dos textos e tradições em países Budistas. Mas o fato é que tanto o Theravada quanto o Mahayana aceitam unanimemente o ideal Bodhisattva como sendo o mais elevado.
Os termos Hinayana (Pequeno Veículo) e Mahayana (Grande Veículo) não são conhecidos na literatura Pali Theravada. Eles não se encontram no Cânone Pali (Tripitaka) ou nos Comentários sobre o Tripitaka Nem nas Cronicas Pali do Ceilão, o Dipavamsa e o Mahavamsa. O Dipavamsa (cerca de século IV A.D.) e os Comentários Pali mencionam Vitandavadins, evidentemente uma seita que descende de Budistas mantenedores de alguma visão não ortodoxa em relação à alguns pontos nos ensinamentos de Buda. Tanto o Vitandavadin quanto o Theravadin citam as mesmas autoridades e nomes de sutras do Tripitaka para apoiar suas posições, sendo que a únicadiferença está no modo de suas interpretações. O Mahavamsa (Século V A.D.) e uma Comentário do Abhidhamma se referam à Vetulla - ou Vetulyavadins (Sanscrito: Vaitulyavadin) em vez de Vitandavadin. A partir desta evidência dos textos, talvez não seja errado considerar que estes dois termos - Vitanda e Vetulya - representavam a mesma escola ou seita.
Aprendemos no Abhidhamma-Samuccaya, um texto filosófico confiável Mahayana (Século IV A.D.) que os termos Vaitulya e Vaipulya são sinônimos, e que Vaipulya é o Bodhisattva-Pitaka. Agora, o Bodhisattva-Pitaka é definitivamente Mahayana. Portanto o Vaitulya indiscutivelmente denota o Mahayana.
Assim podemos ter certeza de que os termos Vitanda e Vetulya usados nas Cronicas e nos Comentários Pali se referem ao Mahayana. Mas os termos Hinayana e Mahayana não eram conhecidos por eles, ou eram ignorados ou não reconhecidos por eles.
É universalmente aceito que os termos Hinayana e Mahayana são invenções mais recentes. Falando em termos de história, o Theravada já existia muito tempo antes destes termos existirem. O Theravada, considerado ser o ensinamento original de Buda, foi introduzido no Ceilão e se estabeleceu lá no século III A.C., ná época do Imperador Asoka da India. Naquela época não havia nada que se chamasse Mahayana. Mahayana como tal, surgiu muito mais tarde, por volta do início da era Cristã. Sem Mahayana não poderia haver Hinayana. O Budismo que foi para Sri Lanka, com o seu Tripitaka e os Comentários, no século III A.C., permaneceu lá intacto como Theravada, e não apareceu na disputa Hinayana-Mahayana que se desenvolveu mais tarde na Índia. Portanto não parece certo incluir o Theravada em qualquer uma dessas duas categorias.
O Mahayana lida principalmente com o Bodhisattva-yana ou o Veículo do Bodhisattva. Mas ele não ignora os outros dois: Sravaka-yana e o Pratyekabuddha-yana. Por exemplo, Asanga, o fundador do sistema Yogacara, em sua Magnum Opus, o Yogacara Bhumisastra, devota duas seções ao Sravaka-bhumi e Pratyekabuddha-bhumi ao Bodhisattva-bhumi, que mostra que todos os três yanas são levados em consideração no Mahayana. Mas o estado de um Sravaka ou um Pratyekabuddha é inferior ao de um Bodhisattva. Isto é bastante parecido com a tradição Theravada que, também afirma que se pode se tornar um Bodhisattva e se pode atingir o estado de um Buddha completamente Iluminado; mas se a pessoa não puder, a pessoa pode atingir o estado de um Pratyekabuddha ou de um Sravaka de acordo com a capacidade da pessoa. Estes três estados podem ser considerados como as três conquistas no mesmo Caminho. Na realidade, o Sandhinirmocana Sutra (um Mahayana Sutra) claramente diz que o Sravakayana e o Mahayana constituem um yana (ekayana) e que eles não são dois ´ veículos´ diferentes e distintos.
Os Três Indivíduos
Agora, um resumo do que são estes três indivíduos: Sravaka, Pratyekabuddha e Bodhisattva:
- Um Sravaka é um discípulo de um Buda. Um discípulo pode ser um monge ou uma freira, ou um leigo ( homem ou mulher). Empenhado em sua libertação, um Sravaka segue e pratica alcançar o estado de Buda e finalmente alcança o Nirvana. Ele também serve à outros, mas sua capacidade para fazê-lo é limitada.
- Um Pratyekabuddha (Buddha Individual) é uma pessoa que realiza o Nirvana por si só numa hora quando não houver nenhum Samyaksambuddha no mundo. Ele também presta serviços a outros, mas de um modo limitado. Ele não é capaz de revelar a Verdade a outros como um Samyaksambuddha, um Buddha completamente Iluminado faz.
- Um Bodhisattva é uma pessoa (monge ou leigo) que está em uma posição para atingir o Nirvana como um Sravaka ou como um Pratyekabuddha, mas a partir de uma grande compaixão (maha karuna) para o mundo, ele renuncia ao mundo e continua no sofrimento da samsara pelo bem dos outros, ele se aperfeiçoa durante um período incalculável de tempo e finalmente realiza o Nirvana e se torna um Samyaksambuddha, um Buddha completamente Iluminado. Ele descobre A Verdade e a declara para o mundo. A capacidade dele para servir os outros é ilimitada.
A definição dos três Yanikas (os seguidores dos três yanas) dado por Asanga é muito instrutivo e clareia alguns pontos. De acordo com ele, um Sravakayanika (aquele que leva o veículo dos discípulos) é uma pessoa que, vive de acordo com a lei dos discípulos. Tendo faculdades fracas por natureza (qualidades), curvado em sua própria liberação pelo cultivo do desapego, dependendo do Cânone dos Discípulos (Sravaka-pitaka), praticando as qualidades principais e secundárias, gradualmente acaba com o sofrimento. Um Pratyeka-Buddha-Yanika aquele que leva o Veículo do Buddha Individual) é uma pessoa que, vidas de acordo com a lei do Buddha Individual, tendo faculdades médias por natureza, curvado na sua liberação pelo cultivo do desenvolvimento mental, dependendo do Sravaka-pitaka, praticando as qualidades principais e secundárias, nascido numa época em que não havia nenhum Buda no mundo e gradualmente acaba com o sofrimento. Um Mahayanika (aquele que leva o Grande Veículo) é uma pessoa que, vivendo de acordo com a lei do Bodhisattvas, tendo faculdades acentuadas por natureza, curvado na liberação de todos os seres, dependendo do Cânone dos Bodhisattvas, amadurece outros seres, cultiva o domínio do Buda puro, recebe predições ou declarações (Vya-Karana) de Buddhas e finalmente realiza a Iluminação perfeita e completa (Samyaksambodhi).
Disto podemos ver que qualquer um que aspira se tornar um Buddha é um Bodhisattva, um Mahayanista, que entretanto pode morar em um país ou em uma comunidade popularmente e tradicionalmente considerada Theravada ou Hinayana. Semelhantemente, uma pessoa que aspira atingir Nirvana como um discípulo é entretanto um Sravakayanika ou Hinayanista que pode entretanto pertencer a um país ou uma comunidade considerada Mahayana. Assim está errado acreditar que não há nenhum Bodhisattvas em países Theravada ou que todos são Bodhisattvas em países Mahayana. Não é concebível que Sravakas e Bodhisattvas estejam concentrados em áreas geográficas separadas.
Mais adiante, Asanga diz que quando um Bodhisattva atinge finalmente a Iluminação(Bodhi) ele se torna um Arahant, um Tathagata (i.e. Buddha). Aqui deve ser entendido claramente que não só um Sravaka (o discípulo) mas também um Bodhisattva se torna um Arahant quando finalmente atingir o Budato. A posição Theravada é exatamente o mesmo: o Buddha é um Arahant -Araham Samma-SamBuddha - " "Arahant - Buddha Completamente e Perfeitamente Iluminado".
O Mahayana diz inequivocamente que um Buddha, um Pratyekabuddha e um Svaraka (discípulo), todos os três são iguais e parecidos com relação à sua purificação ou liberação das corrupções ou impurezas (Klesavaranavisuddhi).
Isto também é chamado Vimukti-Kaya (Corpo da Liberação), e nisto não há nenhuma diferença entre os três. Isso significa que não há nada de três Nirvanas diferentes ou Vimuktis para três pessoas. Nirvana ou Vimukti é a mesma para todos. Mas só um Buddha alcança a liberação completa de todas as obstruções para o conhecível, i.e., obstruções aoconhecimento (Jneyyavaranavisuddhi), mas não os Sravakas e os Pratyekabuddhas. Isto também é chamado Dharma-Kaya (Corpo do Dharma), e são nestas e em muitas outras qualidades, capacidades e habilidades inumeráveis, que o Buddha se torna incomparável e superior aos Sravakas e Pratyekabuddhas.
Esta visão Mahayana está totalmente de acordo com o Pali Theravada Tripitaka. No Samyutta-Nikaya diz o Buddha que o Tathagata (i.e. Buddha) e um bhikkhu (i.e. sravaka, discípulo) liberado por sabedoria são iguais no que diz respeito à suas Vimutta(liberação), mas o Tathagatha é diferente e distinto do bhikkhus liberado e que ele (o Tathagata) descobre e mostra o Caminho (Magga)que não era conhecido antes.
Estes três estados o Sravaka, o Pratyekabuddha e o Buddha são mencionados no Nidhikanda Sutta do Khuddakapatha, o primeiro livro do Khuddaka-nikaya, uma das cinco Coleções Theravada Tripitaka. Lá diz que pela prática das virtudes como caridade, moralidade, restrição ao ego, etc., a pessoa pode atingir, entre outras coisas, " a Perfeição do Discípulo " (Savaka-Parami), " a Iluminação do Pratyekabuddha " (Paccekabodhi) e " o domínio do Buddha" (Buddhabhumi). Estes são chamados também de Yanas (veículos).
Na tradição Theravada estes são conhecidos como Bodhis, mas não Yanas. O Upasaka-janalankara, um tratado de Pali que lida com as éticas para o budista secular escrito no 12º século por um Thera chamado Ananda na tradição Theravada do Mahavihara em Anuradhpura, Sri Lanka, diz que há três Bodhis: Savakabodhi (Sansc: Sravakabodhi), Paccekabodhi (Sansc: Pratyekabodhi) e o Sammasambodhi (Sansc: Samyaksambodhi). Um capítulo inteiro deste livro é dedicado à discussão destes três Bodhis em grande detalhe. Diz mais adiante que quando um discípulo atinge o Bodhi (Iluminação), ele é chamado de Savaka-Buddha (Sansc: Sravaka-Buddha).
Os Bodhisattvas
Igual ao Mahayana, o Theravada tem o Bodhisattva na posição mais alta. O Comentário do Jataka, na tradição do Mahavihara em Anuradhapura, nos fornece um exemplo preciso: No passado escuro, há muitos incalculáveis aeons atrás, Gotama o Buddha, durante sua carreira como Bodhisattva, era um asceta chamado Sumedha. Naquele tempo havia um Buddha chamado Dipankara com quem ele se encontrou e aos pés de quem ele teve a capacidade para alcançar o Nirvana como um discípulo (Sravaka). Mas Sumedha renunciou a isto e resolveu, por uma grande compaixão pelo mundo, se tornar um Buddha como Dipankara, para salvar outros. Então o Buda Dipankara declarou e predisse que este grande asceta ia, um dia, se tornar um Buddha e ofereceu oito punhados de flores a Sumedha. Igualmente, os discípulos de Dipankara Buddha que estavam com ele e que eram Arahants ofereceram para flores para o Bodhisattva. Esta história de Sumedha distintamente mostra a posição que um Bodhisattva ocupa no Theravada.
Apesar de na tradição Tharavada dizer que todos podem se tornar um Bodhisattva, ela não estipula ou insiste que todos devam ser um Bodhisattva, posição que não é considerada muito prática. A decisão é deixada ao indivíduo para que ele tome o Caminho do Sravaka ou o Caminho do Pratyekabuddha ou do Samyaksambuddha. Mas é sempre explicado claramente que o estado de um Samyaksambuddha é superior e que os outros dois são inferiores. Ainda que eles não sejam desconsiderados.
No 12º Século DC., em Myanmar (um país estritamente Theravada), o Rei Alaungsithu de Pagão, depois de construir o Templo de Shwegugyi, montou uma inscrição em verso Pali para registrar este ato de devoção no qual ele declarou sua resolução publicamente para se tornar um Buddha e não um Sravaka.
No Sri Lanka, no 10º Século, o Rei Mahinda IV (956-972 DC.) em uma inscrição proclamou que " ninguém mais a não ser os Bodhisattvas se tornariam os reis de Sri Lanka (Ceylon)." Desta forma acreditavasse que os reis de Sri Lanka eram Bodhisattvas.
Um Thera chamado Maha-Tipitaka Culabhaya que escreveu o Milinda-Tika (no 12º Século DC.) na tradição de Theravada do Mahavihara em Anuradhapura, diz no final término do livro que ele aspira se tornar um Buddha: Buddho Bhaveyyam" É possível que eu me torne um Buddha " que significa este autor é um Bodhisattva.
Nós nos deparamos com alguns manuscritos em folha de palma de textos budistas no Sri Lanka os nomes de até mesmo alguns copistas que registram seus desejos para se tornarem Buddhas, e eles também foram considerados Bodhisattvas. Ao término de uma cerimônia religiosa ou um ato de devoção, o bhikkhu que dá as bênçãos, normalmente previne a congregação para fazer uma resolução para atingir Nirvana através da realização de um dos três Bodhis - Sravakabodhi, Pratyekabodhi ou Samyaksambodhi - do modo que desejassem de acordo com suas capacidades.
Há muitos budistas, bhikkhus e leigos, no Sri Lanka, Myanmar, Tailândia e Camboja que são considerados países Theravada que levam o voto ou resolução para se tornarem Buddhas para salvar outros. Eles realmente são Bodhisattvas em níveis diferentes de desenvolvimento. Assim a pessoa pode ver isso em países Theravada que nem todos são Sravakas. Há Bodhisattvas também.
Há uma diferença significativa entre o Theravada e o Mahayana com respeito ao ideal de Bodhisattva. O Theravada, embora tenha o ideal do Bodhisattva como o mais alto e o mais nobre, não fornece uma literatura separada dedicada ao assunto. Os ensinos sobre o ideal do Bodhisattva e a carreira de Bodhisattva são encontrados espalhados nos lugares devidos na literatura Pali. O Mahayana, por definição, se dedica ao ideal do Bodhisattva, e eles são só produziram uma literatura notável no assunto como também criaram uma classe fascinante de Bodhisattvas míticos.
www.tisarana.cjb.net
Traduzido para o Portugues por Sérgio Pereira Alves Extraído de: "Gems of Buddhist Wisdom", Buddhist Missionary Society, Kuala Lumpur, Malaysia, 1996
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