Transformando as Energias Negativas
Thich Nhat Hanh
PALESTRAS DE DHARMA Transformando as Energias dos Hábitos Negativos
Proferido em idioma Inglês pelo Venerável Thich Nhat Hanh Transcribed and edited by Carol Fegan, Chan An Cu Proofread by Brendan Sillifant Traduzido ao Português por Claudio Miklos
Para livre distribuição, como exercício de Dana. Aqueles que desejarem oferecer uma doação ao Templo orientado por Thich Nhat Hanh, podem envia-la para o seguinte endereço:
Transcription Project Plum Village - Lower Hamlet Meyrac, Loubes-Bernac, 47120 FRANCE
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Meus queridos amigos, hoje é o sexto dia de agosto, 1998, e nós estamos no Upper Hamlet. Nós vamos falar em inglês.
Hoje eu gostaria de falar um pouco sobre o Céu, ou Paraíso, e o Inferno. Eu estive no Paraíso, e eu também estive no Inferno, assim eu tenho alguma experiência para compartilhar com vocês. Penso que se vocês se lembrarem bem, vocês perceberão que também estiveram no Paraíso, e também estiveram no Inferno. O Inferno é quente, e é difícil...
O Buddha, em uma das sua vidas anteriores, esteve no Inferno. Antes de se tornar um Buddha, ele sofreu muito em muitas vidas. Ele cometeu muitos enganos, como todos nós. Ele fez sofrer a si mesmo, e fez pessoas ao seu redor sofrerem. Às vezes ele cometeu grandes enganos, e é por isso que em uma das suas prévias vidas ele esteve no Inferno. Há uma coleção de contos sobre as vidas do Buddha, e há muitas centenas de histórias como esta. Estas histórias são organizadas sob o nome de "Contos de Jataka". Entre estas centenas de histórias, eu me lembro de uma muito vívidamente. Eu tinha sete anos, muito jovem, li aquela história sobre o Buddha e fiquei muito chocado. Mas eu não entendi aquela história completamente.
O Buddha estava no Inferno porque ele tinha feito algo errado, extremamente errado, e que causou muito sofrimento para ele e para outros. Por isso ele se achou no Inferno. Naquela vida ele atingiu ao fundo do poço de sofrimento, porque aquele Inferno era o pior de todos os Infernos. Com ele havia outro homem, e juntos eles tiveram que trabalhar muito duro, sob as ordens de um guardião que estava a cargo daquele Inferno. Era escuro, era frio, e ao mesmo tempo era muito quente. O guarda não parecia ter coração. Era como se ele não soubesse qualquer coisa sobre o significado de sofrer. Ele não sabia nada sobre os sentimentos de outras pessoas, assim ele torturava os dois homens naquele Inferno. Ele estava de posse dos dois homens, e sua tarefa era lhes fazer sofrer o máximo possível.
Eu penso que o guarda também sofreu muito. Era como se não houvesse compaixão dentro dele. Era como se não houvesse amor em seu coração. Como se ele não tivesse um coração. Ele se comportou como um ladrão. Ao se olhar para ele, ao escutá-lo, parecia que não era capaz de entrar em contato com sua humanidade, devido a sua brutalidade. Ele não era sensível à dor e ao sofrimento das pessoas. Por isso ele estava torturando os dois homens no Inferno, e lhes fazendo sofrer muito. E o Buddha era um destes dois homens em uma das suas vidas anteriores.
O guarda tinha um instrumento com três pontas de ferro, e toda vez que ele queria que os dois homens prosseguissem, usava-o para os empurrar pelas costas, e é claro que o sangue escorria. Ele não lhes permitia relaxar; e sempre os estava empurrando e empurrando e empurrando. Ele também parecia estar sendo empurrado por algo atrás de si. Alguma vez já sentiu este tipo de pressão às suas costas? Mesmo não havendo ninguém atrás, nós sentimos que estamos sendo empurrados implacavelmente para fazer coisas que não queremos fazer, e dizer coisas que não gostaríamos de dizer, e ao fazê-las acabamos provocando muito sofrimento para nós e para as pessoas ao redor. Talvez haja algo atrás de nós que nos está empurrando e empurrando. Às vezes nós dizemos coisas horríveis, e fazemos coisas horríveis que não quisemos dizer ou fazer, contudo somos empurrados por algo atrás de nós. Mas nós dizemos aquilo, ou fazemos aquilo, mesmo se não desejamos fazer. Isso era o que acontecia ao guarda no Inferno: ele pressionava, porque ele estava sendo pressionado. Ele causou muito dano para os dois homens. Os dois homens tiveram muito frio, muita fome, e ele sempre estava os empurrando e batendo, e lhes causando muitos problemas.
Uma tarde, o homem que era o Buddha em uma vida anterior vê o guarda tratar seu companheiro tão brutalmente que algo nele se insurge. Ele quis protestar. Ele sabia que se ele interviesse, se dissesse qualquer coisa, se tentasse falar ao guarda que batia no outro, ele seria espancado. Mas havia algo que estava surgindo em seu interior, de forma que ele queria intervir, e queria dizer: "Não o bata tanto. Por que você não lhe permite descansar? Por que você tem de o apunhalar e bater e pressionar tanto?" Profundamente dentro do Buddha estava surgindo uma pressão, e ele quis intervir mesmo sabendo perfeitamente bem que se o fizesse, ele seria surrado pelo guarda. Aquele impulso era muito forte, e ele não pôde mais segurá-lo. Ele se virou, encarou o guarda sem coração, e disse, "Por que você não o deixa em paz um pouco? Por que você continua surrando-o e empurrando-o desta forma? Você não tem coração?"
Isso foi o que ele disse, este homem que viria a ser o Buddha. Quando o guarda o viu protestar assim, e o ouviu, ficou muito irritado e enterrou seu tridente direto no peito do Buddha. Como resultado o Buddha morreu imediatamente, e renasceu no mesmo minuto em um corpo humano. Ele escapou do Inferno, e se tornou um ser humano vivendo na terra, só porque a compaixão nasceu nele, forte o bastante para ele ter a coragem de intervir para ajudar o seu companheiro no Inferno.
Quando eu li esta história, fiquei surpreso, e cheguei à conclusão que até mesmo no Inferno havia compaixão. Essa era uma verdade muito aliviadora: até mesmo no Inferno há compaixão. Você pode imaginar? E onde quer que a compaixão exista, não é assim tão ruim. E, sabe de uma coisa? O outro homem viu o Buddha morrer. Ele ficou muito agastado, e pela primeira vez ele foi tocado pela compaixão: a outra pessoa deve ter tido um pouco de amor, um pouco de compaixão para ter a coragem para intervir em seu favor. Isso também deu lugar a um pouco de compaixão nele. Assim ele olhou para o guarda, e disse, "Meu amigo estava certo, você não tem coração. Você apenas pode criar sofrimento para si e para outras pessoas. Eu não penso que você seja uma pessoa feliz. Você o matou." E depois que disse isso o guarda também ficou muito irritado com ele, usou o forcado e o plantou no estômago do segundo homem, que também morreu imediatamente e veio a renascer como ser humano na Terra. Ambos escaparam do Inferno, e tiveram uma chance para recomeçar, como seres humanos plenos.
E o que aconteceu ao guarda, o que não teve nenhum coração? Ele sentiu-se muito só, porque naquele Inferno haviam apenas três pessoas e agora as outras duas estavam mortas. Ele começou a ver que aqueles dois não lhe eram muito queridos, ou muito agradáveis, mas ter pessoas que vivam conosco é uma coisa maravilhosa. Agora as duas outras pessoas estavam mortas, e ele estava só, totalmente só ali. Ele não pôde agüentar aquele tipo de solidão, e o Inferno ficou muito difícil para ele. Em meio àquele sofrimento ele aprendeu algo: aprendeu que não é possível se viver só. O Homem não é nosso inimigo. Você não pode odiar o homem, você não pode mata-lo, você não pode reduzi-lo a uma nulidade, porque se você mata o homem, com quem você irá viver? Ele fez um voto de que se ele tivesse de dar cuidado a outras pessoas no Inferno, ele aprenderia a lidar com elas de um modo mais agradável, e uma transformação aconteceu no coração dele. De fato, ele tinha coração. Acreditar que ele não tinha coração é errado - todo o mundo tem um coração. Nós precisamos de algo ou alguém para tocar este coração, transformá-lo em um coração humano. Assim naquela hora o sentimento de solidão, o desejo de estar com outros humanos, nasceu nele. Eis porquê ele decidiu que se tivesse que guardar outras pessoas no Inferno, ele saberia lidar com elas com mais compaixão. Naquele momento, abriram-se as portas do Inferno, e um bodhisattva apareceu, com todo seu esplendor. O bodhisattva disse, "A Bondade nasceu em você, e assim você não tem que suportar este Inferno por mais tempo. Você morrerá depressa e logo renascerá como um humano."
Esta é a história que eu li quando tinha sete anos. Eu tenho de confessar que na ocasião em que li isto eu não entendi completamente. Não obstante, a história teve um impacto forte em mim. Creio que este era meu conto de Jataka favorito. Eu percebi que no Inferno pode haver compaixão. É possível para nós dar à luz a compaixão até mesmo nas situações mais difíceis. Em nossas vidas diárias, de vez em quando, nós criamos o Inferno para nós mesmos e para as pessoas que gostamos. O Buddha tinha feito isto várias vezes antes que ele se tornasse um Buddha. Ele criou sofrimento para si e para outras pessoas, incluindo sua mãe e seu pai. É por isso que, em um das suas vidas anteriores, ele teve que ir ao Inferno. O Inferno é um local onde nós aprendemos lições para amadurecermos, e o Buddha aprendeu bem no Inferno. Você sabe o que aconteceu depois que ele renasceu como um humano? Ele continuou praticando a compaixão, e a partir daquele dia ele continuou fazendo progresso na direção da compreensão e do amor, e ele nunca regressou novamente para o Inferno, exceto quando ele quis ir lá para ajudar as pessoas que sofriam.
Eu estive no Inferno, muitos tipos de Inferno, e eu também notei que até mesmo no Inferno a compaixão é possível. Com a prática da meditação budista, pode muito bem prevenir a manifestação do Inferno. E se Inferno vier a manifestar-se, você terá modos para transformar este Inferno em algo muito mais agradável. Quando você tem raiva, o Inferno nasce. A raiva lhe faz sofrer muito, e não só faz você sofrer, mas as pessoas que você também ama sofrem ao mesmo tempo. Quando nós não sabemos praticar, de vez em quando nós criamos o Inferno em nossas próprias famílias. Quando nós vamos íamos para a escola, nossos professores nunca nos ajudaram a lidar com estas dificuldades. Ele ou ela não nos ensinou como transformar o Inferno em algo melhor, igual ao Paraíso. Mas quando você vem a um centro de prática como o do Plum Village, os irmãos e irmãs que vivem aqui poderá lhe ensinar como prevenir a manifestação do Inferno. Se acontecer do Inferno surgir, o que você pode fazer para este Inferno ser transformado em uma atmosfera de calma, de frescor, de alegria?
Hoje eu gostaria que os jovens aprendessem mais sobre esta prática de transformar o Inferno em algo mais agradável. Você sabe que as práticas de respiração atenta, de andar atento, de sorrir, são muito importantes. Você pensa que você pode caminhar - claro que você pode caminhar. Você pensa que você pode respirar - de fato, você respira diariamente, todo o dia e toda a noite. Você pensa que você pode sorrir. Sim, mas o sorriso aqui é um pouco diferente, a respiração aqui é um pouco diferente, o andar aqui é um pouco diferente. Nós chamamos isto respirar conscientemente, andar conscientemente, sorrir conscientemente, e se você domina estes métodos de prática, você tem instrumentos para transformar o Inferno no Céu.
Inferno pode ser criado pelo Pai, ou Mãe, ou irmã, ou irmão, ou você. Você criou o Inferno muitas vezes em sua família, e toda vez que o Inferno aparece, não só faz as outras pessoas sofrerem, mas você também sofre. Assim como fazer a compaixão surgir em vocês? Eu penso que esta é a chave da prática. Se entre três ou quatro pessoas há uma pessoa que tem a compaixão dentro se si, uma pessoa que é capaz de sorrir conscientemente, de respirar conscientemente, de andar conscientemente, ela ou ele pode ser a salvadora de toda sua família. Ele ou ela representarão o papel do Buddha no Inferno, porque a compaixão nasceu primeiro nele, e aquela compaixão será vista e experimentada por outra pessoa, e mais outra. Pode ser que aquele Inferno venha a ser transformado em só um minuto ou menos. É maravilhoso!
Quando você está na escola você aprende muita redação e leitura, matemática e ciência, e muito mais, mas você não aprende estas coisas. Eu penso que os monges e as monjas, os irmãos e irmãs aqui em Plum Village, podem lhe contar como praticar para não permitir que o Inferno venha a se manifestar; e quando o Inferno já existir, o que fazer e o que não fazer de forma que este Inferno não continue, mas que seja transformado em algo maravilhoso. A alegria e a felicidade são possíveis, e se nós formos capazes de aprender um pouco mais sobre a prática da consciência, nós poderemos fazer a vida muito mais agradável em nossa família, e também na escola e na sociedade.
Amanhã eu lhes contarei outra história. Este é o fim de sua palestra do Dharma, e quando você ouvir o pequeno sino, por favor se levante e se curve ao Sangha antes de você sair para continuar o debate do Dharma. O tópico será "Como Transformar o Inferno no Céu."
Tenham um bom dia!
(Sino)
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Queridos amigos, a energia que nos pressiona para fazer o que nós não queremos fazer, dizer o que não queremos dizer, é chamada "energia de hábito", aquela energia de hábitos negativos em nós. Vasana é a palavra em sânscrito. É muito importante que reconheçamos tal energia em nós. Esta energia foi transmitida a nós por muitas gerações de antepassados, e nós continuamos cultivando-a. É muito poderosa. Nós somos inteligentes o bastante para saber que se fazemos isto ou dizemos aquilo, nós causaremos dano em nossos relacionamentos. Todavia quando chega o momento, quando nos achamos naquela situação, nós dizemos ou fazemos o que não devíamos, muito embora saibamos que será destrutivo agir assim. Por que? Porque isto é mais forte que nós, afirmamos. Está nos pressionando todo o tempo. Por isso a prática direciona-se a liberar-nos daquele tipo de energia de hábito.
Eu me lembro de um dia quando estava sentado em um ônibus na Índia, com um amigo, visitando comunidades de intocáveis. Eu estava lá para ajudar a levar a prática budista a nossos amigos que pertencem à Sociedade de Ambedkar. Eu me lembro que um dia em Nagpur, quinhentos mil intocáveis formalmente receberam os Cinco Treinamentos de Consciência, porque eles queriam se liberar de sua situação opressiva, e eles precisavam de força espiritual, prática espiritual. Mas depois de seu líder, Dr. Ambedkar, morrer, o movimento não sustentou-se com energia. Assim eu tentei ir lá e ajudar.
Aquele amigo meu estava sentado em meu lado direito no ônibus. Nós fomos a muitos distritos na Índia para oferecer dias de consciência, conferências e retiros públicos. A paisagem era bonita, com palmeiras, templos, búfalos, campos de arroz, e eu estava desfrutando o que via pela janela. Quando o olhei, eu vi que ele parecia muito tenso, e não estava desfrutando a viajem como eu. Ele estava lutando com algo. Eu disse, "Meu querido amigo, não há nada para você se preocupar no momento. Eu sei que sua preocupação é fazer minha viagem agradável, e me fazer feliz, mas saiba que eu estou contente no momento, assim desfrute a viajem. Recline-se, sorria. A paisagem está muito bonita." Ele estava muito tenso. Ele disse, "Certo," e se reclinou. Mas apenas dois minutos depois, quando olhei para trás, ele estava tão tenso quanto antes. Ele ainda estava lutando, lutando e lutando. Ele não era capaz de abandonar a luta, aquela luta que tem existido por muitos milhares de anos. Ele não era capaz de viver o agora e tocar profundamente a vida no momento presente, o que vinha a ser a minha prática e ainda é a minha prática. Ele mesmo era como um intocável. Agora ele tem uma família, um bonito apartamento para viver, um bom emprego. Não se parece um intocável, mas ainda é um, porque continua a carregar todas as energias e os sofrimentos de todos os seus antepassados nos muitos milhares de anos passados. Eles lutam durante o dia, lutam durante a noite, até mesmo em sonhos, e não são capazes de fluir com a vida e relaxar.
Nossos antepassados podem ter sido mais afortunados que os dele, mas por que muitos de nós nos comportamos da mesma forma? Nós não nos permitimos relaxar, viver no aqui e agora. Por que nós tentamos sempre correr e correr, até mesmo quando nós estamos tomando nosso café da manhã, até mesmo enquanto tomamos nosso almoço, enquanto caminhamos, enquanto nos sentamos? Há algo nos empurrando e nos puxando, todo o tempo. Nós não somos capazes de estarmos livres para viver a vida profundamente neste mesmo momento. Suas depressões, suas enfermidades, são um resultado deste tipo de comportamento, porque vocês nunca se permitem estar livres. Vocês procuram ficar ocupados toda sua vida, e acreditam que a felicidade e paz não são possíveis no aqui e agora, que isso só pode ser possível no futuro. Por isso vocês gastam toda sua energia para correr para lá, esperando que em algum dia no futuro vocês terão um pouco de felicidade ou um pouco de paz. O Buddha enfatizou este assunto muito claramente. Ele disse, "Não fiques preso ao passado, porque o passado já se foi. Não te preocupes sobre o futuro, porque o futuro ainda não está aqui. Há somente um momento para viveres, e esse é o momento presente. Retornes ao momento presente e viva este momento profundamente, e tu estarás livre".
O Buddha disse que viver feliz no momento presente é algo possível: Drsta dharma sukha vihari. Drsta Dharma significa as coisas que estão aqui, que acontecem no aqui e agora. Sukha quer dizer felicidade. Vihari significa morar, viver. Viver feliz no momento presente é a prática. Mas como é possível se liberar para realmente viver no aqui e agora? A meditação budista oferece a prática do Parar. Parar é muito importante, porque nós temos corrido toda nossa vida, e também em todas nossas prévias vidas. Nossos antepassados, nosso avô, nossa avó, viviam correndo, e agora eles continuam correndo em nós. Se nós não praticamos, então nossas crianças nos imitarão e continuarão correndo no futuro.
Assim nós temos que aprender a arte de parar, L´arret (em Françês). O termo chinês para "parar" é zhi, e se você for à China verá muitos destes sinais na rua. Significa "Pare". Se você é um motorista, você entenderá. Essa é exatamente a palavra usada nas escrituras: pare. Pare de correr, deixe de ser empurrado por aquela energia de hábito. Mas em primeiro lugar você tem que reconhecer que há uma energia deste tipo em você, sempre lhe pressionando. Mesmo se você quer parar, ela não lhe permite parar. De manhã, muitos de nós são capazes de desfrutar nosso café da manhã, muitos de nós são capazes de estar no aqui e agora. Ontem mesmo eu tomei café da manhã com dois monges principiantes. Nós não tivemos coisas exageradas, mas eu olhei os dois noviços e disse, "É maravilhoso nós estarmos tomando café da manhã juntos. É a coisa mais maravilhosa, a coisa mais prazerosa. Vocês acham que há algo mais maravilhoso do que apenas sentarmos juntos e tomarmos nosso café da manhã, um professor e dois noviços?" Um noviço me mostrou um largo sorriso. Ele entendeu. Não só entendeu minha declaração, mas entendeu a verdade de que a felicidade era real porque éramos capazes de estar juntos e reconhecemos a verdadeira presença um do outro. Naquele momento a vida era real. Mas muitos de nós, enquanto tomamos nosso café da manhã, realmente não estão lá. Nós continuamos correndo. Nós temos muitos projetos, nós temos muitas preocupações, nós temos muitas ansiedades, e nós não podemos nos sentar como um Buddha.
O Buddha sempre está sentado em uma flor de lótus, muito fresca, muito firme. Se somos capazes de nos sentar aqui e agora, qualquer lugar que nós sentarmos se tornará uma flor de lótus - seja uma raiz de árvore, um gramado, um banco de pedra - quaisquer uma destas coisas se torna uma flor de lótus para você se sentar, porque você está realmente sentado, você realmente está lá. Seu corpo e sua mente juntos, você está livre de todas as preocupações, de todos os pesares, de toda a raiva. Embora cada de nós durante a meditação tenha uma almofada, a almofada pode ser o Inferno, a almofada pode ser o Céu, a almofada pode ser uma flor de lótus, a almofada pode ser de espinhos. Muitos de nós nos sentamos na almofada, mas é como se sentar em espinhos. Nós não sabemos como desfrutar a flor de lótus.
Alguns anos atrás o Sr. Nelson Mandela, o presidente de África do Sul, veio aqui [na França] para a sua primeira visita oficial, para conhecer o presidente francês, e a imprensa lhe perguntou o que ele mais gostaria de fazer. Ele disse, "O que eu mais quero é simplesmente me sentar e não fazer nada. (Risos) Desde minha saída da prisão eu não tive este prazer, eu sempre tenho que fazer algo. Então meu desejo mais profundo é poder me sentar e não fazer nada." Aqui em nosso Sangha há três crianças da África do Sul. Uma delas se tornou um monge, e duas outras ainda são praticantes leigos. Eles desfrutam a prática, e eu normalmente lhes digo, "Por favor, sentem-se pelo seu presidente. Se ele não pode se sentar, então vocês tem que se sentar por ele. Diariamente nós temos três ocasiões para sentar, e se vocês sabem da necessidade de seu presidente, e de muitas pessoas em seu país, vocês gostariam de se sentar por eles, e sentarem-se de tal modo que a paz e a alegria tornam-se possíveis." Se sentar não é como um trabalho duro, sentar é o prazer da estabilidade, da paz, da vivência do momento presente. Nós temos que saber reconhecer a energia de hábito toda vez que ela se manifesta. Ela sempre dita nosso comportamento e nos pressiona para fazer e dizer coisas, assim nós temos que praticar a consciência, para que assim possamos reconhecê-la toda vez que se manifestar.
Um jovem da América veio aqui para o retiro de verão aproximadamente dez anos atrás. Ele desfrutou as três semanas de prática no Upper Hamlet, gostou de caminhar, de se sentar, respirar e cozinhar, e assim por diante. Um dia nós organizamos uma cerimônia chamada Cerimônia de Ação de graças. Porque nós também temos nosso próprio modo de celebrar e dar graças - para nossos pais que nos trouxeram à vida, para nossos professores que nos mostram o modo de viver felizes no momento presente, para nossos amigos que nos apóiam em momentos difíceis, e para todos os seres nos reinos animal, vegetal e mineral. Aquele dia nós praticamos o estar consciente da existência destes seres, e viver de modo a sempre agradecer pelo seu apoio.
Aquele jovem foi convidado por alguns conterrâneos americanos para ir a Ste. La de Foy Grande e fazer algumas compras, porque cada grupo nacional tinha de cozinhar algo muito especial de seu país para colocar no altar coletivo dos antepassados. Se você fosse chinês, então você cozinharia algo chinês, algo muito especial de seu país. Quando ele estava no mercado fazendo compras, subitamente um tipo de energia surgiu e ele ficou inquieto, agitado. Ele perdeu a sua paz e a sua beleza. Durante as três semanas em Upper Hamlet ele nunca se comportou assim, porque estava entre o Sangha, e todo o mundo estava praticando o caminhar e sentar, e fazendo coisas de um modo calmo, aprendendo a viver no momento presente. A prática no Upper Hamlet era intensa, e ele se achou num Sangha que estava praticando bem. Por isso ele desfrutou daquele tipo de liberdade, daquele tipo de estabilidade, daquele tipo de alegria. Agora ele estava só no mercado, e de repente ele se sentia apressando e inquieto, tentando fazer as coisas rapidamente, e ir para a casa no Upper Hamlet. Mas como já tinha praticado durante três semanas completas, ele pôde reconhecer o que ia dentro de si. Ele teve um tipo de insight: ele viu que aquela era a energia de hábito da sua mãe, porque ela era sempre assim, apressada, se apressando, agitada, inquieta. No momento em que ele adquiriu este insight, ele retornou para a sua prática de inspiração e expiração, e disse, "Oi, Mamãe!" e então aqueles sentimentos de inquietude e agitação desapareceram. Ele soube que não estava cercado pelos irmãos e irmãs do seu Sangha, e lá em Ste. La de Foy Grande ele tinha que usar a respiração consciente como se fosse o seu Sangha. Naquele momento em diante ele continuou a prática de respiração atenta e permaneceu estável, alegre e calmo o tempo inteiro em que fazia compras. Quando ele voltou para cá nos contou a história.
De forma que a energia de hábito negativo que nos pressiona pode ter sido cultivada por nós durante muitos anos passados, mas também pode ter sido transmitida a nós por nossa mãe, ou nosso pai, ou nossos antepassados. E essa é nossa herança.
(Sino)
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Nossa alegria, nossa paz, nossa felicidade depende muito de nossa prática em reconhecer e transformar nossas energias de hábito. Há energias de hábito positivas que nós temos que cultivar, há energias de hábito negativas que nós temos que reconhecer, conter e transformar. A energia através da qual nós fazemos estas coisas é a Consciência. Consciência é um tipo de energia que nos ajuda a estar atentos ao que está acontecendo. Então, quando a energia de hábito se mostra, nós sabemos imediatamente. "Olá minha pequena energia de hábito, eu sei que você está aí. Eu cuidarei muito bem de você." Reconhecendo-a como ela é, você estará de controle da situação. Você não tem de lutar com ela; de fato, o Buddha não recomenda que se lute assim, porque aquela energia de hábito é você, e você não deveria lutar contra si mesmo. Você tem que gerar a energia de consciência que também é você, e esta energia positiva fará o trabalho de reconhecer e conter a outra. Toda vez que você contêm sua energia de hábito, você ajuda a transformá-la um pouco. A energia de hábito é como uma semente dentro de sua consciência, e quando ela se torna uma fonte de energia, você tem que reconhecê-la. Você tem que trazer sua consciência ao momento presente, e assim conter a energia negativa: "Olá, minha energia de hábito negativa. Eu sei que você está aí. Eu estou aqui com você." Depois de um, dois ou talvez três minutos, aquela energia voltará à forma de semente, para manifestar-se novamente mais tarde. Você tem que estar muito alerta.
Toda vez que uma energia negativa é contida pela energia de consciência, perderá um pouco de sua força à medida em que retorna como semente ao mais baixo nível de percepção. A mesma coisa é verdadeira para todas as outras formações mentais: seu medo, sua angústia, sua ansiedade, e seu desespero. Elas existem em nós na forma de sementes, e toda vez que uma das sementes é regada, se torna uma zona de energia no nível superior de nossa consciência. Se você não souber cuidar dela, causará dano, irá nos pressionar para fazer ou dizer coisas que magoarão a nós mesmos e as pessoas que nós amamos. Então, gerar a energia de consciência para reconhecer, conter e tomar conta destes hábitos é a prática. E a prática deve ser feita de um modo muito suave e não-violento. Não deve haver nenhuma luta, porque quando você luta, você cria danos dentro de si. A prática budista está baseada na percepção [insight] da não-dualidade: você é amor, você é consciência, mas também é aquela energia de hábito que está dentro de você. Meditar não pretende transformá-lo em um campo de batalha, o certo lutando contra o errado, o positivo lutando contra o negativo. Esta não é uma atitude budista. Assim é que, baseado na percepção da não-dualidade, a prática deveria ser não-violenta. A consciência que contêm a raiva é como uma mãe que abraça seu filho, a irmã maior que abraça a irmã mais jovem. O abraço sempre traz um efeito positivo. Você pode trazer alívio, e pode fazer a energia negativa perder um pouco de sua força, apenas a contendo.
(Thay desenha em um quadro) Este círculo representa nossa consciência, e a parte mais baixa é chamada de consciência de armazenamento. Em francês nós traduzimos normalmente isto como le trefonds. A parte superior é chamada a consciência mental, normalmente traduzida como le mental. Na base da consciência de armazenamento, são armazenados muitos tipos de sementes: a semente do amor, a semente da compreensão, a semente do perdão, a semente do desespero, a semente da raiva - positiva e negativa -, elas são todas mantidas e preservadas na consciência de armazenamento. E toda vez que uma destas sementes é tocada ou regada, se manifestará na consciência mental superior como uma zona de energia, "energia número um." Criando seu medo, seu ciúme, seu desespero, sua depressão.
Um praticante é alguém que tem o direito de sofrer, mas que não tem o direito de não praticar. Pessoas que não são praticantes permitem que sua a dor, tristeza e angústia os subjugem, os pressione para dizer e fazer coisas que não desejam. Nós, que nos consideramos praticantes, temos o direito de sofrer como todo mundo, mas nós não temos o direito de não praticar. Então, nós temos que fazer algo, buscar coisas positivas dentro de nossos corpos e nossa consciência, tomar controle de nossas situações. É normal sofrer, é normal ficar bravo, mas não é normal se permitir ser engolfado pelo sofrimento. Nós sabemos que em nossos corpos e nossa consciência existem elementos positivos que nós podemos buscar em nosso favor. Nós temos que mobilizar estes elementos positivos para proteger a nós mesmos e cuidar das coisas negativas que estão se manifestando em nós.
O que normalmente fazemos é chamar na semente da consciência para vir à tona e também se manifestar como uma zona de energia, que nós chamaremos "energia número dois." A energia de consciência tem a capacidade de reconhecer, conter e aliviar o sofrimento, acalmando-o e também transformando-o. Em cada um de nós existe a semente da consciência, mas se nós não praticarmos a arte de viver atentos, então aquela semente pode tornar-se muito pequena. Nós poderemos estar atentos, mas nossa consciência será muito pobre. Claro que, quando você dirige seu carro, você precisa de sua consciência. Uma quantia mínima de consciência é requerida para que você dirija, caso contrário você se envolveria em um acidente. Nós sabemos que cada um de nós tem a capacidade de estar atento. Quando você opera uma máquina precisa de uma certa quantia de consciência, caso contrário acontecerá un accident de travail (um acidente de trabalho). Em nosso relacionamento com outra pessoa, nós precisamos também de alguma quantia de consciência, caso contrário nós iremos prejudicar a relação. Nós sabemos que todos nós temos um pouco de energia de consciência, e esse é o tipo de energia que nós precisamos para cuidar de nossa dor e nossa tristeza.
Consciência é algo que todos nós podemos criar. Quando você bebe um pouco de água, e sabe que está bebendo água, isto é consciência. Nós chamamos isto de consciência de beber. Quando você inspira, e está atento que está inspirando, isso é consciência de respiração, e quando você caminha, e sabe que está caminhando, então isso é consciência de andar. Consciência de dirigir, consciência de cozinhar… vocês não precisam estar na sala de meditação para praticar a consciência. Você pode estar lá na cozinha, ou no jardim, e continuar cultivando a energia de consciência. Esta é a prática mais importante dentro de um centro de prática budista: você faz tudo atentamente, porque precisa muito desta energia, para sua transformação e cura. Você sabe que pode fazer isto, e o fará melhor se estiver envolvido por uma comunidade de irmãos e irmãs que estão fazendo as mesmas coisas que você. Sozinho você poderia esquecer, e poderia abandonar sua prática depois de alguns dias ou alguns meses. Mas se você vive permanentemente com um Sangha, então será apoiado, e sua consciência ficará mais forte e mais forte diariamente, graças ao apoio do Sangha.
Para aqueles entre nós que praticam a consciência como uma arte de vivência diária, a semente de consciência guardada em nossa consciência de armazenamento fica muito forte; e a qualquer hora que nós a tocamos, nós a chamamos para nos ajudar, então ela estará pronta para nós, como a mãe que, embora esteja trabalhando na cozinha, sempre está pronta para atender aos gritos do bebê toda vez que ele chorar. Assim nossa consciência está lá de forma que nós a possamos reconhecer, porque a consciência é definida principalmente como a energia que nos ajuda a saber o que está acontecendo no momento presente. Eu bebo água, eu sei que estou bebendo a água. Bebendo a água é o que está acontecendo. Eu caminho atentamente, piso atentamente, e sei que estou fazendo passos atentos. Consciência de andar: Eu estou consciente que meu caminhar está acontecendo, e eu me concentro no andar. A consciência tem o poder de trazer concentração. Quando você bebe atentamente sua água, você se concentra em seu ato de beber. Se você se concentra, a vida se aprofunda, e você é capaz de adquirir mais alegria e estabilidade apenas por beber sua água atentamente. Você pode dirigir atentamente, você pode cortar atentamente cenouras, e quando faz atentamente tais coisas, sente que você está concentrado. Você vive cada momento de sua vida diária profundamente, e todos nós sabemos que a consciência e a concentração produzirão a percepção [insight] que nós precisamos.
Se você não pára, se você não fica atento, se você não se concentra, então não há nenhuma chance de você adquirir tal "insight". Meditação budista significa parar, se acalmar, se concentrar, e dirigir seu olhar profundamente no que ocorre no aqui e agora. O primeiro elemento da meditação budista é o parar, e o segundo elemento é olhar profundamente. Parar significa não correr mais, estar atento ao que está acontecendo no aqui e agora. (Sons de escrita.) A consciência lhe permite estar no aqui e agora, com o corpo e mente unidos. Em nossas vidas diárias acontece muito freqüentemente que nosso corpo esteja lá, mas nossa mente está em outro lugar, no passado ou no futuro, ou presa de nossos projetos, nossos medos, nossas raivas. A consciência nos ajuda a trazer a mente de volta ao corpo, e quando faz isto você subitamente fica verdadeiramente presente no aqui e agora. Assim você pode definir a consciência como a energia que lhe ajuda a estar completamente presente. Se você está completamente presente, com sua mente e corpo verdadeiramente unidos, você imediatamente fica totalmente presente e totalmente vivo. É aquela energia que lhe ajuda a estar vivo e presente. Você pode trazer consciência a si de muitas formas: por apenas respirar, caminhar, olhar, cozinhar, por tomar café da manhã… pois você pode usar o ato de tomar café da manhã como um exercício para unir corpo e mente.
Eu gostaria de definir a consciência como a prática de estar ali, corpo e mente unidos. A prática de estar totalmente presente, a prática de estar totalmente vivo. Você tem um encontro com a vida - e você não deveria perdê-lo. O tempo e o espaço de seu encontro são o aqui e o agora. Se você perde o momento presente, se você perde o aqui e o agora, você perde seu encontro com a vida, o que é muito sério. Assim aprender a voltar para o momento presente, estar completamente presente, estar completamente vivo, é o início da meditação. Uma vez estando ali, uma outra coisa também está lá: Vida. Se você não estiver disponível para a vida, então a vida não estará disponível para você. Quando você está com um grupo de pessoas e contempla a lua ascendente, você precisa estar atento, você precisa estar no aqui e agora. Se você se deixar perder no passado ou no futuro, a lua cheia não será para você, mas para as outras pessoas que estão ali. Assim, se você sabe praticar a respiração atenta, você pode trazer sua mente de volta a seu corpo, e pode se fazer plenamente presente e plenamente vivo, e então a lua será para você. Por isso eu digo que se você estiver lá, uma outra coisa estará lá também: Vida.
A Consciência ajuda-o a realizar o ato de parar. Você deixa de correr porque realmente está ali. Você deixa de ser envolvido por sua energia de hábito, por seu esquecimento. E quando você toca algo bonito, com consciência, este algo se torna um elemento refrescante e curativo para você. Com consciência nós podemos tocar as coisas positivas, e também podemos tocar as coisas negativas. Se há alegria, a consciência nos permite reconhecer isto como alegria, e a consciência nos ajuda usufruir desta alegria e a permite crescer, e nos ajuda no trabalho de transformação e cura.
Há elementos dentro de nós que não estão errados. Há elementos ao redor de nós que não estão errados. E a primeira tarefa dos meditadores é serem capazes de tocar e reconhecer estes elementos positivos, porque eles têm o poder de nutrir e curar. Se você é um psicoterapeuta, poderia gostar de tentar isto com seus pacientes: em vez de falar sobre o que está errado, você os convida a falar sobre o que não está errado com eles e ao seu redor. Às vezes nós estamos muito fracos ou muito doentes para conter apenas nossos elementos negativos. Antes que uma cirurgia seja feita, um doutor examinará o paciente para ver se aquela pessoa tem bastante força para resistir à cirurgia. Se a pessoa é muito fraca, o doutor tentará, através da nutrição e outros meios, a ajudar o corpo do paciente a se fortalecer antes da operação ser feita. Nós fazemos a mesma coisa aqui. Se uma pessoa sofre muito, nós não deveríamos começar falando sobre o que está errado.
Nosso corpo e nossa consciência é como um jardim: podem haver várias árvores morrendo naquele jardim, mas isso não significa que o jardim inteiro esteja morto. Talvez a maioria das árvores ainda seja vigorosa, bonita. Por isso que você não deveria permitir o negativo lhe subjugar, porque ainda há muitas coisas que estão bem em nossos corpos e nossa consciência. O terapeuta deveria ajudar seu ou sua paciente a desenvolver a habilidade de identificar estes elementos positivos dentro dele ou dela, e ao redor dele ou dela. E o terapeuta, claro está, tem que poder fazer isso por ele ou ela, e se tornar um co-participante. O terapeuta pode convidar seu paciente para uma sessão de meditação andando, e durante esta sessão ele tentará pôr o paciente em contato com os elementos positivos dentro dele ou ao redor dele. Na prática budista isto é muito importante. Consciência é a energia que nós geramos, e primordialmente nós queremos esta energia para nos ajudar a estar em contato com coisas positivas - alegria e felicidade.
Semana passada nós estudamos o discurso dos dezesseis exercícios da respiração atenta, o Sutra da Consciência Plena à Respiração, e nós vimos muito claramente que o Buddha era muito compassivo. Dentre os dezesseis exercícios de respiração atenta, seis deles têm o propósito de nos ajudar a contactar os aspectos positivos da vida dentro e ao redor de nós. Por isso a meditação pode ser descrita como um alimento, uma nutrição para nós. Consciência é o tipo de energia que você cultiva com a prática de andar, respirar, sentar, comer, cozinhar, e assim por diante. Nós não deveríamos desperdiçar um minuto de nossas vidas diárias. Nós podemos usar todo momento de nossas vidas diárias para gerar mais energia de consciência.
Em Plum Village, quando você vai para a cozinha, verá que as pessoas na cozinha estão praticando. Aquele grupo de pessoas sabe que hoje é seu turno de cozinhar para a comunidade, e eles sabem que é possível tornar o ato de cozinhar para a comunidade em uma prática, e a motivação é o amor, a motivação é a vontade de praticar. Nós podemos iniciar antes de começar o trabalho de cozinhar, eles sempre oferecem incenso, e eles fazem alguns cânticos, de forma que eles se lembrarão que o processo inteiro de cozinhar é uma prática. Eles não falam. De vez em quando eles têm que se comunicar para coordenar o trabalho, mas eles o fazem atentamente.
De vez em quando eu vou à cozinha, e se eu vejo um monge, monja ou um leigo fazendo algo como cortar cenouras, eu irei parar e contemplar, e olhar. Eu ficarei lá durante vários segundos, inspirarei e expirarei, e minha presença perto daquela pessoa às vezes é muito útil. Aquela pessoa poderia estar perdida em pensamentos, mas comigo lá ela voltará ao ato atento de cortar cenoura muito depressa. Às vezes eu posso perguntar, "Meu querido amigo, o que está fazendo"? Normalmente o monge, monja ou leigo me olharão e sorrirão, e isso será suficiente. Porque eles sabem que minha presença e minha pergunta não necessitam de uma resposta. E se vocês disserem, "Thay, eu estou cortando cenouras", esta seria a pior resposta pois eu estou lá, e estou lhes vendo cortar cenouras. Vocês não tem de me falar. Minha pergunta é, "você está desfrutando este ato como uma prática?" Por isso vocês podem responder assim, " Thay, eu não estou fazendo nada," ou "Thay, eu estou respirando," ou vocês não dizem nada e sorriem. Assim a presença de um irmão de Dharma, a presença de uma irmã de Dharma, é para lhe ajudar a voltar ao aqui e agora e desfrutar sua prática de estar atento. Cortar cenouras pode ser muito prazeroso assim como respirar, assim como caminhar. Enquanto você faz estas coisas, você realiza o parar. Você não corre mais, você está uno com o que quer que exista no momento presente. Você está inteiramente com a cenoura.
(Sino)
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Nós deveríamos investir cem por cento de nós mesmos no negócio de corte de cenoura. Nada mais. Você tem que cortar a cenoura com tudo de si. Enquanto estiver cortando a cenoura por favor não tente pensar na palestra de Dharma, apenas corte a cenoura do melhor modo que você puder, tornando-se uno com a cenoura, tornando-se uno com o ato de cortar. Viva profundamente aquele momento de cortar a cenoura. É tão importante quanto a prática de meditação sentada. É tão importante quanto dar uma palestra de Dharma. Quando você cortar a cenoura, corte a cenoura com todo seu ser. Isso é consciência. Isso é produzir sua verdadeira presença para tornar-se completamente vivo. A prática não é difícil, especialmente quando você está cercado por um Sangha onde todo mundo está fazendo o mesmo. Você está cortando cenouras, ele está varrendo o chão no salão de meditação - ambos estão praticando a mesma coisa. Se você pode cultivar a concentração, e se você pode adquirir a percepção que precisa para libertar-se do sofrimento, deve-se ao fato de você saber cortar suas cenouras.
Ao limpar o banheiro, você tem que usar o mesmo espírito: invista tudo de si na limpeza, faça-a uma prática jovial. Faça uma coisa de cada vez, mas profundamente. O propósito da prática é cultivar a energia de consciência. A energia de Consciência nos ajudará a viver cada momento de nossas vidas profundamente, nos ajudará a deixar de correr, nos ajudará a contactar o que é maravilhoso, refrescante, sadio e curativo em nós e ao nosso redor. Há muitas maravilhas na vida que são disponíveis no aqui e agora, e sem consciência nós as negligenciaríamos, nós as ignoraríamos, nós não saberíamos como usufruir delas. É como os meus olhos. Inspirando, eu estou consciente de meus olhos; expirando, eu sorrio a meus olhos. Isso é um exercício: Consciência dos olhos, sorrindo aos olhos. Quando você envolve seus olhos com sua consciência, você reconhece que tem olhos ainda em boas condições. É uma coisa maravilhosa ter olhos em boas condições. Você só precisa os abrir para entrar no Paraíso das cores e formas. Aqueles entre nós que perderam a visão sabem bem o que significa viver na escuridão, e nosso maior desejo é que alguém possa restabelecer nossa capacidade de ver as coisas. Eu perdi meu Paraíso de formas e cores porque fiquei cego. Agora vocês me devolveram minha vista, e eu sinto como se estivesse novamente no Paraíso, o Paraíso das formas e cores. Sentem-se na grama e apenas abram seus olhos. O céu azul é para vocês. As nuvens brancas são para vocês, as árvores, as crianças, a grama, e a doce face de seu amado. Tudo está disponível a vocês porque ainda têm olhos em boas condições. A maioria de nós não aprecia o fato de ter olhos porque não estão atentos. Nós podemos pensar que tudo em nós está errado, mas isso não é verdade. Há milhões de coisas em nós que não são erradas, contudo nós só colocamos nossa atenção no que está errado. Isso não é sabedoria. Tocar o positivo é importante, e se você não pode fazer isto por si, porque sua prática não é forte o suficiente, então confie nos irmãos e irmãs para lhes ajudar nisso; ou o terapeuta, como o professor, podem lhe ajudar a fazer isto. Mas o terapeuta, assim como o professor, tem que primeiramente poder fazer o mesmo a si, para então poder ajudar outras pessoas.
A laranja é doce. Se você come a laranja em distração, preso em sua ansiedade e desgosto, a laranja realmente não estará lá. Mas se você traz sua mente e corpo de volta à união, produz sua verdadeira presença, torna-se plenamente vivo, e começa a descascar a laranja, você verá que a laranja é um milagre. A laranja é nada menos do que um milagre. Se a consciência está lá, então sentar-se e descascar uma laranja torna-se uma coisa maravilhosa. Eu administro sessões de "meditação da laranja" onde nós gastamos meia hora apenas comendo uma laranja. E se você pode trazer os elementos de estabilidade, liberdade e concentração para este ato, então comer uma laranja é uma coisa extremamente maravilhosa de se fazer. Pode ser a coisa mais importante a fazer com sua vida. Como tomar o café da manhã com seus discípulos. Descasque a laranja. Sinta seu odor. Olhe a laranja e veja as flores da laranja, e a chuva e o sol que criaram as flores da laranja. A laranjeira levou vários meses para criar esta maravilha para você. Se você não tem consciência, a laranja não é algo precioso; você não está lá, realmente lá, e assim a laranja não está realmente lá. Quando você está verdadeiramente lá, completamente vivo, você mesmo se tornará um milagre. De fato, você é nada menos do que um milagre. Estar vivo, ainda estar vivo, e estar presente, é o maior milagre. Mas sem consciência nós não podemos tocar este milagre, e nós continuamos a reclamar e reclamar. Se você está lá, a laranja estará lá também, como um milagre, e o contato entre você e a laranja produz a verdadeira vida. Apenas ponha um gomo da laranja em sua boca, feche atentamente sua boca, e com consciência sinta o suco que sai da laranja. Você tem tempo para fazer isso? Para quê você está usando seu tempo? Estamos usando nosso tempo para viver, nos preocupar, ou fazer planos?
Assim Consciência é a energia que nos ajuda a realmente estar presente, tocar as maravilhas da vida que estão presentes, para nossa própria saúde e cura. Claro que há coisas negativas dentro de nós e ao redor do mundo. A consciência nos ajudará a reconhecê-las como existentes, e, ao envolvê-las, as aliviará um pouco. Se você continuar olhando profundamente a natureza de sua dor, da dor do mundo, a percepção de como aquela dor surgiu irá acontecer. A percepção [satori, insight] sempre nos libera, e não haverá nenhuma percepção se não há nenhuma consciência e concentração. Assim a consciência produz sua verdadeira presença, produz vida, e nos ajuda com nutrição e cura. A consciência ajuda a nos trazer alívio. Toda vez que nós abraçamos nossa dor e nosso desgosto com nossa consciência, sempre podemos trazer alívio para nós mesmos.
Quando a "energia número dois" envolve a "energia número um," começa a penetrá-la. Com a prática continuada de andar atentamente ou respirar atentamente, a energia de Consciência continuará presente para envolver e cuidar da energia da raiva ou da angústia. Quando você cozinha batatas, você tem que manter o fogo aceso debaixo da panela por aproximadamente vinte minutos. A mesma coisa é verdadeira com a prática de envolver nossa dor e raiva. Você sabe que a energia de dor e raiva precisa ser assistida, e assim a consciência deveria continuar a ser gerada como energia. Em um centro de prática você aprende a manter esta energia viva; respiração atenta contínua e caminhada atenta contínua estão entre as práticas que mantêm a consciência viva. Com esta energia você pode continuar envolvendo sua dor e desgosto. Pode ser que depois de dez ou quinze minutos sua dor e desgosto voltarão para sua consciência de armazenamento um pouco mais fracos, sua energia de hábito voltará para a consciência de armazenamento como uma semente, mas um pouco mais fraca. Da próxima vez que se manifestar novamente, façam o mesmo tipo de prática, sempre envolvendo e olhando profundamente dentro dela. Vocês não precisam lutar com ela.
(Sino)
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Com nossa consciência nós podemos fazer coisas mais bonitas. Se realmente você está ali, completamente presente, então as maravilhas da vida se revelarão mais a você. Quanto mais você está atento, mais se concentra, as maravilhas da vida continuarão a se mostrar, a revelarem-se para você. O prazer que você sente irá crescer. Aquele amanhecer bonito, aquela lua cheia, aquela laranja, todas estas coisas se revelarão completamente a si se você está verdadeiramente presente, se está verdadeiramente vivo. Isso é para seu bem estar e cura. Quanto aos elementos negativos, você não tem que saber a natureza de sua dor, de seu conflito, ainda. Você não tem que fazer isso no princípio. Você só tem que reconhecer a existência da dor, do desgosto e do conflito em você. Você os identifica como dor, raiva, desgosto, conflito, e apenas produz a energia de consciência para envolvê-los. Fique com eles, assista-os com toda sua ternura, sua generosidade, e cuide bem de seu sofrimento. Não tente fugir dele. Você foge porque tem demasiado medo dele. Você tem demasiado medo porque não tem nada para protegê-lo e ajudá-lo. Se você sabe desfrutar de sua prática de caminhada consciente, respiração consciente, de tomar chá consciente, então a energia de Consciência em você será forte o bastante para envolver e reconhecer aquela dor e aquele desgosto. Você também tem seu Sangha, seus irmãos e irmãs no Dharma sempre estão lá para apoiá-lo. A energia coletiva de consciência é o que nós experimentamos quando nos tornamos parte de um Sangha de prática. Se você sabe que durante o tempo de seu sofrimento você tem um amigo capaz de compreendê-lo, um amigo que possua um pouco de solidez e liberdade sentado perto de si, você se sentirá muito melhor. Você sentirá que pode enfrentar seu sofrimento, pode olhá-lo, pode envolvê-lo, porque a energia de seu amigo, a estabilidade dele, sua liberdade são elementos que podem lhe ajudar a ser um pouco mais estável, mais livre, de forma que possa envolver sua própria dor. Por isso a presença de praticantes perto de vocês é um fator muito importante.
Durante a primeira semana de nosso Retiro de Verão, eu enfatizei o fato que nós temos que criar um lugar onde o que você toca pode ser positivo, encorajador à sua prática. Você tem de criar um Sangha também. Um Sangha é uma comunidade onde muitas pessoas sabem viver profundamente no momento presente. Há pessoas que sabem como sorrir, como usufruir o caminhar e o sentar, e se você se conduz para este ambiente, sentir-se-á bem imediatamente. Você é iniciado na prática, é sustentado pela prática de outras pessoas, e logo poderá ver o processo de bem estar e cura surgindo. Eu já disse que o terapeuta deveria ser um arquiteto, alguém que deve criar um ambiente para a prática contínua. Às vezes você pode ajudar uma pessoa a sofrer menos, mas se recolocá-lo ou recolocá-la de volta ao seu ambiente, a mesma coisa acontecerá novamente e novamente. Eis porque a criação de um Sangha, um espaço onde alguém pode ser nutrido, onde alguém pode ser apoiado por muito tempo, é muito importante.
Na prática budista, um bom professor é sempre um professor que tem um Sangha. O Professor sem um Sangha não pode fazer muito. E o Buddha teve um bom Sangha. Ele foi um excelente construtor de Sangha. O rei de Kosala disse ao Buddha que toda vez que ele via o Sangha, tinha confiança no Buddha. Assim o Sangha é uma parte do ensino e da prática. É graças ao Sangha que a transformação e a cura tornam-se possíveis. Eu penso que em círculos terapêuticos, os doutores e os terapeutas também precisam de um espaço são e saudável, e de um Sangha de pessoas que são capazes de ser felizes, de desfrutarem de saúde mental, saúde física, de tal forma que uma pessoa trazida àquele ambiente possa sentir-se segura, e possa sentir o processo de cura e transformação acontecendo imediatamente. Assim o terapeuta também precisa de um Sangha, e num ambiente sem este tipo de atmosfera e Sangha, ele ou ela não podem ir muito adiante.
Eu gostaria de lhes oferecer um exercício de caminhar atentamente. Ele é muito importante. Você o pratica parando enquanto está caminhando. Se você é capaz de parar durante o tempo de caminhada, então poderá parar durante o tempo de tomar o café da manhã, limpar o banheiro, ou de fazer a refeição matutina. Sua depressão, por exemplo, não terminará até que saiba como parar. Você tem vivido de tal forma que a depressão torna-se possível. Você corre todo o tempo, e nunca se permite descansar, relaxar, e ir fundo em sua vida diária. Por isso a depressão surge. Aprender como caminhar é o que você pode fazer agora. Você pode fazer isto em Plum Village, e quando você for para casa, organize-se de forma que possa fazer isto diariamente.
Caminhar em meditação andante significa caminhar apenas pelo gosto de caminhar. Você não tem nenhum desejo de chegar em qualquer lugar. Caminhar e não chegar, esta é a técnica. E você desfruta de todo passo que dá. Todo passo lhe conduz à casa do aqui e agora. Sua verdadeira casa de acordo com este ensinamento é o aqui e agora, porque só neste momento, neste lugar, chamado aqui e agora, pode a vida ser possível. O endereço dos Buddhas e os bodhisattvas, e seu código postal, é o "aqui e agora." (Risos) O endereço da paz e da luz também é "aqui e agora." Você sabe aonde ir; e toda inspiração, toda expiração, todo passo que você dá deve conduzi-lo de volta àquele endereço.
Fazendo uma inspiração, fazendo uma expiração, você dá dois passos, dois belos passos, e em cada passo você diz, "eu cheguei." Isso não deve ser uma declaração, deve ser uma prática. Você tem que chegar no aqui e agora, e assume uma forte determinação de parar e não correr mais. Você já tem corrido toda sua vida, agora é a chance de parar. Você caminha de um modo que pode introduzi-lo na Terra Pura de Buddha imediatamente, que pode introduzi-lo imediatamente no Reino de Deus. A Terra Pura é a Terra onde você não sente a necessidade de correr mais…e com um passo você pode entrar nela. Da mesma forma o Reino de Deus é o reino da paz, e quando se chega no Reino de Deus, não se sente que tenhamos de correr mais. Se você sente que precisa correr mais, então ainda não chegou lá. Por isso com uma inspiração você pratica: "Eu cheguei, eu já cheguei"… e por favor não faça a declaração apenas, você tem que realmente chegar. Permita-se mergulhar profundamente no aqui e agora, porque a vida só é possível no presente, a vida só está disponível no momento presente, e você sabe que tem a capacidade de tocar a vida no momento presente, no aqui e agora. É maravilhoso que você ainda esteja vivo, é maravilhoso que você esteja dando passos neste belo planeta, mas nossa vida diária não nos permite vivenciar isso totalmente. É como a laranja, é como o belo pôr-do-sol, mas nós não nos permitimos ser tocados pela vida com todos os seus milagres. Assim todo passo que você dá significa chegar ao aqui e agora, sua verdadeira casa é o aqui e agora, e em todos lugares que você dá um passo, encontra sua verdadeira casa… "eu cheguei, eu cheguei," e então dá mais dois passos, "eu estou em casa, eu estou em casa. Eu cheguei, eu cheguei, eu estou em casa, eu estou em casa."
Nós perdemos nossa liberdade. Nós perdemos nossa soberania. Nós não somos mais livres. Nós nos permitimos ser empurrados e puxados para longe do aqui e agora. Agora nós temos que resistir, nós temos que recuperar nossa soberania, nós temos que resgatar nossa liberdade, e temos que caminhar como uma pessoa livre na terra. Liberdade aqui não é liberdade política, é a liberdade do passado, do futuro, de nossas preocupações e nosso medo. Seja livre, e cada passo como esse pode nos ajudar, pode nos libertar. E o Sangha está lá, cercando-o e apoiando-o para dar o passo. Muitos de nós aqui são capazes de caminhar assim. Muitos de nós tem sido treinados por cinco anos, sete anos, dez anos de forma a poder caminhar assim. Nós resistimos, nós não nos permitimos ficar abandonados nunca mais. Nós queremos ser livres, porque nós sabemos que sem liberdade, nenhuma felicidade, nenhuma paz, será possível.
Invista cem por cento de si em dar aquele passo: "Eu cheguei. Eu cheguei." E seus pés se tornarão os pés do Buddha, porque o Buddha sempre caminhou assim. E tocando a terra com seu pé, você produz o milagre de estar vivo. Você se faz real e dá realidade à terra, e tal passo é altamente saudável e curativo. Você está se protegendo da energia de hábito que sempre o está pressionando para correr e se perder. Je suis chez moi. Je suis arrivee. A prática deveria ser muito forte, determinada. Traga toda sua atenção para as solas de seus pés. Não fique aqui, traga toda sua atenção para as solas de seus pés, e toque a terra como se você a beijasse com seus pés. Como o selo de um imperador em um decreto, caminhe como se você imprimisse sua solidez, sua liberdade, e sua paz na terra. Quando eu olho sua pegada eu posso ver a marca de solidez, de liberdade, nela. Nós temos que resgatar nossa liberdade. Liberdade, emancipação, Vimukti , esta é a prática - livrar-nos daquela energia de hábito negativa.
Eu cheguei, eu estou em casa. Este já é um insight. Faça do insight de Buddha seu próprio insight. Este não é um conceito intelectual. Mas você está desperto; você adquire o esclarecimento de que a vida só é disponível no aqui e agora. Por isso você assume uma forte determinação de ir para casa. Sua verdadeira casa é no aqui e agora. Só aquela percepção [insight] pode lhe ajudar a parar de correr. Você pratica chegando em todo passo que você dá. "Eu cheguei; Eu estou em casa." Se sua liberdade não é perfeita, se sua estabilidade não é perfeita, se você ainda está sendo puxado de um lado para outro por aquela energia de hábito, então olhe os irmãos que estão caminhando na frente de você. Sintam as irmãs que estão caminhando atrás de você, e à sua direita uma irmã, em sua esquerda outra irmã, todos eles fazendo a mesma coisa: trazendo a Terra Pura, trazendo o Reino de Deus ao aqui e agora, e você usufruirá da energia coletiva do Sangha. Em casa você não pode experimentar desta forma, e aqui há uma oportunidade para permitir-nos sermos levados pela barca do Sangha, de sermos penetrados pela energia do Sangha, de forma que nós possamos dar o passo. E é claro que nós podemos fazer isto.
"Eu cheguei, eu estou em casa." Repita inspirando e expirando, e dando passos até que você esteja firmemente estabelecido no aqui e agora, reconhecendo que esta é sua verdadeira casa, até que você obtenha o sentimento do quanto é maravilhoso estar no aqui e agora. Se permitir correr como antes não seria nada sábio. Então você usará a próxima oração, "No aqui, no agora." Na verdade é a mesma coisa. Palavras diferentes, mas a mesma coisa. Aquela casa é chamada aqui e agora. Quando você inspira, "eu estou no aqui, no aqui." E expirando, "No agora, no agora." Novamente, as palavras não deveriam ser um obstáculo, as palavras deveriam apenas lhe ajudar a se concentrar e manter sua percepção viva. É a percepção que o mantém em casa, não as palavras. Então por favor não se satisfaça com palavras. É igual ao sino: todo o mundo ouve o sino, mas para vários de nós, quando ouvimos o sino ouvimos a voz que está fundo dentro de nós mesmos; e quando ouvimos aquele sino, nós fazemos a paz, o parar, a alegria e a liberdade possíveis. As palavras são como o som do sino; elas deveriam poder produzir a percepção, a estabilidade e a liberdade que nós tanto precisamos.
Você pode gostar de usufruir do "eu cheguei, eu estou em casa," durante alguns minutos, e quando você achar que é suficiente, você pode ir à próxima frase, "No aqui, no agora. " E então: "Eu estou sólido, eu estou livre." Isto não é uma auto-sugestão; se você teve sucesso em chegar à casa, realmente habitando no aqui e agora, você já possui os elementos de solidez e liberdade que são a base de sua felicidade. O Buddha disse que as duas características do Nirvana são solidez e liberdade. Imagine alguém que não tem nenhuma solidez, nenhuma liberdade. Aquela pessoa nunca pode estar contente. Então caminhar assim é cultivar a liberdade e a solidez que nos conduzirão ao bem estar e à felicidade.
A última frase é: "No Supremo, eu habito." Esta oração requer um pouco de explicação. Vocês já ouviram, é claro, sobre as duas dimensões de realidade, a dimensão Suprema e a dimensão histórica. Para representar as duas dimensões de realidade, nós podemos usar as imagens da onda, e da água. Olhando a dimensão da onda, a dimensão histórica, nós vemos que a onda parece ter um começo e um fim; a onda pode ser alta ou baixa comparada a outras ondas; a onda pode ser mais ou menos bonita que as outras ondas; a onda pode estar lá ou não estar lá; pode estar lá agora, mas depois não mais estar. Todas estas noções existem quando nós primeiramente tocamos a dimensão histórica: nascimento e morte, ser e não-ser, alto e baixo, vir e ir, e assim por diante. Mas nós sabemos que quando nós tocamos a onda mais profundamente, nós tocaremos a água. A água é a outra dimensão da onda. É chamado a Suprema dimensão.
Nós sabemos que na dimensão histórica podemos falar em termos de vida, morte, ser, não-ser, alto, baixo, vir, ir, mas na Suprema dimensão são removidas todas estas noções. Se a onda é capaz de tocar a água dentro de si, e se a onda pode viver a vida da água ao mesmo tempo, então ela não terá medo de todas estas noções: começo e fim, nascimento e morte, ser ou não-ser; e ela adquirirá a solidez e alegria trazida a ela pelo não-medo. A sua verdadeira natureza é a natureza de não-nascimento e não-morte, nenhum começo e nenhum fim. Esta é a natureza da água. Todos nós somos iguais à onda. Nós temos nossa dimensão histórica. Nós acreditamos que começamos a existir em um certo momento no tempo, e que deixaremos de existir em um certo momento no tempo. Nós acreditamos que estamos existindo agora, e que antes de nosso nascimento não existíamos. Todos estes tipos de noções, nós ficamos presos a estas noções, e por isso temos medo, temos ciúme, temos ambições, temos todos estes tipos de conflitos e aflições dentro de nós. Agora se somos capazes de chegar, de ser mais sólidos e livres, será possível para nós tocar nossa verdadeira natureza, a Suprema dimensão de nós mesmos. Tocando aquela Suprema dimensão, realmente tornamo-nos livres de todas estas noções que nos fizeram sofrer tanto. Isto ficará claro mais tarde. Por enquanto apenas usufruam em dar passos com estas duas palavras. (Sino) Na versão francesa do poema, nós temos algo diferente: «Je prends refuge en moi-meme. Dans la Terre Pure, je m´etablis.» Nós podemos traduzir em inglês como: "Eu tomo refúgio em mim mesmo. Na Terra Pura eu habito." Se você caminha assim, já está na Terra Pura; você já está no Reino de Deus. Eu já estive entre multidões de duas ou três mil pessoas praticando a meditação andante. É muito poderoso. Todos dão um passo, completamente concentrados. É maravilhoso: a energia é muito poderosa. Durante o tempo de caminhar, nós não pensamos em nada, nós não falamos, nós apenas tocamos a terra atentamente e profundamente. Há entre nós aqueles que não precisam destas palavras para que possam se concentrar, mas é muito útil fazer uso destas palavras no princípio da prática. Elas nos ajudam a estar concentrados, estar no aqui e agora. É bom começar sua prática de meditação andante com o Sangha, adquirir apoio. Por favor organizem-se de forma que durante seu dia vocês tenham muitas chances para fazer isto sozinhos. Vocês podem pedir para um amigo ir junto, ou vocês podem até mesmo dar a mão a uma criança e caminhar com ele ou ela. Em Plum Village muitos de nós começamos assinando um contrato com uma escada: quer dizer, você faz um voto que sempre subirá ou descerá aquela escada muito atentamente, com passos muito sólidos. Se acontecer que a meio caminho para cima você perceba que um de seus passos não foi muito sólido, você descerá e começará novamente. E se você tem sucesso nisso, então onde quer que vá será capaz de habitar no momento presente. Você pode assinar um contrato com uma distância específica que separa sua barraca de uma certa árvore, talvez três ou quatro metros, e você faz um voto de que quando caminhar tal distância todo passo será sólido e atento, caso contrário regressará e fará novamente. É um modo maravilhoso de aprender a viver todo momento de sua vida diária profundamente, resistindo a ser carregado pela sua energia de hábito. Vamos tentar, agora, após esta palestra de Dharma, caminhar juntos neste espírito. Usem seus pés para caminhar, não usem seus cérebros. Usem seus pés e caminhem. Caminhem de modo a fazer a Terra Pura acessível aqui e agora. Caminhem de modo que a alegria e a vida sejam possíveis exatamente aqui e agora.
(Três sinos) (Fim da Palestra de Dharma)
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