Retorna a página principal

As Questões Irrespondíveis

Tam Huyen Van

As Questões Irrespondíveis


Tam Huyen Van – Novembro, 2008

Na tradição buddhista existe um momento surpreendente, essencial ao contexto de ensino do Dharma, quando Siddharta Gautama (o Buddha) é confrontado(1) com questionamentos os quais, para a grande maioria de pensadores, são considerados urgentes e impossíveis de desprezar. Estas questões são divididas em três categorias básicas, a saber: questões que dizem respeito à natureza absoluta ou final do mundo objetivo (a existência finita ou infinita do universo no tempo e/ou no espaço); questões que dizem respeito à natureza do Nirvana ou da Realidade Absoluta (supramundana) e sua relação com a condição búddhica (a condição da natureza divina, para as escolas teístas); questões que dizem respeito à natureza do Eu e do corpo - corpo e alma, personalidade e forma - e sua união ou separação (existimos além do corpo? Será o Eu eterno? Corpo e alma estão sempre unidos ou sempre separados?). São questões que abrangem todo o espectro do dilema psico-espiritual humano, seja qual for a ótica: científica, filosófica ou religiosa. Basta alterar ligeiramente os termos, e todos estes dilemas irão sempre se adaptar a qualquer cultura humana, em todos os tempos.

Contudo, Gautama não as responde, sequer se preocupa em dar-lhes qualquer indicação ou referência argumentativa – ele as considera inexprimíveis, e permanece em silêncio. Este é um momento surpreendente porque, supostamente, tais proposições deveriam ser objeto de ponderação, análise e resposta em todo e qualquer sistema de pensamento psico-espiritual – e mais notadamente um que se apresenta tão profundo e significativo como o Dharma buddhista. Quando me defrontei com esta atitude de Buddha, fiquei impressionado com seu valor intrínseco, e sua implicação no exercício de liberação da ignorância perceptiva que domina tão intensamente a nossa mente. O valor, evidentemente, tem a ver com as implicações reflexivas que a situação representa, e não apenas no simples fato de que um dos ícones da psico-espiritualidade humana recusou-se a dar respostas místicas ou mistificadoras a questionamentos metafísicos.

Costumamos considerar que o mais importante aspecto de toda experiência existencial tem a ver com o grau de conhecimento, ou de entendimento, que um indivíduo pode obter em relação aos mais fundamentais dilemas da vida. De fato, a humanidade chegou a um ponto tão alto de excelência tecnológica e complexidade social justamente graças aos intensos momentos de revolução intelectual, de explosão de conhecimento, que indivíduos especiais conseguiram lograr por milênios. Comprovou-se que o uso do conhecimento cognitivo funciona, e portanto, uma vez que imaginamos nossa mente como uma manifestação de pensamentos, lógicas e conceitos intelectualmente relacionados, buscar “respostas” mesmo para dilemas transcendentes se torna uma ação aparentemente possível, e até natural.

Entretanto, as questões transcendentais – aquelas questões que se chocam constantemente com os assustadores mistérios que provocam e desafiam nossa alma inconstante – continuam perdidas em um limbo de místicas conflitantes ou analíticas estéreis. São estas questões – e toda inútil e interminável faina de elucubrações que elas provocam – às quais Buddha mantêm-se em silêncio. Mas o mais importante é que ele não age assim por considera-las erradas, falsas ou estúpidas; eles as evita de modo a chamar a atenção de todos para as questões realmente respondíveis, aquelas que promoverão uma correta experiência de descobertas determinantes, e que conduzirão à liberdade da mente (esta sim, a mais valiosa das revelações). E estas questões se apresentam – e são resolvidas – no âmbito da difícil prática contemplativa, e não a partir de elucubrações conceituais – por mais sofisticadas que estas possam ser.

Em quê momento, durante a longa caminhada da experiência humana, nós deixamos de perceber que os méritos do conhecimento racional ou cognitivo jamais irão substituir a maravilha das descobertas íntimas de sabedoria que se manifestam apenas e exclusivamente através da profunda integração do coração e da mente, do sentir e do contemplar?

A atitude buddhista representa um aspecto importante do processo de busca por revelações essenciais que caracteriza nossa natureza. Evidentemente, as questões irrespondíveis continuam sendo insistentemente reapresentadas em todos os momentos da história humana por milhares de anos, e pilhas absurdas de livros e textos sagrados, científicos, esotéricos ou simplesmente referenciais têm sido criados ao longo deste tempo na pretensão de responder tais questionamentos. Mas tudo o que têm sido feito desde então se revela apenas como uma grande babel de convenções, um elaborado acúmulo de opiniões e mitos – mas as respostas jamais são alcançadas (ou, para satisfazer aqueles que porventura não gostem de encarar esta linha de afirmação, as “respostas” são apresentadas a todo o tempo, mas são tantas as suas versões que todas acabam se tornando irrelevantes).

Mas tais respostas realmente precisam ser dadas? Afinal, qual é a questão essencial? Segundo a indicação de Buddha, na verdade não buscamos respostas: nós queremos certezas. Mas não queremos apenas uma certeza qualquer; desejamos ver nossas expectativas confirmadas, nossas crenças validadas, nossos parâmetros egoístas sustentados; eis porque queremos tanto as “respostas”. E eis porque estamos constantemente angustiados, mesmo quando não percebemos esta angústia se manifestando em nossas atitudes extremas de racionalização, construção de desculpas ou justificativas, ou identificação com misticismos, idealismos, crenças cegas.

E quanto à vida pragmática, essa vida comum e cotidiana que está acontecendo neste mesmo momento para todos nós – pode a reflexão sobre as Questões Irrespondíveis ser útil de alguma forma? Este é outro grande mérito contido na atitude de Buddha: ao manter-se em silêncio diante de questões metafísicas, ele procura avisar-nos do valor da busca pelas melhores e mais saudáveis respostas que irão contribuir para que nos tornemos mais vivos, mais presentes, mais coerentes no Aqui e Agora.

Estamos perdidos em vícios e condicionamentos mentais e emocionais, somos presas constantes de nossos hábitos arraigados, estamos constantemente esquecidos das graves ignorâncias que sustentam nossas mais profundas neuroses. É urgente que saibamos compreender que as questões irrespondíveis são aquelas que nos deixam embotados, embriagados pela constante reafirmação de nossas próprias expectativas egoístas.

De fato, existem outras questões irrespondíveis, estas sim realmente tolas e artificiais, fruto de um egoísmo recorrente, uma ilusão profunda. Sob o manto metafísico daquelas complexas dúvidas sobre o universo, tempo e espaço, Deus ou o Nada, o Nirvana e o Samsara, o Eu e a Alma, estão ocultas as questões que nos fazem mais condicionados a atos, palavras e pensamentos insalubres, que nos fazem sofrer muito, e outros sofrerem por conseqüência. Não subestime as grandes implicações contidas na compreensão correta sobre o fato de existirem questionamentos inúteis de serem feitos.

Como está o meu cabelo? Quem será que vai casar com ela? Estou mais bonita hoje? Qual o carro mais caro? Como posso conseguir aquela promoção? São muitas as questões, são muitos os egos que as produzem. Tantas dúvidas se manifestam ao longo da vida, algumas tão banais e frívolas que parece impossível que alguém realmente as leve a sério. Mas realmente nossa mente condicionada é muito mais passível de envolvimento com as diversas indulgências do ego do que é possível antever. Assim, as questões irrespondíveis se traduzem apenas naqueles sofisticados enigmas da existência? Não, na verdade a banalidade de se questionar coisas que não nos levam a uma experiência realmente esclarecedora é evidente em muitas outras questões menores, questões rotineiras, as quais desprezamos como inofensivas, mas que entretanto representam a natureza anuviada e ignorante da mente tão claramente quanto àquelas outras, metafísicas e complexas. As duas classes de questionamentos possuem um aspecto em comum: elas nos conduzem a uma absurda perda de tempo, tempo essencial e valiosíssimo, pelas respostas erradas.

A atitude de Buddha possui a capacidade de atingir um espectro muito maior de ensinamentos essenciais para a prática de plena consciência do que possamos perceber imediatamente. Muitos estudiosos lêem as questões irrespondíveis e se esquecem das questões paralelas àquelas, os dilemas comuns (e também estes irrespondíveis devido a sua inconsistência e artificialidade) derivados de nossas vaidades, nossa ambição, nossos ódios e preconceitos. As questões inúteis que conduzem países à guerra, homens e mulheres a crimes, milhões de pessoas à uma vida inteira de buscas por metas impossíveis.

Cabe aqui expor um fundamental dilema: você é capaz de discernir as dúvidas necessárias e suficientes para o seu amadurecimento espiritual e humano daquelas dúvidas inconsistentes fomentadas pelos vícios de sua mente inconstante?

Ao longo de meu esforço como praticante buddhista, tenho procurado prestar muita atenção a este grande ensinamento. Pessoalmente, considero a reflexão sobre a opção de silenciar sobre as respostas para questões irrespondíveis uma das mais brilhantes práticas. Ela nos permite enxergar melhor nossas próprias projeções pessoais, e observar quão difícil pode ser superar a intensa sedução da busca por respostas convenientes, que nos permita apenas alimentar os nossos anseios e condicionamentos mentais.

 

1 - P.Ex..: Cula-malunkyovada Sutra - Majjhima Nikaya, 63



Retorna
 
Este espaço de estudos Buddhistas é representante oficial do Colegiado Buddhista Brasileiro no Rio de Janeiro
 
© 2008 - Sala de Estudos Buddhistas Leigos ZhongDao - Rua Aristides Espínola, 88/802 - Leblon, Rio de Janeiro - Webdesign por Miklos