Retorna a página principal

Buddhismo e Hipermodernidade

Tam Huyen Van

Buddhismo e Hipermodernidade

Tam Huyen Van – Maio, 2009

Muitas pessoas atualmente entendem o buddhismo como um dos movimentos espirituais ou religiosos que mais fundamentam suas argumentações no estudo da mente humana – seus processos essenciais de percepção e consciência, e suas características estranhamente paradoxais e maravilhosas. De fato, pessoalmente não reconheço em nenhuma outra tradição – nem mesmo a ancestral tradição hinduísta, origem de uma parte significativa das proposições buddhistas – um grau tão profundo de sofisticação no proto-estudo da fenomenologia da mente, e da metodologia terapêutica psicológica implícita na experiência de contemplação meditativa.


Uso o termo "proto-estudo" com o objetivo de caracterizar o buddhismo não como uma escola psicológica ou filosófica nos moldes daquilo que a modernidade acadêmica entende como tal, mas como um marco histórico importantíssimo – e pouco considerado – no esforço humano pela compreensão da complexa realidade existencial sob a ótica da mente. O buddhismo não trata de conceitos filosóficos ou psicológicos da mesma maneira que fizeram pensadores e eruditos na Grécia e Europa nos séculos clássicos ou iluministas, ou ainda fazem atualmente muitos estudiosos. Ou mais exatamente, o sistema de pensamento buddhista inaugura na história humana o crucial questionamento que têm direcionado boa parte dos pesquisadores da psique humana na modernidade, mas o faz em termos e proposições originais e particulares ao nicho cultural a que pertence.


Assim, é importante frisar que tal inauguração do estudo sobre o fenômeno da mente já estava sendo feita há cerca de 2500 anos de uma forma altamente sofisticada – e sob uma linguagem surpreendentemente moderna – pelo buddhismo, a despeito dos aspectos puramente espirituais em que se ancoravam suas conclusões. E isso nem mesmo os gregos fizeram – ou quando o fizeram, já estavam precedidos pela tradição de Gautama Buddha.


De certa forma, podemos observar que a simbologia grega soube captar formidavelmente a riqueza da psique humana, representando-a vivamente nos maravilhosos mitos de seus deuses e heróis; mas nenhum grego foi capaz de questionar de forma adequada o papel que o estudo metodológico da percepção, sentimentos, sensações e percepção tinha na natureza do "eu", sua construção e sua real condição – e desta forma a sua importância no entendimento da existência. A consciência, exatamente do modo como uma parcela importante da modernidade define e entende, foi diagnosticada antes por Buddha, e não por Aristóteles ou Platão.


Mas toda tentativa de se apresentar uma tradição em detrimento de outras sempre resulta em erros históricos, injustiças e mal-entendidos – sem falar na extrema deselegância em insistir nas diferenças. Portanto, paro aqui minhas tentativas de valorização da psicologia buddhista usando como referência sua possível precedência histórica. Prefiro analisar o estudo da mente segundo o buddhismo apresentando sua posição e influência em nossos tempos.


Para fazer isso, no entanto, é preciso esclarecer corretamente o grau de atualidade que o buddhismo possui em relação à descrição do fenômeno do Eu segundo as mais importantes correntes de pensamento atual. Isso se faz necessário porque é comum haver certo preconceito com as religiões em geral quando falamos dos outros humanismos. Devido à tremenda cisão existente na cultura ocidental entre a filosofia, religião e ciência, quase sempre encontro muita resistência em apresentar certos conceitos notadamente considerados do âmbito específico de pensamentos filosóficos, estudos científicos ou realizações artísticas humanas como também discerníveis nas experiências buddhistas.


Isso é até certo ponto compreensível, considerando que as religiões humanas compartilham o padrão comum de valorizar mitos, folclores e superstições, ou perpetuar crenças e dogmas como sendo "revelações" divinas em seus aspectos superficiais e populares. Ou seja, as religiões permanecem no limbo da objetividade metodológica tão valorizada nas ciências, e frequentemente longe das elucubrações lógicas das filosofias ocidentais. Contudo, apesar dos aspectos folclóricos e puramente ritualísticos naturais ao modo de criação religiosa humana, o buddhismo sobressai ao apresentar uma metodologia claramente objetiva quando pretende lidar com a mente e suas características. É evidente que um dos elementos mais fundamentais para a crise de linguagem e compreensão plena humana – por sinal também diagnosticado por Buddha – vem a ser a tendência da mente a interpretar conceitos de forma agressivamente diferenciada, ou seja, conflituosa. E assim, também quando apresentamos uma abordagem especificamente espiritual e a colocamos em um outro nicho que não o religioso, isso parece para as mentes diferenciadoras muito errado ou mesmo tolo.


Ao mesmo tempo, temos o ainda mais grave aspecto das atitudes diferenciadoras no próprio nicho das religiões; dificilmente pessoas de outras práticas religiosas irão ler estes comentários sem forte resistência, como se a declaração da pertinência da psicologia buddhista frente à atualidade da filosofia e ciência fosse ao mesmo tempo uma crítica a outras tradições religiosas. Mas eu não me preocupo em elogiar o buddhismo e desfavorecer outras religiões; não me interessa fomentar ainda mais este vício de diferenciação comum às mentes. Meu objetivo aqui é outro, mais compositivo: apresentar o modo buddhista como adequadamente conforme ao momento histórico que vivemos. Com isso, não imagino desmerecer outras tradições; mas é lógico que cada nicho de aprendizagem humana possui potencialidades próprias, e insistir em auto-enganos não é uma prática saudável, de modo algum. Nem todas as instituições criadas pelo Homem ao longo da história resultam conformes a certos modos de entendimento humano; assim, nem todas as religiões se preocupam com o debate puro da natureza da mente. Mas o buddhismo o faz, inequivocamente.


O ensino de Buddha – quando estudado, praticado e compreendido adequadamente – extrapola religião ou misticismo, e transita pelos mais modernos campos da psicologia, filosofia e ciência da mente. Isso é um fato, e muito fácil de ser demonstrado. Mas isso também significa que o buddhismo, assim como outras tradições que seguem a mesma pretensão, precisaria ser muito aprofundado e sensivelmente interpretado (de fato, são pouquíssimas as pessoas que compreendem corretamente os significados das tradições religiosas as quais pertencem).


Ora, a realidade da natureza humana – aquela natureza coloquial, mundana, cotidiana e comum – não se apresenta muito eficiente em revelar nos indivíduos percepção profunda ou sensibilidade sutil; as pessoas vivem em função de suas expectativas e necessidades superficiais, e tudo além disso fica em um terreno nebuloso para a maioria esmagadora da humanidade. O modo da mente comum é pouco concentrado, e a necessidade visceral de vivermos a excitação das nossas identificações ansiosas nos faz menos interessados nos meandros da reflexão profunda; até porque, justamente devido à concepção arraigada de que a filosofia e a pura reflexão sejam "chatas" e tediosas, poucas pessoas imaginam tais estudos como realmente úteis à vida cotidiana. Mas o fato surpreendente é que eles são fundamentais, e há muito urgentemente necessários para que a nossa rotina de vida se torne realmente saudável e coerente. Para que esta utilidade se manifeste, é evidente que o modo como refletimos e analisamos não pode ser semelhante àqueles embates intelectuais – em um extremo – ou místicos – em outro – tão comuns ao nosso padrão de envolvimento com os conceitos.


Por exemplo, quantas pessoas que iniciaram a leitura deste ensaio foram capazes de chegar até este parágrafo sem perder o interesse ou a concentração? Não muitas, com certeza. Contudo, o exercício de argumentação buddhista possui em si uma clara capacidade de diagnosticar os aspectos insalubres na mente os quais nos fazem cotidianamente presos a medos, frustrações, ódios e ansiedades. E que nos impedem de perceber quais são as coisas que realmente podem nos transformar e curar desta imensa insatisfação e superficialidade que rege nossas vidas. O conhecimento puro e simples disso não é suficiente; sem a experiência contemplativa atenta e fluida das possibilidades de nossa mente jamais será possível que a civilização humana atinja um ponto onde o equilíbrio e o bem comum sejam exercidos globalmente.


O momento em que vivemos é histórico: estamos passando por uma fantástica revolução de conhecimento e informação. Este período em que estamos vivendo já está sendo denominado de "Hipermodernidade". É um período estranho, como o seu título de definição indica. Tudo agora é exagerado, o tempo, os modos de costume, e principalmente o modo de transmissão do conhecimento e informação. Jamais a humanidade viveu um período tão literalmente global e imediato. Este imediatismo é justamente o que permite o jorro de conhecimento que caracteriza a época, e também é o fator que transforma este conhecimento em quase nada; ao contrário do que a atual revolução poderia indicar, toda esta facilidade de adquirir conhecimento não está provocando um movimento relevante de melhoria em consciência reflexiva ou uma melhor qualidade nas expectativas pessoais. De fato, a hipermodernidade está corroborando aquilo que foi diagnosticado no buddhismo há tanto tempo, e que também agora é aludido em alguns sistemas de pensamento atuais: a humanidade, apesar da explosão em tecnologia e ciências empíricas, não está mais sábia.


Outro aspecto interessante é que a existência histórica da Hipermodernidade, como outras revoluções no passado da humanidade, se mantém completamente despercebida pela grande massa de seres humanos. É irônico perceber que o novo milênio, rico em tecnologia e sofisticação informativa, continua incapaz de quebrar o rígido modelo de alienação humano. E assim caminhamos ignorantes de nós mesmos, mas capazes de grandes saltos civilizatórios.


Há mais de 2.000 anos, este grave distúrbio da mente – este embotamento que nos impede reconhecer as coisas como são, em sua relatividade e inconstância – foi revelado. Desde então, de muitas maneiras, homens e mulheres buscam em si mesmos a correta medida entre sabedoria e interpretação de mundo. Apesar do triste poder que o egoísmo perceptivo impõe às mentes da esmagadora maioria da humanidade, naquele passado remoto foi também revelada a potencialidade humana para superar seus próprios vícios de compreensão.


A sabedoria frequentemente é considerada algo vago, definida como um dom divino ou então confundida com o conhecimento profundo. Mas na psicologia buddhista sabedoria significa discernimento claro e consciência plena. Neste sentido, a experiência de sabedoria apresenta-se em um outro nível de relação. De muitas maneiras, esta experiência determina que a concepção racional de que (apenas) o acúmulo de conhecimento irá nos levar à compreensão é terrivelmente falho. Ainda assim, como que numa espécie de celebração ao caráter passional das nossas mentes relativas ou como uma elegia ao egoísmo exacerbado, o século 21 se abre em meio a esta revolução tecno-informativa através da qual ainda sustentamos a ambição de controlar tudo o que nos cerca, e elogiar apenas a nós mesmos.

Mas como será possível reverter o processo de exageros inúteis que acompanham este período da história? Pessoalmente, não vejo saídas coletivas para isso. Como já tinha sido apresentada há 2500 anos atrás por Gautama Buddha, a solução ainda permanece no indivíduo; mas não nas suas ações político-sociais, sequer em suas ações humanitárias: a solução subjaz no grau de aprendizagem íntima que a humanidade precisa vivenciar para que todas as ações individuais sejam feitas com correta consciência, correto discernimento e correta atenção.


Quando aprendemos a exercer nossas ações com real e saudável consciência, estas serão natural e facilmente ações justas e equilibradas - serão ações verdadeiramente humanitárias. Por mais que esta declaração pareça exageradamente absoluta, de fato é uma proposição praticável, sem nenhum tipo de excesso romântico. Ocorre apenas que, diante das nossas neuroses, fragilidades e até mesmo mediocridades, a hipermodernidade expõe de forma muito mais clara a hipocrisia humana. Atualmente, somos muito desconectados de tudo que se apresenta capaz de levar o indivíduo a uma cura e transformação não apenas emocional e psicológica, mas também consciencial. E mesmo aqueles que participam dos movimentos construtivos mundiais correm o mesmo risco, e apresentam o mesmo grau de inconsciência.


Quando vemos pessoas agindo em prol da natureza, dos excluídos ou contra as guerras e atrocidades, pensamos o quanto isso é importante e decisivo para a condição humana e de todos os seres na Terra. Mas, a verdade dolorosa é que muitas destas ações, por mais construtivas que sejam, continuam sendo feitas por homens e mulheres incapazes de também exercer a experiência íntima de consciência plena, e uma profunda auto-reflexão, em si mesmos. Esta limitação ocorre principalmente porque nós ainda não compreendemos corretamente o que seria a experiência compassiva, e em que nível de nossa consciência mental ela realmente se manifesta. Muitas pessoas confundem idealismo com a consciência plena, protestos políticos com a consciência plena, mobilizações sociais com a consciência plena, crenças religiosas com a consciência plena. Assim, continuamos constatando que os movimentos sociais, espirituais, ecológicos e humanistas permanecem incapazes de realmente levar a humanidade a uma transformação de consciência.


Apesar de todo o valor que possa ter, a crescente mobilização idealista humana ainda permanece inserida no grande e frenético fluxo hipermodernista, e traz consigo ainda os vícios de falta de sabedoria e limitação de consciência pessoal da Mente Humana. Nunca antes tivemos tantos movimentos idealistas, os quais são todos subdivididos em outros tantos sub-movimentos, e o fluxo de idéias e concepções para superar a crise ecológico-politico-monetária atual acompanha aquele ritmo assustador da hipermodernidade.


O que falta, então? Falta algo muito simples, apesar de ser intrinsecamente delicado: falta o próprio exercício constante e diário de auto-regulação característico da experiência de compreensão interior. Mas é óbvio que esta resposta não encerra a questão. De muitas formas eu percebo que o mundo hipermodernista nos desafia a criar, de uma vez por todas, soluções orgânicas, fluidas e adaptáveis para que nós, como indivíduos, possamos amadurecer nossa forma de interpretar e compreender o mundo. Essa compreensão precisa ocorrer primordialmente em nossa realidade íntima para que, assim, as atitudes externas ditadas pela compaixão e respeito interpessoal sejam feitas com real plenitude – e força de transformação.


Apesar dos impulsos egoístas que frequentemente nos fazem esquecer de nós mesmos enquanto estamos lidando com tantas informações conflitantes que surgem todo o tempo em nossos sentidos, somos totalmente capazes de encontrar aquela pequena janela de liberdade perceptiva em nossas mentes, graças a qual aprenderemos os meios hábeis de atingir a coerência nas ações, palavras e pensamentos.


Penso que, para a mente atenta e intensamente identificada com a possibilidade real de transformação e cura perceptiva, o ato justo e coerente é uma conseqüência natural ao seu estado de plena atenção. Diante deste potencial, o buddhismo desenvolveu um método muito saudável em prática contemplativa que, diferentemente do que muitos acreditam, é promovido não só através da técnica meditativa mas principalmente da atitude meditativa, a ação feita através de uma intenção fundada em discernimento e concentração.


Neste período de hipermodernidade, a fenomenologia buddhista torna-se interessantemente útil para o entendimento dos vícios da mente. E nunca este entendimento foi tão necessário. Observem, contemplem os acontecimentos que lhes cercam. Procurem praticar a atenção cuidadosa, e percebam o quão arraigada em nossas mentes está a inconsciência, estão os atos supérfluos ou as ambições neuróticas. O momento é de reflexão e estratégia de vida; diante da perplexidade alienadora que o acúmulo de informação nos provoca, é preciso urgentemente que todos nós aprendamos a ler melhor a linguagem da Vida.



Retorna
 
Este espaço de estudos Buddhistas é representante oficial do Colegiado Buddhista Brasileiro no Rio de Janeiro
 
© 2008 - Sala de Estudos Buddhistas Leigos ZhongDao - Rua Aristides Espínola, 88/802 - Leblon, Rio de Janeiro - Webdesign por Miklos