Retorna a página principal

O Significado da Forma

Meihô Gensho

O Significado da Forma no Zen


Decupada da gravação, digitada, editada e revisada por Denkô. Palestra ministrada por Monge Genshô para a Comunidade Zen Budista de Florianópolis

Em 27 de outubro de 2006

O Significado da Forma no Zen

            Decupada da gravação, digitada, editada e revisada por Denkô

 

 

Quando a gente acaba a meditação e as pernas estão dormentes, o que vai acontecer a vida toda, antes de levantar, balança-se de um lado para o outro, isso faz voltar, levantando os joelhos, a circulação para a perna. Normalmente ela está trancada por se ficar sentado muito tempo pressionando veias ou artérias, isso depende do zafu, depende da própria constituição física da pessoa. Os homens têm desvantagens sérias e as mulheres têm vantagens porque a mulher tem mais flexibilidade, maíor lassidão ligamentar, mais quadril ou seja mais área para distribuir o peso em relação ao peso do tronco e mais gordura. Quanto mais magro mais complicado para sentar e quanto mais duro o zafu também mais complicado. Motivos bem lógicos.

Durante a palestra pode se sentar da maneira que se sentir mais confortável com apenas duas restrições: não estirar as pernas e não se encostar nas paredes. Essas duas restrições são por motivos de atitudes dignas e respeitáveis. Não estiramos as pernas porque mostrar a sola dos pés, nas tradições do Oriente, que nós herdamos,  é considerado falta de educação. Esses aspectos da forma às vezes perturbam as pessoas na nossa tradição e talvez fosse muito bom nós explicarmos um pouco o significado da forma no Zen.

O Zen diz que o apego à forma e aos rituaís é uma dificuldade. Do outro lado quando nós entramos num mosteiro Zen, ou num centro de prática do Zen, nós vamos ver que há muita exigência quanto à forma. Mais do que em qualquer outro lugar. Pedimos que os sapatos sejam colocados lado a lado e retos, não sejam jogados de qualquer forma. O que isso significa? Significa: quem tem uma mente desarrumada a expressa de forma desarrumada. Então se alguém chega num lugar e joga os seus sapatos de qualquer jeito isso expressa uma mente não respeitosa, não disciplinada, não reverente. Então a forma expressa essa mente.

 Então no método do Zen nós começamos com uma expressão formal correta esperando que através da expressão formal nós venhamos a modificar a nossa mente. É o caminho oposto. Nós sabemos, por exemplo, que quando alguém fica tenso, nervoso, contrai os músculos das costas. Então não adianta chegar para a pessoa e dizer assim: se acalme, relaxe. E a pessoa: mas eu estou nervoso. E as costas estão doendo de dor, contraídas. Nós sabemos que não adianta apenas fazer isso. Então nós pegamos essa pessoa e fazemos uma massagem nas costas, fazemos shiatsu, acupuntura, um bom banho bem quente e as costas relaxam e a mente relaxa. É claro, nós podemos começar por qualquer um dos lados e obter o resultado desejado. Podemos começar pela mente e obter o resultado no corpo, na forma. Mas nós também podemos iniciar na forma para tentar alcançar um resultado na mente.

Na verdade no Zen as abordagens dos dois lados existem simultaneamente. Sentamos em zazen para tentar criar uma mente pacificada. Mas como sentamos em zazen? Com uma forma e esta forma é altamente disciplinada, simétrica, apoiada, sólida, pacificada. Nossa mente pode ser uma tempestade, mas nós sentamos como budas, como estátuas de buda. E o professor diz: respire como um buda profunda e calmamente e deixe uma respiração natural se instalar. Fazemos um mudra como o de Buda, apoiamos três pontos no chão: os joelhos e as nádegas de maneira a ficar solidamente estáveis. Estabilizamos o corpo. Tornamos a coluna reta. Ao fazer isso nós influenciamos a nossa mente. É por isso que a forma é assim. Algumas pessoas não entendendo a forma olham para a escola Zen e dizem que isso é ritual e que é apego à forma. Não é apego à forma. Apego à forma seria se apenas sentássemos e brigássemos com as pessoas: você não está sentado certo. Você está sentado curvado. Você está sentado torto. Não pode sentar numa cadeira. Você tem que sentar em posição de lótus. Se nós fizéssemos isso seria apego à forma. Não é isso. Os mestres sabem que existe um sentido na forma e a forma é praticada para mudar a mente. É por isso que  trabalhamos assim.

Nós fazemos, por exemplo, o rakussu. Os praticantes antigos vão fazer votos, tomar os preceitos e para isso fazem os seus rakussus. Na nossa escola nós pedimos: faça o rakussu você mesmo, costure com agulha e linha. É difícil, detalhado, complicado, lento, impossível de fazer bem feito, mas você faz, ponto a ponto, semanas trabalhando para fazer um rakussu. Esse trabalho é forma? É forma sim. Esse trabalho é um trabalho espiritual? É um trabalho espiritual se você colocar o seu espírito nele. Significa dedicação para fazer o rakussu, lavar bem as mãos, acender incenso ,ir costurar com espírito atento ao que está fazendô, tomar isso como se faz uma meditação. E ao fazer isso esse pedaço de pano fica impregnado do nosso espírito ele ganha um significado, ele ganha um poder, porque nós, através da forma, criamos um poder no kesa e ele começa a nos influenciar.

O trabalho espiritual tem o sentido de, pela forma, procurar atingir o espírito. Então é um profundo engano entender a prática do Zen como: isso é orientalismo, isso é niponismo etc, porque se nós fossemos lá para o Japão onde começou a prática Zen, nós veríamos as pessoas dizendo, como aconteceu muitas vezes na prática japonesa, que isso era prática estrangeira porque a religião japonesa era o Xintoímo e o Zen não era japonês, era chinês. Essas tradições tinham sido trazidas da China, de mestres chineses.

Agora viajemos até a China e vamos ver a história do budismo e veremos os imperadores chineses e líderes chineses taoístas perseguindo o budismo porque era religião estrangeira, não era chinesa porque tinha vindo da Índia. E essas idéias eram estranhas à China. Ou seja, essa discussão é antiga demais, velha demais e engano que ressurge nas mentes há milênios. Há dois mil anos já havia esse tipo de problema. Então nós não podemos nos confundir com esse tipo de coisa. Temos que entender qual o sentido do Zen.  Por que no Zen se bate um sino de determinada maneira, porque é tão difícil. Sodô que agora está batendo há tanto tempo (o sino) conseguindo fazer três batidas bem parecidas. Quanto tempo levou para conseguir bater três vezes bem parecido. É bem difícil. Por quê? Porque é muito simples, mas expressa algo porque só uma mão calma pode bater igual. E como uma mão vai expressar essa calma? Só com uma mente calma. Então toda a forma que nós temos no Zen tem um sentido.

Algumas pessoas  se afastam por entender que a prática do Zen não era o que elas esperavam. Elas esperavam o que leram nos livros, coisas complicadas, koans, não dualidades, pensamentos muito complexos sobre o Zen. Não estão errados estes pensares, mas eles não são o verdadeiro Zen porque o verdadeiro Zen se expressa em pequenos detalhes e não se expressa através do conhecimento verbal, do raciocínio. Ele se expressa em outras coisas. Para nós vermos um bom praticante do Zen nós não o ouvimos, nós sentamos com ele, olhamos as suas costas. E ao olhar as costas do praticante nós sabemos: é um praticante sério. Não importa o que ele disser. Importa como ele pratica, como ele anda, como ele coloca os seus chinelos, como ele faz a oferenda de incenso, como ele faz cada coisa porque é na expressão da vida diária que nós vemos a verdade.

Não adianta fazer belos discursos sobre o Zen e depois ter um ataque de raíva. Esse não é o Zen. Não é o Zen falar bonito e depois ter atitudes quaísquer de cobiça, de orgulho, de inveja, aquelas que nós citamos nos preceitos. A verdade vai aparecer na expressão da forma. A verdade aparece na fala e nas ações que expressam a mente. Por isto treinamos a mente. Treinando a mente deveremos mudar as nossas ações, as nossas formas, mas viemos no zendô e treinamos a forma para ver quanto estamos atentos. Uma mente atenta, não é uma mente distraída, viajando, perdida. Mas  quando estamos fazendo coisas no zendô, com todas as regras, aí nós erramos. Quando nós erramos, nós rimos, porque todos erramos. Mas quando nós erramos e rimos é para nos dar conta de que é esse o nosso verdadeiro estado. O nosso estado se expressa aí e depois a gente senta e pratica com a nossa mente das duas formas, observando a mente no zazen e mantendo a forma de Buda no zazen. Então são esses dois caminhos bem juntos. Se você tirar a forma do Zen não é mais o Zen, é outra coisa.

Não vale a pena praticar se você não compreende isso. É melhor então procurar uma prática em que você não sente este conflito. Mas eu fico pensando quantos desses enganos provêm de falhas minhas como professor. De explicar claramente o que é isso porque na tradição do oriente não se explica. Então simplesmente se faz e se espera que as pessoas consigam compreender sozinhas. Mas no ocidente como chegou a tão pouco tempo o Zen, acho que o professor tem que explicar.

 

Pergunta: A aceitação das formas é uma maneira de deixarmos de lado o nosso eu, o nosso ego, não?.

Monge Genshô: É verdade, é bem colocado porque quando a gente tem uma opinião a gente vai para a prática e se diz por que é assim, por que não pode ser de outra forma. Quando você está colocando opiniões elas normalmente são vaidade, orgulho pessoal e manifestação do ego. Talvez o problema que eu estou abordando aqui é que há expectativas quando a pessoa vem praticar e ela não sabe essas nuances. Ela não sabe que a melhor forma de praticar é começar a praticar e não pensar. É muito mais fácil a gente ensinar o Zen para um aluno que vem de uma prática séria de artes marciais porque nas artes marciais isso já ocorre. O aluno começa e a gente diz faça assim e não tem muita opção para ele dizer não dá para dar o soco assim, ou eu quero fazer diferente, ou eu tenho uma idéia diferente. Pelo menos no meu tempo quando o aluno dizia isso o professor dizia: muito bem, mostre. E ele rapidamente aprende que não é um lugar para ele ficar manifestando opiniões. É um lugar para ele aprender. Ele foi lá e se colocou na posição de aluno e está ali para aprender e só começa a pensar sozinho depois de bastante tempo. Só quando ele tiver realmente um cabedal de conhecimentos é que vale a pena começar a cogitar. É como aprender piano. Um aluno vai à aula de piano e o professor diz assim: esta nota aqui é dó,dó-ré-mi. O aluno diz: mas eu não gostei, porque não é ré-dé? Vai levar muito tempo para ensinar esse aluno.

 

Pergunta:Gostaria de saber se tem diferença no Zen entre corpo, mente, alma e espírito. Por exemplo: há diferenças entre sofrimento espiritual e sofrimento mental?

Monge Genshô: Acho que são só palavras, porque nós poderemos dizer assim: a minha alma está sofrendo, querendo dizer que estou sofrendo intimamente com falta de paz, ou meu espírito não tem paz, ou minha mente não tem paz. Todos seriam sinônimos. Mas quando se fala em alma como uma partícula indivisível de uma pessoa que sobrevive à morte aí nós estamos falando de uma outra coisa, uma partícula eterna que não existe dentro da doutrina budista. Na doutrina budista todas as coisas são impermanentes, todas, inclusive a nossa consciência. Nós queremos que permaneça, mas não é assim. É como querer que o gume de uma faca permaneça quando a faca desapareceu. O gume, fio da faca, é inerente a existência da faca. Sinto-me confuso um pouco quando alguém me pergunta qual é a diferença que o senhor vê entre mente e consciência? As abordagens do zen não são bem assim porque corpo e mente estão misturados, coração e mente estão misturados. Não adianta você dizer minha mente está muito bem mas meu corpo não, eu estou com 41o de febre. Não é verdade. Se está com 41o de febre está delirando, então a mente não está bem. Sente reto e a sua mente muda. Agora faça assim (cabeça curvada) e me diga: como é essa mente? Não é deprimida? Agora coloque a coluna bem reta, atento, é outra coisa. Se você quiser mudar a sua atitude mental, se tudo estiver embaralhado, se tudo estiver difícil num dia, pare e respire fundo, sente bem reto, vá sentar em zazen. Turbulência na mente. Problema. Respire profundamente. As coisas vão voltar para o lugar. Por quê? Porque você voltou para o básico que é respirar. Nada mais tem importância de verdade. Tem a história de um mestre a quem um discípulo disse assim: como eu posso alcançar a iluminação? O mestre olhou para ele pegou sua cabeça e a enfiou dentro de um tanque de água e segurou, ele se debateu, quando estava afrouxando o mestre retirou a cabeça da água e disse: quando você quiser a iluminação do jeito que você queria ar me procure. Porque naquela hora ele não estava pensando em mais nada.

Esse é método típico da Escola Rinzai. Na Escola Soto se é mais delicado, pelo menos no princípio. Saikawa Roshi, neste último retiro em Ibiraçu, contou que Rinzai,  discípulo de Obaku, foi a Obaku e fez uma pergunta e Obaku deu-lhe trinta bastonadas, ou seja, deu-lhe uma sova. Obaku era um homem de quase dois metros de altura. E Rinzai foi falar com outro mestre e disse: eu fui fazer essa pergunta a Obaku e ele me deu trinta bastonadas. E o mestre disse: que pessoa gentil e carinhosa que  Obaku é. Como ele foi gentil e carinhoso com você. Histórias do Zen.

 

Pergunta: Eu percebo que quando eu pratico a forma eu pratico também a não forma do Zen. Percebo também que a minha prática é facilitada pela prática da forma. O que me fortalece é a forma no Zen. É esse o caminho?

Monge Genshô: Está correto, muito correto. Se você praticar bastante você pode trazer aquela mente para qualquer instante até o dia que você conseguir ter uma mente vazia vinte e quatro horas por dia. Diz-se de um mestre que ele um dia sonhou que estava sem cabeça, que era um corpo sem cabeça. E a partir desse dia ele nunca mais sonhou. Conseguiram entender? Conseguiu uma mente vazia então nem mais sonhava. Havia um espírito, um protetor de templo que queria ver mestre Tosan, mas ele só era capaz de ver quem pensava e nunca conseguia ver mestre Tosan, então ele derramou farinha no chão da cozinha e mestre Tosan vinha andando e quando viu farinha no chão...uma gravíssima falta desperdiçar alimento num mosteiro. Ele pensou: oh,como alguém pode ser tão descuidado! então neste momento o espírito guardião do templo pôde vê-lo. Evidentemente é uma história mítica, mas ela pretende expressar o que é uma mente calma, quieta. Como vocês podem ver Florência e Shodô (crianças). Eles estavam brincando, não estavam fazendo zazen. Mas os corpos deles, as línguas podem ficar quietos? Não podem porque eles estão fervilhando. Eu também sou assim. Por isto, quando olhamos o praticante, com o tempo podemos discernir quem está praticando bem, porque pequenas coisas, pequenos gestos vão mostrar onde a prática está indo, o que está sendo obtido.

 

Pergunta: Para o Zen não existe reencarnação?

Monge Genshô: Para todo o budismo não existe reencarnação. No entanto não existe cessação. Só existe continuidade. Para o Zen é impossível morrer porque na verdade você não nasceu. Nós sempre estivemos aqui e sempre estaremos aqui. Toda manifestação que você tem é karma. Não estamos falando sobre reencarnação. Nós não estamos falando sobre cessação. Estamos falando de continuidade. É impossível sair dessa manifestação de karma a menos que você elimine as forças que o arrastam e isso só com uma realização espiritual, senão você vai continuar manifestando formas e identidades tão sofridas quanto as de hoje.

 

P.Gosto muito de fazer zazen por estar constantemente observando, porque vejo que naquele momento tem alguém cuidando de mim, os vários eus. Qual é a diferença entre estar vazio e eu estar constantemente olhando para aquilo que está ali dentro?

 

Monge Genshô: Me responda: quem é este que está olhando esses pensamentos?

 

 

 

Palestra ministrada por Monge Genshô para a Comunidade Zen Budista de Florianópolis

Em 27 de outubro de 2006

 



Retorna
 
Este espaço de estudos Buddhistas é representante oficial do Colegiado Buddhista Brasileiro no Rio de Janeiro
 
© 2008 - Sala de Estudos Buddhistas Leigos ZhongDao - Rua Aristides Espínola, 88/802 - Leblon, Rio de Janeiro - Webdesign por Miklos