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O Kalama Sutra

O KALAMA SUTRA
A Declaração de Buddha em Favor do Livre Questionamento
Traduzido ao inglês por Soma Thera
The Wheel Publication No. 8

BUDDHIST PUBLICATION SOCIETY KANDY SRI LANKA
Copyright 1981 Buddhist Publication Society SL ISSN 0049-7541
First Impression 1959 Second Impression 1963 Third Impression 1977 Fourth Impression 1981
* * * DharmaNet Edition 1994 This electronic edition is offered for free distribution via DharmaNet by arrangement with the publisher. DharmaNet International P.O. Box 4951, Berkeley CA 94704-4951 Transcribed for DharmaNet by Jut L. Blointh


Versão em Português por Claudio Miklos. Os comentários entre colchetes são de responsabilidade do tradutor brasileiro, visando apenas esclarecer melhor certas partes do texto.

A INSTRUÇÃO AOS KALAMAS

[Os Kalamas de Kesaputta vão ter com o Buddha]


Assim eu ouvi:

Certa vez o Abençoado, enquanto caminhava pelo país de Kosala junto a uma grande comunidade de bhikkhus, chegou a uma cidade do povo Kalama chamada Kesaputta. Disseram os Kalamas que eram os habitantes de Kesaputta:

" O Reverendo Gautama, o monge, o filho dos Sakyas, enquanto caminhava no país de Kosala entrou em Kesaputta. A boa reputação do Reverendo Gautama tem sido divulgada deste modo: ´Realmente, o Abençoado é na verdade perfeito, completamente iluminado, dotado de conhecimento e prática, sublime, conhecedor dos mundos, inigualável, guia dos bons homens, professor de seres divinos e humanos que claramente entenderam seu conhecimento direto. Ele semeou o Dharma, bom no princípio, bom no meio, bom no fim, possuidor do [correto] sentido e das palavras, e em tudo completo; e ele proclama [em si] a vida sagrada que é perfeitamente pura.´ Ver tal ser perfeito é realmente auspicioso".

2. Então, os Kalamas que eram os habitantes de Kesaputta foram até onde o Abençoado estava. Ao lá chegarem, alguns renderam-lhe homenagem e sentaram-se em um lado; alguns trocaram saudações com ele e após o final de cordial e memorável conversa, sentaram-se em um lado; alguns o saudaram elevando as palmas unidas e sentaram-se em um lado; alguns anunciaram-lhe seus nomes e família e se sentaram em um lado; alguns sem falar, sentaram-se em um lado.

[Os Kalamas de Kesaputta pedem orientação ao Buddha]

3. Os Kalamas que eram os habitantes de Kesaputta que se sentavam em um lado disseram ao Abençoado:

" Há alguns monges e brahmins, Venerável Senhor, que visitam Kesaputta. Eles expõem e explicam só suas próprias doutrinas; as doutrinas de outros eles menosprezam, ultrajam, e as põem em pedaços. Alguns outros monges e brahmins, Venerável Senhor, também vem a Kesaputta. Eles também expõem e explicam só suas próprias doutrinas; as doutrinas de outros que eles menosprezam, ultrajam, e põem em pedaços. Venerável Senhor, há dúvida, há incerteza em nós no que concerne a eles. Quais destes reverendos monges e brahmins falam a verdade e quais os falsos"?

[Os critérios para a discriminação correta da rejeição]

4. "É adequado, Kalamas, que vós duvideis, que fiqueis incertos; a incerteza surgiu em vós sobre o que é [realmente] duvidoso. Vamos, Kalamas! Não creiais no que foi adquirido por audição repetida; não creais na tradição; nem em rumores; nem no que está em uma escritura sagrada; nem em conjeturas; nem em um axioma; nem em um raciocínio especial [elaborado]; nem em um preconceito contra uma noção que seja ponderada; nem em aparentes habilidades de outrem; nem na idéia: ´O monge é nosso professor.´ Kalamas, quando em vós mesmos souberdes: ´Estas coisas são ruins; estas coisas são condenáveis; estas coisas são censuradas por quem é sábio´, e quando, após experiência e observação, perceberdes que estas coisas conduzem ao dano e ao mal [de vós de de outros], abandonai-as. "


[ Cobiça, ódio e ilusão]

5. "O que vós pensais, Kalamas? Cobiça surge em um homem para seu benefício ou dano?"

" Para seu dano, Venerável Senhor."

" Kalamas, perdido na cobiça, e sendo subjugado e derrotado mentalmente pela cobiça, este homem toma vidas, rouba, comete adultério, e conta inverdades; ele também incita outros a fazer o mesmo. Tudo isso não aumenta o dano e o infortúnio?"

" Sim, Venerável Senhor."

6. "O que vós pensais, Kalamas? O ódio surge em um homem para seu benefício ou dano?"

" Para seu dano, Venerável Senhor."

" Kalamas, perdido no ódio, e sendo subjugado e derrotado mentalmente pelo ódio, este homem toma vidas, rouba, comete adultério, e conta inverdades; ele também incita outros a fazer o mesmo. Tudo isso não aumenta o dano e o infortúnio?"

" Sim, Venerável Senhor."

7. "O que pensais, Kalamas? A Ilusão surge em um homem para seu benefício ou dano?"

" Para seu dano, Venerável Senhor."

" Kalamas, perdido na ilusão, e sendo subjugado e derrotado mentalmente pela ilusão, este homem toma vidas, rouba, comete adultério, e conta inverdades; ele também incita outros a fazer o mesmo. Tudo isso não aumenta o dano e o infortúnio?"

" Sim, Venerável Senhor."

8. "O que pensais, Kalamas? Estas coisas são boas ou ruins?"

"Ruins, Venerável Senhor"

"Condenáveis ou não condenáveis?"

"Condenáveis, Venerável Senhor."

"Passíveis de censura ou louvor?"

"Censuras, Venerável Senhor".

"Por experiência e observação, estas coisas conduzem ao dano e ao infortúnio, ou não? Como tais coisas vos atingis?"

"Por experiência e observação, estas coisas conduzem ao dano e ao infortúnio. Assim elas nos atingem ".

9. "É por isso que nós afirmamos, Kalamas, o que antes foi dito:

´Vamos, Kalamas! Não creiais no que foi adquirido por audição repetida; não creais na tradição; nem em rumores; nem no que está em uma escritura sagrada; nem em conjeturas; nem em um axioma; nem em raciocínio especial [elaborado]; nem em um preconceito contra uma noção que seja ponderada; nem em aparentes habilidades de outrem; nem na idéia: ´O monge é nosso professor.´ Kalamas, quando em vós mesmos souberdes: ´Estas coisas são ruins; estas coisas são condenáveis; estas coisas são censuradas por quem é sábio´, e quando, após experiência e observação, perceberdes que estas coisas conduzem ao dano e ao mal [de todos], abandonai-as.´

[ Os critérios para a discriminação correta da aceitação]

10. "Vamos, Kalamas! Não creiais no que foi adquirido por audição repetida; não creais na tradição; nem em rumores; nem no que está em uma escritura sagrada; nem em conjeturas; nem em um axioma; nem em raciocínio especial [elaborado]; nem em um preconceito contra uma noção que seja ponderada; nem em aparentes habilidades de outrem; nem na idéia: ´O monge é nosso professor.´ Kalamas, quando em vós mesmos souberdes: ´Estas coisas são boas; estas coisas não são condenáveis; estas coisas são apreciadas por quem é sábio´, e quando, após experiência e observação, perceberdes que estas coisas conduzem ao benefício e à felicidade [de vós de de outros], abrigai-as em seu coração."

[Ausência de cobiça, ódio, e ilusão]

11. "O que pensais, Kalamas? A ausência de cobiça surge em um homem para seu benefício ou dano?"

" Para seu benefício, Venerável Senhor."

" Kalamas, não sendo dado à cobiça, e não sendo subjugado nem derrotado mentalmente pela cobiça, este homem não toma vidas, não rouba, não comete adultério, e não conta inverdades; ele também leva outros a fazer o mesmo. Tudo isso não é para seu benefício e sua felicidade ?"

" Sim, Venerável Senhor."

12. "O que pensais, Kalamas? A ausência de ódio surge em um homem para seu benefício ou dano?"

" Para seu benefício, Venerável Senhor."

" Kalamas, não sendo dado a odiar, e não sendo subjugado e derrotado mentalmente pelo ódio, este homem não toma vidas, não rouba, não comete adultério, e não conta inverdades; ele também leva outros a fazer o mesmo. Tudo isso não é para seu benefício e sua felicidade"?

" Sim, Venerável Senhor".

13. "O que pensais, Kalamas? A ausência de ilusão surge em um homem para seu benefício ou dano?"

" Para seu benefício, Venerável Senhor."

" Kalamas, não sendo dado à ilusão, e não sendo subjugado e derrotado mentalmente através da ilusão, este homem não toma vidas, não rouba, não comete adultério, e não conta inverdades; ele também leva outros a fazer o mesmo. Tudo isso não é para seu benefício e sua felicidade?"

" Sim, Venerável Senhor."

14. "O que pensais, Kalamas? Estas coisas são boas ou ruins "?

" Boas, Venerável Senhor."

"Condenáveis ou não condenáveis?"

" Não Condenáveis, Venerável Senhor."

"Passíveis de censura ou louvor?"

"Louvor, Venerável Senhor".

" Por experiência e observação, estas coisas conduzem ao benefício e à felicidade, ou não? Como tais coisas vos atingis?"

"Por experiência e observação, estas coisas conduzem ao benefício e à felicidade. Assim elas nos atingem."

15. "É por isso que nós dizemos, Kalamas, o que antes foi dito:

´Vamos, Kalamas! Não creiais no que foi adquirido por audição repetida; não creais na tradição; nem em rumores; nem no que está em uma escritura sagrada; nem em conjeturas; nem em um axioma; nem em raciocínio especial [elaborado]; nem em um preconceito contra uma noção que seja ponderada; nem em aparentes habilidades de outrem; nem na idéia: ´O monge é nosso professor.´ Kalamas, quando em vós mesmos souberdes: ´Estas coisas são boas; estas coisas não são condenáveis; estas coisas são apreciadas por quem é sábio; e quando, após experiência e observação, perceberdes que estas coisas conduzem ao benefício e à felicidade [de vós de de outros], abrigai-as em seu coração.´"

[ As Quatro Exaltadas Moradas]

16. "O discípulo dos Nobres Sábios, Kalamas, que em seu caminho carece de desejos; é destituído de má vontade; não se ilude; [e] é claramente compreensivo e atento, habita [a primeira morada], depois de a ter preenchido com o espírito da Amizade em um quarto; igualmente em dois quartos; igualmente em três quartos; igualmente em quarto quartos; assim como acima, abaixo, e através; ele habita [a morada], depois de ter preenchido todas as existências de todos os seres viventes, e todos lugares, e o mundo inteiro, com o grande, exaltado, ilimitado espírito da Amizade que está livre de ódio ou malícia.

" Ele habita [a segunda morada], depois de a ter preenchido com o espírito da Compaixão em um quarto; igualmente em dois quartos; igualmente em três quartos; igualmente em quarto quartos; assim como acima, abaixo, e através; ele habita [a morada], depois de ter preenchido todas as existências de todos os seres viventes, e todos lugares, e o mundo inteiro, com o grande, exaltado, ilimitado espírito da Compaixão que está livre de ódio ou malícia.

" Ele habita [a terceira morada], depois de a ter preenchido com o espírito da Alegria em um quarto; igualmente em dois quartos; igualmente em três quartos; igualmente em quarto quartos; assim como acima, abaixo, e através; ele habita [a morada], depois de ter preenchido todas as existências de todos os seres viventes, e todos lugares, e o mundo inteiro, com o grande, exaltado, ilimitado espírito da Alegria que está livre de ódio ou malícia.

" Ele habita [a quarta morada], depois de a ter preenchido com o espírito da Equanimidade em um quarto; igualmente em dois quartos; igualmente em três quartos; igualmente em quarto quartos; assim como acima, abaixo, e através; ele habita [a morada], depois de ter preenchido todas as existências de todos os seres viventes, e todos lugares, e o mundo inteiro, com o grande, exaltado, ilimitado espírito da Equanimidade que está livre de ódio ou malícia.

[ Os Quatro Confortos]

17. "O discípulo dos Nobres Sábios, Kalamas, que tenha uma mente tão livre de ódio; uma mente tão livre de malícia; uma mente tão livre de mácula; e uma mente tão purificada é a pessoa por quem os quatro confortos são percebidos aqui e agora.

"[Ele assim pensa:]´ Suponha que haja um futuro e que haja fruto, resultado de ações feitas de forma meritória ou demeritória. Então é possível que à dissolução do corpo depois de morte, eu vá para o mundo divino que é possuidor do estado de felicidade.´ Este é o primeiro conforto percebido por ele.

"[Ele assim pensa:] ´ Suponha que não haja nenhum futuro e nenhum fruto, nenhum resultado de ações feitas de forma meritória ou demeritória. Ainda assim neste mundo, aqui e agora, livre de ódio, livre de malícia, são e salvo, e feliz, eu me manterei. ´ Este é o segundo conforto percebido por ele.

"[Ele assim pensa:] ´ Suponha que o infortúnio (resulte em) acontecer com um malfeitor. Eu, contudo, não penso em fazer mal a ninguém. Então, como pode o mal (resultar em) afetar a mim, que não fiz nenhuma ação má? ´ Este é o terceiro conforto percebido por ele.

"[Ele assim pensa:] ´ Suponha o infortúnio (resulte em) não acontecer com um malfeitor. Então eu me vejo purificado em todo caso. ´ Este é o quarto consolo percebido por ele.

" O discípulo dos Nobres Sábios, Kalamas, que tenha uma mente tão livre de ódio, uma mente tão livre de malícia, uma mente tão livre de mácula, e uma mente tão purificada é a pessoa por quem os quatro confortos são percebidos aqui e agora."


[Responderam os Kalamas:]

"Assim é, Abençoado. Assim é, Sublime. O discípulo de Nobres Sábios, Venerável Senhor, que tenha uma mente tão livre de ódio, uma mente tão livre de malícia, uma mente tão livre de mácula, e uma mente tão purificada é a pessoa por quem os quatro confortos são percebidos aqui e agora.

" ´ Suponha que haja um futuro e que haja fruto, resultado de ações feitas de forma meritória ou demeritória. Então é possível que à dissolução do corpo depois de morte, eu vá para o mundo divino que é possuidor do estado de felicidade.´ Este é o primeiro conforto percebido por ele.

" ´ Suponha que não haja nenhum futuro e nenhum fruto, nenhum resultado de ações feitas de forma meritória ou demeritória. Ainda assim neste mundo, aqui e agora, livre de ódio, livre de malícia, são e salvo, e feliz, eu me manterei. ´ Este é o segundo conforto percebido por ele.

" ´ Suponha que o infortúnio (resulte em) acontecer com um malfeitor. Eu, contudo, não penso em fazer mal a ninguém. Então, como pode o infortúnio (resultar em) afetar a mim, que não fiz nenhuma ação má? ´ Este é o terceiro conforto percebido por ele.

" ´ Suponha o infortúnio (resulte em) não acontecer com um malfeitor. Então eu me vejo purificado em todo caso. ´ Este é o quarto consolo percebido por ele.

" O discípulo de Nobres Sábios, Venerável Senhor, que tenha uma mente tão livre de ódio, uma mente tão livre de malícia, uma mente tão livre de mácula, e uma mente tão purificada é a pessoa por quem, aqui e agora, os quatro confortos são percebidos."

"Maravilhoso, Venerável Senhor!, Maravilhoso, Venerável Senhor! Como se, Venerável Senhor, uma pessoa fosse virar para cima o que está de cabeça para baixo, ou revelar o que está oculto, apontar o caminho para quem está perdido ou carregar uma luz na escuridão, pensando: ´aqueles que têm olhos poderão ver objetos visíveis´, assim o Dharma tem sido revelado em muitas formas pelo Abençoado. Nós, Venerável Senhor, tomamos por refúgio ao Buddha, por refúgio ao Dharma, e por refúgio a Comunidade de Bhikkhus. Venerável Senhor, possa o Abençoado nos considerar como seguidores leigos que tomaram refúgio para toda a vida, a partir de hoje ".

Anguttara Nikaya, Tika Nipata, Mahavagga, Sutta No. 65


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