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O Sutra em 42 Seções
O Sutra em Quarenta e Duas Seções Pregado por Buddha
Translation Committee of Buddhist Texts Chinese Buddhist Asociation in Argentina Tzong Kuan Monastery
Comitê de Tradução de Textos Budistas Associação Budista Chinesa na Argentina Mosteiro Tzong Kuan O Sutra em Quarenta e Duas Seções Pregado por Buddha
Baseado na tradução ao idioma chinês do Venerável Kashyapa-Matanga e do Venerável Gobharana.
Versão inglesa da Sociedade de Tradução de Textos Budistas Universidade Budista da Região do Dharma, Associação Budista da Região do Dharma, Burlingame, Califórnia, USA
Texto e notas baseados nas conferências dadas pelo Mestre Hsuan Hua no Mountain Monastery, San Francisco, Califórnia, em 1994.
Tradução ao espanhol realizada pelo Comitê da Tradução de Textos Budistas Associação Budista Chinesa na Argentina Mosteiro Tzong Kuan
Buenos Aires 1998
Tradução ao Português por Claudio Miklos, sob permissão do Mosteiro Tzong Kuan - Argentina
Introdução:
Este foi o primeiro Sutra transmitido quando o Budismo foi levado desde a Índia até a China. Neste Sutra podemos ver refletido todo o processo de ensinamento de Buddha, desde o pequeno até o grande, desde o básico até o mais profundo. Foi traduzido durante a Dinastia Han pelos Mestres do Dharma da Índia Central chamados Kashyapa-Matanga e Gobharama.
A Dinastia Han se dividiu em dois períodos, e a tradução auspiciada pelo Imperador Ming foi realizada no último destes períodos, compreendido entre os anos 25 - 220 d.C. Os dois mestres chegaram à China montados em um cavalo branco, fato pelo qual o mosteiro construído pelo Imperador Ming para albergá-los foi chamado "Mosteiro do Cavalo Branco".
VERSO DE ABERTURA DE SUTRAS
O Dharma insuperável, profundo, insondável, sutil e maravilhoso é difícil de encontrar mesmo em centenas de milhares de milhões de Períodos Cósmicos. Eu agora o vejo, o ouço, o encontro, o recebo e o conservo. Faço o Voto de compreender o sentido real e verdadeiro do Tathagata. ..
Prefácio do Sutra
Quando o Honrado pelo Mundo(1) completou o Caminho(2) pensou: "Deixar para trás o desejo e conquistar a calma e a tranqüilidade é a suprema realização. Em profunda meditação se derrotará os demônios e os que se afastam do Caminho".
No Parque dos Cervos fez girar a Roda do Dharma e das Quatro Nobres Verdades(3), cruzou a Ajnata-Kaundinya e aos outros quatro discípulos, os quais certificaram o fruto do Caminho.
Mas houveram Bhikshus(4) que expressaram suas dúvidas e perguntaram ao Buddha sobre como resolvê-las. O Honrado pelo Mundo lhes ensinou e admoestou até que um a um foi despertando, e obtiveram [assim] a Iluminação. Logo, juntaram suas palmas, respeitosamente assentaram e seguiram as instruções do Buddha.
Seção 1 Deixar o lar e obter os frutos (de vários níveis de realização).
Buddha disse: "As pessoas que se despedem de suas famílias e deixam a vida caseira, que conhecem sua [própria] mente, penetram em sua origem e entendem o Dharma não-condicionado (5), são chamados Shramanas (6). Eles observam constantemente os duzentos e cinqüenta preceitos, progridem e se conservam sempre na pureza. Praticando as Quatro Sendas Verdadeiras (7), podem converter-se em Arhats (8). Os Arhats podem voar ou transformar-se. Eles tem uma vida que duram muitos eons e podem comover aos espíritos do céu e da terra em todos os lugares que eles estão.
Antes de ser um Arhat, se é Anagamin, ao final de sua vida o seu espírito ascende aos lugares supremos, além do Décimo Nonagésimo Céu, e se converte em Arhat.
Antes de ser um Anagamin, se é Sakridagamin, ascenderá uma vez e voltará uma vez mais, se convertendo em Arhat.
Antes de ser Sakridagamin, se é Srotaapanna, lhe recairá a morte sete vezes e os renascimentos sete vezes.
Os que exterminaram a paixão e o desejo são como os que cortaram os quatro membros; nunca mais voltam a usá-los outra vez".
Seção 2 Eliminar o desejo e cessar a busca.
Buddha disse: "Aqueles que deixaram a vida caseira convertendo-se em Shramanas cortaram o desejo, renunciaram à paixão e reconheceram a origem de suas mentes. Compreenderam os profundos princípios do Buddha e despertaram para o Dharma não-condicionado. Interiormente não tem nada que alcançar e não buscam nada externamente. Não estão atados mentalmente ao Caminho; tampouco criam karma. Não pensam nem atuam; não praticam nem certificam (seu objetivo na prática); não repetem as diferentes etapas. Isto é o mais reverenciado e supremo, e é chamado ´o Caminho´ ".
Seção 3 Afastar-se do desejo e eliminar a cobiça.
Buddha disse: "Ao aparar suas barbas e cabelos, eles se converteram em Shramanas. Aceitam os dharmas do Caminho, renunciam à riqueza e à abundância. Recebem esmolas e aceitam tão somente o necessário. Comem só uma comida diária ao meio-dia, passam a noite sob as árvores, devem ser cuidadosos e não buscarem mais que isso. A paixão e o desejo são as causas pelas quais as pessoas sejam estúpidas e torpes".
Seção 4 Reconhecendo o bem e o mal.
Buddha disse: "Os seres viventes podem levar a cabo dez boas ações ou dez más ações. Quais são estas dez? Três são realizadas com o corpo, quatro são realizadas com a boca e três com a mente. As três realizadas com o corpo são a matança, o roubo e a luxúria. As quatros realizadas com a boca são a maledicência, o discurso violento, a mentira e o discurso frívolo. As três realizadas com a mente são os ciúmes, o ódio e a estupidez [ignorância]. Desta forma, estas dez não estão de acordo com o Caminho dos Sábios e são chamadas as ´dez más ações´. Pôr um ponto final nestes males é levar a cabo as ´dez boas ações´.
Seção 5 Reduzindo a severidade das ofensas.
Buddha disse: "Se uma pessoa cometeu muitas ofensas e não se arrepende, deixando de lado todo pensamento de arrependimento, as ofensas irão tragá-lo, como a água que retorna ao mar: gradualmente se fazem mais amplas e profundas. Se uma pessoa ofende e, ao compreender que isto é mau, se corrige e atua bem, as ofensas se dissolverão por si mesmas tal como uma pessoa enferma que começar a transpirar: se curará gradualmente".
Seção 6 Tolerando os malvados e evitando o ódio.
Buddha disse: "Quando uma pessoa malvada sabe de tua bondade e intencionalmente vem a causar-te problemas, deves dominar-te, não enojar-te dele ou culpá-lo. Então, aquele que veio fazer-te dano prejudicará a si mesmo".
Seção 7 Os maus atos retornam a quem os comete.
Buddha disse: "Havia uma pessoa que ao escutar que sigo reverentemente o Caminho e pratico a grande compaixão, se acercou intencionalmente de mim para repreender-me. Me mantive em silêncio sem contestar. Quando terminou de insultar-me, lhe perguntei: ´Se és amável com as pessoas e elas não aceitam tua cortesia, a cortesia volta a ti, não é assim?´ "´Assim é´, replicou. Então disse eu: ´Agora tu me estás insultando; se eu não o recebo, então sofrerás o prejuízo, o qual retorna para ti. É tão inevitável como o eco que segue a um som ou uma sombra que segue a uma forma. Afinal não podes evitá-lo. Portanto, sê cuidadoso e não cometas ofensas´".
Seção 8 Maltratar aos demais é dano a si mesmo.
Buddha disse: "O malvado que prejudica a um sábio é como alguém que levanta sua cabeça para cuspir o céu. Em vez de alcançar o céu, a saliva lhe cai em cima. O mesmo sucede com alguém que solta poeira contra o vento. Em vez de ir para outro lugar, a poeira volta para sujar seu próprio corpo. O sábio não pode ser prejudicado. As ofensas inevitavelmente destruirão aquele que as comete".
Seção 9 Retornando à fonte, tu encontras o Caminho.
Buddha disse: "O conhecimento profundo e o amor ao Caminho fazem que o Caminho seja difícil de encontrar. Quando resguardas tua mente e reverencias o Caminho, o Caminho é verdadeiramente grandioso!".
Seção 10 A caridade com alegria proporciona bênçãos.
Buddha disse: "Quando vires que alguém pratica a caridade, ajuda-o com alegria e obterás imensas bênçãos". Um Shramana perguntou: "Há algum limite para estas bênçãos?" Buddha disse: "Pensa na chama de uma só tocha. Embora centenas de milhares de pessoas venham a acender suas próprias tochas nela para poder cozinhar seus alimentos e proteger-se da escuridão, a primeira tocha permanece igual. As bênção também são assim".
Seção 11 Diferença na doação de alimentos.
Buddha disse: "Dar alimentos a cem más pessoas não é tão bom como alimentar a uma só boa pessoa. Dar alimentos a mil boas pessoas não é tão bom como alimentar a uma só pessoa que observa os Cinco Preceitos. Dar alimentos a dez mil pessoas que mantêm os Cinco Preceitos não é tão bom como alimentar a um só Srotaapanna. Dar alimentos a um milhão de Srotaapanas não é tão bom como alimentar a um só Sakridagamin. Dar alimentos a dez milhões de Sakridagamins não é tão bom como alimentar a um só Anagamin. Dar alimentos a cem milhões de Anagamins não é tão bom como alimentar a um só Arhat. Dar alimentos a um bilhão de Arhats não é tão bom como alimentar um só Pratyekabuddha. Dar alimentos a dez bilhões Pratyekabuddhas não é tão bom como alimentar a uma só pessoa que não tem nenhum pensamento, nenhuma morada, nenhuma prática e nenhum ganho".
Seção 12 Menção das dificuldades e as exortações à prática.
Buddha disse: "As pessoas encontram vinte diferentes classes de dificuldades: É difícil dar quando se é pobre. É difícil cultivar o Caminho quando se tem uma boa posição e riquezas. É difícil abandonar a visa e enfrentar a certeza da morte. É difícil chegar a ver [ler] os Sutras budistas. É difícil nascer nos tempos de um Buddha. É difícil ter paciência com o desejo e a luxúria. É difícil ver as coisas boas e não perseguí-las. É difícil não enojar-se ao ser insultado. É difícil ter poder e não abusar do mesmo. É difícil entrar em contato com coisas sem que a mente se aferre a elas. Édifícil ter amplos conhecimentos e um saber profundo. É difícil desfazer-se do orgulho. É difícil não menosprezar àqueles que ainda não aprenderam. É difícil praticar a equanimidade. É difícil não criticar os demais. É difícil encontrar um conselheiro bom e sábio. É difícil ver a natureza de si mesmo e cultivar o Nobre Caminho. É difícil ensinar e salvar as pessoas de acordo com as suas potencialidades. É difícil encontrar-se numa situação e não deixar-se levar por ela. É difícil ter um bom entendimento das habilidades no uso dos meios (para ensinar e transformar aos seres vivos)".
Seção 13 Perguntas sobre o Caminho e as vidas passadas.
Um Shramana perguntou a Buddha: "Quais são as causas e condições que devo cultivar para conhecer minhas vidas passadas e poder entender o Caminho?" Buddha disse: "Purificando tua mente e mantendo tua determinação podes entender o Caminho. Tal como quando lustras um espelho, o pó se desvanece e o brilho permanece, assim também se acabas com o desejo e a busca, então poderás conhecer tuas vidas passadas".
Seção 14 Perguntando sobre o bem e o grandioso.
Um shramana perguntou a Buddha: "O que é praticar o bem? Que é o grandioso?" Buddha disse: "Praticar o caminho e sustentar a verdade é o bem. Unir a vontade com o Caminho é o grandioso".
Seção 15 Perguntando sobre o poder e o grandioso esplendor.
Um shramana perguntou a Buddha: "Qual é o maior poder? Qual é o Grandioso Esplendor?". Buddha disse: "A paciência frente ao insulto é o maior poder, porque aquele que é paciente não abriga o ódio, e gradualmente se torna mais pacífico e forte. As pessoas pacientes, ao não serem daninhas, ganharão seguramente o respeito dos demais." "Quando as impurezas da mente tenham desaparecido por completo, a mente não terá sujidade nem mancha alguma; esse é o grandioso esplendor. Desde tempos anteriores à formação dos Céus e da Terra até agora, nas dez direções, não existe nada que não tenha visto, conhecido ou escutado; assim obtém-se todas as sabedorias. A isto pode-se chamar o Grandioso Esplendor".
Seção 16 Deixando de lado a paixão e encontrando o Caminho.
Buddha disse: "As pessoas que estão envoltas com a paixão e o desejo, não vêem o Caminho. Tal como quando alguém revolve a água com a mão, aqueles que se quedam ao lado dela não podem ver o reflexo de suas imagens; assim também as pessoas que se encontram enredadas na paixão e o desejo tem suas mentes turvas e então não podem ver o Caminho. Vós, shramanas, deveis deixar de lado o desejo e a paixão. Quando as manchas da paixão e do desejo desaparecerem, sereis capazes de ver o Caminho".
Seção 17 Quando a luz aparece, a obscuridade se desvanece.
Buddha disse: "Aqueles que vêem o caminho são como o que sustém uma tocha ao entrar em uma habitação sem luz, dissipando a escuridão de maneira que só a luz permanece. Quando cultivas o caminho é vês a verdade, a ignorância se desvanece e a luz permanece para sempre".
Seção 18 Os pensamentos e agregados são basicamente vazios.
Buddha disse: "Meu Dharma é o da conscientização do pensar sem pensar. É a prática do praticar sem praticar, as palavras do falar sem falar e o cultivo do cultivar sem cultivar. Aqueles que o compreendem estão perto dele; aqueles que estão confusos se encontram verdadeiramente distantes. Não é acessível através da linguagem. Não se encontra obstaculado pelos objetos físicos. Ainda que te encontres tão somente à distância de um fio de cabelo, podes perdê-lo num instante".
Seção 19 A contemplação de ambas: A falsidade e a verdade.
Buddha disse: "Contempla o céu e a terra e sê consciente de sua impermanência. Contempla o mundo e sê consciente de sua impermanência. Contempla o espírito iluminado: é a natureza de Bodhi. Com esta percepção tu rapidamente obterás o Caminho".
Seção 20 Compreender que o "si mesmo" ou ego é verdadeiramente vazio.
Buddha disse: "Deves estar consciente dos quatro elementos dentro do corpo. Embora haja um nome para cada um deles, nenhum é o ´si mesmo´ ou ego. Já que eles não são o ´si mesmo´ ou ego, são como uma ilusão".
Seção 21 A fama destrói as raízes da Vida.
Buddha disse: Existem pessoas que seguindo suas emoções e desejos buscam ser famosos. No momento em que conseguem tal reputação, já se encontram mortos. Aqueles que são cobiçosos de fama mundana e não observam o Caminho, simplesmente gastarão seus esforços em vão e desgastarão seu corpo. De forma análoga, ao queimar o incenso a fragrância, quando já consumida, as brasas que caem trazem o perigo de um fogo e podem queimar uma pessoa".
Seção 22 A riqueza e o sexo causam sofrimento.
Buddha disse: "As pessoas que não são capazes de renunciar ao sexo e à riqueza, são como um menino que não pode resistir ao mel que se encontra no fio de uma faca. Ainda que não possa saciá-lo, ele a lamberá e se arriscará a cortar a língua no processo".
Seção 23 Uma família sendo pior que uma prisão.
Buddha disse: "Algumas pessoas se encontram atadas a seus lares a tal ponto que estes são piores que uma prisão. Eventualmente alguém pode ser libertado de uma prisão, porém as pessoas nunca pensam em se liberar de [do apego às] suas famílias. Acaso não acreditas no controle que exercem sobre estas pessoas as emoções, a paixão e o sexo? Embora se encontrem na goela de um tigre seus corações estão alegremente despreocupados. Porque se atiram a um lodaçal e se afogam, são eles conhecidos como ´gente comum´. Se conseguem atravessar esta porta se converterão em um Arhat que transcende a impureza".
Seção 24 O desejo sexual obstaculiza o Caminho.
Buddha disse: "De todos os desejos e anelos, não existe nenhum tão poderoso com o sexo. O desejo sexual não tem igual. Afortunadamente, é único em seu tipo. Se houvesse outro semelhante, ninguém no mundo inteiro seria capaz de cultivar o Caminho".
Seção 25 O fogo do desejo queima.
Buddha disse: "Uma pessoa com paixão e desejos é como alguém que caminha contra o vento com uma tocha acesa: seguramente queimará a mão".
Seção 26 Os demônios dos céus procuram tentar a Buddha.
O Espírito do Céu ofereceu a Buddha formosas donzelas, com a esperança de destruir sua vontade. Buddha disse: "Que vieram fazer vocês aqui, bolsas de pele plenas de sujidades? Afastem-se, não as necessito!".
Então o Espírito do Céu se tornou muito respeitoso e perguntou o significado do Caminho. Buddha lhe explicou e assim ele obteve imediatamente o fruto de Srotaapanna.
Seção 27 O Caminho é obtido logo que abandonarmos os apegos.
Buddha disse: "Uma pessoa que cultiva o Caminho é como um pedaço de madeira que flutua a favor da corrente. Se não toca nenhuma das margens, se a gente não o pega, se o fantasmas e espíritos não o interceptam, se não é atrapalhado pelos redemoinhos e se não apodrecer, lhes garanto que este pedaço de madeira chegará ao mar. Se os praticantes do Caminho não são dissuadidos pela paixão e o desejo, se não são atrapalhados em meio às muitas visões incorretas e são vigorosos no cultivo do não-atuar, lhes garanto que eles certamente obterão o Caminho".
Seção 28 Não deixem solta a mente qual um cavalo selvagem.
Buddha disse: "Tenhais cuidado, não creiais em vossas próprias mentes; vossas mentes não devem ser acreditadas. Sejais cuidadosos, não vos mistureis com o sexo; misturar-se com o sexo leva ao desastre. Assim que vos convertestes em Arhats, podereis crer em vossas próprias mentes".
Seção 29 A contemplação adequada contrapõe-se ao desejo sexual.
Buddha disse: "Deveis ser cuidadosos e não olhar as mulheres, nem conversar com elas. Se deveis falar com elas precavenham-se de forma adequada e pensais: ´Eu sou um shramana vivendo em um mundo turbulento. Serei como uma flor de lótus, que não se mancha com o barro´... Pensais nas anciãs como se fossem vossas mães, nas mais velhas que vós como se fossem vossas irmãs maiores, nas mais novas que vós como se fossem vossas irmãs menores e nas meninas como se fossem vossas filhas. Tede pensamentos relativos a vossa salvação e ponde fim aos maus pensamentos".
Seção 30 Mantenham-se afastados do ardor do desejo.
Buddha disse: "As pessoas que cultivam o Caminho são com o pasto seco: é essencial mantê-lo afastado do fogo que o cerca. As pessoas que cultivam o Caminho vêem ao desejo como algo do qual devem se manter distantes".
Seção 31 Quando a mente está quieta, os desejos se desvanecem.
Buddha disse: "Uma vez alguém sentia incessantes desejos sexuais e desejava castrar-se. Eu lhe disse: ´Cortar teu órgão sexual não é como cessar o pensamento lascivo. Tua mente é como um supervisor: se o supervisor se detém, seus empregados também o farão´. Se a mente desviada não é contida, qual o benefício do cortar o órgão?".
Buddha recitou um verso:
"O desejo nasce de tuas intenções. As intenções nascem de teus pensamentos. Quando ambos aspectos da mente estão aquietados, não há nem conduta nem pensamento".
Buddha disse: "Este verso foi dito pelo Buddha Kashyapa".
Seção 32 Esvaziar ao ego faz que o medo se extinga.
Buddha disse: "Devido à paixão e o desejo a pessoa se preocupa. Devido às preocupações nasce o medo. Se transcendes a paixão, que preocupações haveria? Que restaria para temer?".
Seção 33 A sabedoria e a claridade derrotam aos demônios.
Buddha disse: "As pessoas que cultivam o Caminho são como um soldado que vai à guerra sozinho contra dez mil inimigos. Veste-se com sua armadura e sai. Pode resultar em ser um covarde; pode chegar à metade do caminho até o campo de batalha e retira-se, pode morrer em combate ou regressar vitorioso". "Os shramanas que cultivam o Caminho devem ter determinação em suas mentes e ser vigorosos, intrépidos e valentes. Devem derrotar as hordas de demônios e realizar o fruto do Caminho, sem temer ao que encontrem mais adiante".
Seção 34 Ao manter-se no meio, obtém-se o Caminho.
Uma noite um shramana estava recitando o Sutra dos Ensinamentos Deixados pelo Buddha Kashyapa. O som de sua voz era triste enquanto refletia com inquietação sobre seu desejo de retirar-se para cultivar o Caminho. Buddha lhe perguntou: "No passado, quando eras um homem de casa, que fazias?" Ele respondeu: "Gostava de tocar alaúde". Buddha disse: "Que acontecia quando as cordas estavam frouxas?" Ele replicou: "Não soavam". "Que acontecia quando estavam demasiado tensas?" Ele respondeu: "O som se distorcia demasiado". "Que sucedia quando estavam afinadas ao ponto justo entre frouxas e tensas?" Ele respondeu: "Os sons fluíam". Buddha disse: "O mesmo sucede com um shramana que cultiva o Caminho. Se tua mente é harmoniosa, podes alcançar o Caminho. Se és impetuoso acerca do Caminho, teu ímpeto cansará teu corpo; se teu corpo está cansado, tua mente se afligirá. Se tua mente se aflige, então te afastarás de tua prática. Se afastar-te de tua prática, certamente tuas ofensas crescerão. Só necessitas ser puro, pacífico e feliz, e não perderás o Caminho".
Seção 35 Quando depura-se as impurezas, o brilho permanece.
Buddha disse: "Uma pessoa funde o metal aquecendo-o para livrá-lo de impurezas e fazer ferramentas de alta qualidade. O mesmo sucede com os que cultivam o Caminho: primeiro tendes de vos desfazeres das impurezas em vossas mentes, para que logo vossa prática se torne pura".
Seção 36 A seqüência que leva até o êxito.
Buddha disse: É difícil deixar os destinos nefastos e converter-se em um ser humano. Mesmo convertendo-se em um ser humano, é ainda mais difícil converter-se em homem do que em mulher(9). Mesmo convertendo-se em um homem, é ainda mais difícil ter os seis órgãos sensoriais completos e perfeitos. Mesmo tendo-se os seis órgãos sensoriais completos e perfeitos, é ainda mais difícil nascer no centro de um país. Mesmo nascendo no centro de um país, é ainda mais difícil nascer no tempo em que um Buddha se encontre no mundo. Mesmo nascendo no tempo em que um Buddha se encontre no mundo, é ainda mais difícil encontrar o Caminho. Mesmo que se chegasse a encontrar o Caminho, é ainda mais difícil fazer surgir a fé. Mesmo que se chegasse a fazer surgir a fé, é ainda mais difícil determinar a mente para a busca de Bodhi. Mesmo que se chegasse a determinar a mente para a busca de Bodhi, é ainda mais difícil estar além do cultivo e da obtenção".
Seção 37 Sendo conscientes dos preceitos morais estaremos perto do Caminho.
Buddha disse: "Meus discípulos podem encontrar-se a milhares de quilômetros de distância de mim; porém, se recordam meus preceitos morais com segurança obterão os frutos do Caminho". "Se aqueles que se encontram ao meu lado não seguem meus preceitos morais, poderão me ver constantemente, mas ao final não alcançarão o Caminho".
Seção 38 O nascimento leva à morte.
Buddha perguntou a um shramana: "Qual é a duração de uma vida humana?". Ele respondeu: "Uns poucos dias". Buddha disse: "Ainda não entendeste o Caminho".
Ele perguntou a outro shramana: "Qual é a duração de uma vida humana?". A resposta foi: "O tempo de uma comida". Buddha disse: "Ainda não entendeste o Caminho".
Ele perguntou a outro shramana: "Qual é a duração de uma vida humana?". Ele respondeu: "A duração de uma respiração". Buddha disse: "Excelente. Tu compreendeste o Caminho".
Seção 39 As instruções de Buddha não são parciais.
Buddha disse: "Os estudantes do Caminho de Buddha devem crer e concordar com tudo que é ensinado por Buddha. Quando comes mel, este é doce na superfície e doce no centro; o mesmo sucede com meus Sutras".
Seção 40 A prática do Caminho depende da mente.
Buddha disse: "Um shramana que pratica o Caminho não deve ser com um boi fazendo girar a pedra de um moinho. Quem assim faz percorre o Caminho com seu corpo, porém sua mente não está no Caminho. Se sua mente está concentrada no Caminho: qual é a necessidade de continuar com a prática?".
Seção 41 Uma mente reta transpassa os desejos.
Buddha disse: "Quem pratica o Caminho é como um boi arrastando uma pesada carga pelo barro profundo. O boi está tão cansado que não se anima a olhar seja para esquerda, seja para a direita. Somente ao sair do barro poderá descansar". "O shramana deverá ver os desejos e emoções como se fossem piores que o barro profundo. E com uma mente reta no Caminho, assim poderá evitar o sofrimento".
Seção 42 Entendendo que o mundo é ilusório.
Buddha disse: "Observo a realeza e as altas posições como observo o pó que flutua através de uma fenda. Vejo aos tesouros de ouro e jade como ladrilhos ordinários. Vejo as sedas e finas vestimentas como o algodão mais barato. Vejo um universo de mil grandes mundos como o fruto de uma pequena noz. Observo as águas do Lago Anavatapta como azeites para ungir os pés".
"Observo os meios hábeis como se fossem as jóias criadas em uma fantasia. Observo o veículo inigualável como um sonho com ouro e riquezas. Observo o Caminho de Buddha como se fossem flores ilusórias ante meus olhos. Observo o Samadhi Dhyana como se fosse o pilar da Montanha Sumeru. Observo o Nirvana como o estar atento dia e noite. Observo o incorreto e o correto como se fossem seis dragões que dançam. Observo a imparcialidade como o nível da única Verdade. Observo o florescer de meus ensinamentos como o florescer de uma árvore durante as quatro estações".
VERSO DE TRANSFERÊNCIA DE MÉRITO
Que o mérito e a virtude surgidos desta obra adornem as Terras Puras dos Buddhas, retribuindo a benevolência e ajudando aos que sofrem! Que os que escutem ou leiam estes três Sutras façam surgir em si o Voto de atingir a Iluminação! Que, quando chegarem ao seu fim estes seus corpos atuais, produto da retribuição de seus atos, possam todos nascer juntos na Terra da Suprema Felicidade!
Apêndice
(1) Se refere ao Buddha Shakyamuni. É uma das dez formas de referir- se a um Buddha.
(2) Caminho de preceitos, concentração e sabedoria. Os trinta e sete fatores da Iluminação.
(3) Roda do Dharma das Quatro Nobres Verdades Roda da Lei. A Verdade de Buddha que roda de homem em homem, de lugar em lugar, de era em era. Pô-la em movimento significa pregar esta verdade.
1ª Nobre Verdade A condição básica da existência humana é a insatisfação ou sofrimento (dukkha). 2ª Nobre Verdade Esta insatisfação ou sofrimento tem uma causa: tanha, traduzido como desejo (buscar satisfação nos objetos dos sentidos). 3ª Nobre Verdade A causa do sofrimento pode ser eliminada. 4ª Nobre Verdade O caminho da salvação e eliminação desta causa é o Nobre Caminho Óctuplo, que pode sintetizar-se em três seções:
Sabedoria Correta compreensão (do Dharma), Correto Pensamento (motivação altruísta).
Moralidade Correta Linguagem, Correta Ação (cinco preceitos), Corretos Meios de Vida, Correto Esforço (sujeitar nossas paixões e controlar a mente). Meditação Correta Atenção, Correta Concentração (técnicas de controle mental)
(4) Bhikshu: monge budista. Literalmente esta palavra significa: "destruidor do mal"; "o que assusta a Mara"; "mendicante".
(5) Dharma não-condicionado: não sujeito a uma causa ou condição; permanente, eterno, livre de paixões ou sentidos; está fora do tempo, supramundano.
(6) Shramana: asceta: em sânscrito "sram"; significa "fazer esforço" por realizar austeridades; aquietar a mente e as paixões.
(7) Quatro caminhos verdadeiros: as Quatro Nobres Verdades.
(8) Arhat: aquele que destrói suas aflições provocadas por cobiça, ó dio e ignorância. Aquele que merece oferendas. Aquele que se liberou do nascimento.
(9) Nota de Tam Huyen Van (Claudio Miklos), tradutor da versão portuguesa, não pertencente ao texto original.: Este verso é polêmico e algo constrangedor; contudo, devemos relembrar que à época de Buddha e pelos séculos seguintes a imagem da mulher como elemento principal em práticas ascéticas era, no mínimo, apagada. Provavelmente a intenção de Buddha foi afirmar que a luta para superar a condição repressiva da mulher naquela época – presa a um grande número de restrições e limitações – seria muito mais difícil; nascendo homem, o sujeito teria mais condições e liberdade de optar pelo caminho espiritual. Além disso, durante muito tempo o sangha de Buddha não comportava monjas (apenas discípulas leigas), e portanto a prática monástica no Caminho estava restrita aos homens. Não acredito que tais palavras tenham saído da boca de um Buddha como forma de desprezo pelas mulheres. Isso seria um absurdo contra o Dharma.
Comentários
Seção 2
Quando eles alcançam o estado de renunciar a obter algo dentro deles e renunciam a buscar algo fora deles; mentalmente não estão atados ao Nobre Caminho, o cultivam naturalmente e não estão atados ao karma, sendo-lhes impossível criar qualquer tipo de mal karma. Estão livres de ação e pensamento: não tem falsos pensamentos, senão pensamentos apropriados, assim como não realizem ações supérfluas ou falsas. Não praticam nem obtém resultado da prática: já fizeram o que deviam fazer, nada ficou para trás e já obtiveram a resposta fundamental de sua prática. As diferentes etapas foram transcendidas, são reverenciadas; assim é o caminho percorrido por um shramana.
Seção 9
Conhecimento profundo: aqui se refere ao conhecimento que depende da memória e do intelecto, sem a prática dos princípios. Amor ao Nobre Caminho: se refere ao que sabe que o Caminho é excelente, mas todavia tem falsos pensamentos e não percebe que o Caminho está em sua própria mente e não fora dela.
Seção 10 O mérito e a virtude do que dá habilitará a ele e a outros a recolher os frutos do Caminho. Poderá purificar os três obstáculos (karma, retribuição e aflições), e as pessoas que alegremente o ajudem também poderão fazê-lo. Este mérito é virtude serão compartilhados por todos igualmente.
Seção 11
Alimento: aqui significa qualquer tipo de oferenda. Srotaapanna: sábio que alcançou o primeiro nível da vida monástica segundo a tradição [Theravada]. Sakridagamin: o que alcançou o segundo nível da vida monástica. Renascerá uma vez mais antes de alcançar o Nirvana. Anagamin: o que alcançou o terceiro nível da vida monástica e eliminou os nove graus de ilusão do pensamento na região do desejo. Arhat: são também chamados "os que escutam o som", porque escutam o som da voz de Buddha e despertam para a prática do Caminho. Pratyekabuddha: o que se ilumina ao contemplar os doze elos condicionados das causações, a impermanente natureza dos milhares de fenômenos. Uma só pessoa que não tem nenhum pensamento, nenhuma morada, nenhuma prática e nenhuma obtenção: sem pensamento significa "pensar sem pensar"; sem morada significa "residindo sem residir"; sem prática significa "praticando sem praticar"; sem obtenção significa "que obtém sem obter"; ou seja: tudo feito sem apego. Este ser alcançará o nível inicial do ensinamento perfeito, e é conhecido como "o grande cavalheiro que obteve o corpo do Dharma".
Em síntese, esta Seção quer significar que se fazemos oferendas a más pessoas, estaremos cometendo ofensas; se fazemos oferendas a boas pessoas, criaremos mérito e virtude.
Seção 15
Quando se sabe tudo o que aconteceu desde um tempo sem começo e não há nada que não tenha sido escutado ou visto, se obtém a total sabedoria, e somente isto é compreensão genuína e sabedoria genuína, ou seja, o grandioso esplendor da mente pura e onisciente.
Seção 18
Não ser apegado à prática, ao cultivo, às palavras. Os apegos são vazios, são irreais, sem características próprias.
Membros do Comitê que colaboraram neste trabalho:
Revisão da tradução e confecção dos comentários e notas com base nas palavras do Venerável Mestre Hsuan Hua: Bhikshuni Dzau Dzan Bhikshuni Heng Jhuang Bhikshuni Heng Yin
Tradução ao castelhano e tipografia do texto: Shou Ien (Sergio Chammah)
Correção do texto: Upasika Shou Chi (Maria Isabel Zapico) Upasaka Shan Ke (Gustavo F. Brahamian)
Edição: Upasaka Shan Ke (Gustavo F. Brahamian)
Revisão do texto em Português: Upasaka Shan Ke (Gustavo F. Brahamian)
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